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quinta-feira, 25 de junho de 2026

Tríptico triunfal - Crónica da terceira Corrida da Feira de S. João 2026




Diz-se que o melhor da festa é esperar por ela. Também o é mas, o melhor desta Feira de S. João de 2026, foi o viver a Festa! João Moura Jr., João Ribeiro Telles, Fernando Adrián, os Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense (GFATTT) e os Amadores do Ramo Grande (GFARG) fecharam a Feira diante de exemplares de Rego Botelho (RB) e João Gaspar (JG), precisamente no dia do S. João, 24 de Junho.

João Moura Jr. enfrentou um nobre JG (N°43, 498kg) que saía de largo numa viagem recta. Uma sorte de gaiola vistosa iniciou uma boa lide que, com bom entendimento, tirou partido do toiro e foi explanando todo o toureio e forma de estar na arena de Moura. Reuniões e remates justíssimos, para gáudio da assistência. Rubricou a sua passagem por esta edição da Feira com uma actuação de nível superior. O RB (N°63, 567kg) carregava nas sortes e veio a mais ao longo da contenda, dando bom jogo. O Cavaleiro interessou-o e cravou com batidas templadas ao piton contrário. Cada passagem fazia eco nas bancadas, com destaque para o 3° ferro curto. Esteve criterioso nas escolhas de terrenos e fechou com duas mourinhas que lhe renderam larga ovação.

João Ribeiro Telles recebeu o JG (N°26, 575kg) à porta dos curros. A um exemplar cumpridor, que se foi entregando nobremente, aplicou uma lide de ligação que terminou em grande plano. Lidou a gosto, com ferros emotivos que não deixaram indiferentes os setores da praça. Sortes bem preparadas e com grande conexão com o toiro. O segundo do seu lote era o "Lancero" (RB, N°62, 514kg). Bem apresentado, com codicia, saía de pronto, carregava na reunião e teve imensa duração. Resumindo: era bravo! E brava foi a lide triunfal. Iniciou à porta "dos sustos" para a desenhar com sortes em terrenos de compromisso, rematadas com bregas milimétricas. O 2° ferro curto foi uma sorte de catálogo, a consentir a investida do toiro e a aguentá-lo debaixo do braço. Volta para a ganadera no final da lide.

O Matador Fernando Adrián teve matéria prima para mostrar o toureio que traz dentro de si. O RB (N°70, 440kg) foi melhorando ao longo da lide, investindo com nobreza e recorrido. Com o Capote esteve reservado. Destaque para o bom tércio de bandarilhas por Pablo Gallego e João Pedro Silva "Açoriano". Lide de entrega e poderio onde Adrián fixou o compasso e foi desenhando séries com plasticidade e profundidade, baseando-se essencialmente na mão direita. Sofreu uma voltareta que se veio a revelar sem consequências. O segundo (RB, N°69, 479kg) trazia as mesmas características do anterior, mas era mais codicioso e entregou-se logo de início. Lanceou à Verónica para, depois, com a Muleta oferecer uma muito boa lide onde o temple foi palavra de ordem. Tirou partido de tudo o que o exemplar da divisa azul e branca trazia dentro. Séries profundas, ligadas e com repetição espalharam o perfume do toureio do Matador madrileno.

Tomás Cunha, pelo GFATTT, abriu praça com uma rija pega à primeira, sendo bem ajudado. Francisco Matos foi colhido com gravidade diante do 4° da tarde e foi dobrado por Eduardo Rico que resolveu a sesgo numa pega em que foi fulcral a intervenção do primeiro ajuda Fernando "Mangueira" Ferreira.
Pelo GFARG Rui Dinis (cabo) fechou-se bem à primeira sem dificuldades e com boa intervenção do grupo. Luís Valadão saiu lesionado após duas tentativas. Na dobra, Gonçalo Batista resolveu bem numa pega a sesgo.

A Corrida foi dirigida por Ricardo Costa com a assessoria de Vielmino Ventura. Abrilhantou a Banda da Sociedade Filarmónica Rainha Santa Isabel das Doze Ribeiras.

Bruno Bettencourt 
Fotos: Tertúlia Tauromáquica Terceirense

terça-feira, 23 de junho de 2026

O brilho de Pamplona e o brio de Pérez - Crónica da segunda Corrida da Feira de S. João 2026


Segundo dia de Feira de S. João, primeira Corrida Mista do certame e, novamente, muito público a mostrar que a tauromaquia é parte constituinte do ser terceirense. João Moura Jr., João Pamplona, Marco Pérez, Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense (GFATTT) e Amadores de Turlock (GFAT). Casa Agrícola José Albino Fernandes (JAF) e João Gaspar (JG).

O JAF (N°256, 480kg) fixou-se e cumpriu, com durabilidade, apesar das parcas forças. João Moura Jr. interpretou-o e desenhou uma lide de entendimento, adequando os tempos ao toiro, cuidando-o com temple e cadência. Recriou-se na cara do oponente, chegando às bancadas que cedo lhe tributaram ovações. O segundo do seu lote (JG) viria a lesionar-se no início da cravagem dos curtos e a organização permitiu que fosse lidado o sobrero. O JG (N°38 415kg) era impetuoso e vinha de largo com velocidade. Tinha muitas teclas e foi-se parando nos médios, no final. Recebeu-o com uma sorte de gaiola emotiva, para depois prosseguir com uma boa lide, ajustando as montadas às exigências, mas sem romper totalmente.

João Pamplona recebeu um toiro JG (N°24, 510kg) que tinha tanto de beleza física como de comportamento. Recebeu-o com sorte de gaiola bem desenhada, fazendo antever uma lide em plano superior. Tirou partido do oponente e agarrou as bancadas. Muito correcto na escolha de terrenos e justo nas cravagens, saiu sob forte ovação, após cravagem de um explosivo ferro de palmo. O JAF (N°278, 467kg) era muito bom. Investia em todos os terrenos, de forma recta, clara e com transmissão. Em sintonia, o Cavaleiro da Quinta do Malhinha rubricou uma grande lide. Um primeiro ferro curto à meia volta, daria o mote para uma série de cravagens com nota elevada. Arriscou e transmitiu emoção. A sua forma segura e clássica de equitador, aliou-se à irreverência e raça toureira que ecoou nas bancadas e resultou em duas voltas à arena.

Marco Pérez apresentou-se como Matador na ilha Terceira, após ter passado pela mesma arena há alguns anos. Teve pela frente dois exemplares JAF (N°312, 447kg e N°310, 433kg). O que lhes faltava em força sobrava em nobreza. Viagens rectas e templadas, com destaque para o segundo do lote que teve mais duração e ainda mais maneabilidade. Na primeira faena assistiu-se a um toureio de recorte fino quer com o Capote, como com a Muleta. Acoplou-se ao toiro e mostrou que vinha para triunfar. Destaca-se uma bonita série pela direita, rematada com um infinito passe de peito. Com o segundo exemplar citou a meia altura, rentabilizando as condições do toiro e fazendo-o durar. Mostrou o seu poderio com a flanela vermelha, imprimindo profundidade a cada passagem do hastado. Deu tempo e espaço, criando faena onde muitos teriam dificuldade. No final, duas voltas à arena.

Pelo GFATTT, João Bettencourt consumou à segunda, sendo bem ajudado. Tomás Costa resolveu à terceira com ajudas carregadas. Com a jaqueta do GFAT, Fábio Vieira fechou-se à primeira sem dificuldades. Bryce Rocha, à segunda, fechou-se numa rija pega, rubricando a presença do grupo cinquentenário na Feira de S. João.

A corrida foi dirigida por Leandro Pires, assessorado por José Paulo Lima. Abrilhantou a centenária Banda da Sociedade Filarmónica Recreio Serretense.


Bruno Bettencourt 

Foto: Tertúlia Tauromáquica Terceirense

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Outra vez Moura - Crónica da primeira corrida da Feira de S. João 2026


Angra do Heroísmo materializou, uma vez mais, o porquê de ser um contínuo coração pulsante no meio do Atlântico. A celebração de S. João Batista invadiu a cidade e a ilha, trazendo com ela a Feira taurina que ostenta o nome do patrono popular.

"Lotação esgotada"! Estas duas palavras, encimando a Porta Grande da Praça de Toiros "Ilha Terceira", receberam todos aqueles que ali se encontravam para assistir à Corrida à Portuguesa no dia 21 de Junho. O entusiasmo e a expectativa eram palpáveis. Os nomes de Tiago Pamplona, João Moura Jr., João Ribeiro Telles, Forcados Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense (GFATTT) e Amadores de Turlock (GFAT), Rego Botelho (RB) e João Gaspar (JG), enchiam um cartaz deveras apelativo.

Tiago Pamplona abriu a corrida que marcou os seus 20 anos de alternativa. Duas décadas de dedicação, resiliência e afirmação, honrando uma dinastia e a terra que o viu nascer. Foram precisamente as características referidas que marcaram a sua primeira lide. O RB (n°74, 460kg) vinha bem apresentado, mas tinha algumas dificuldades de visão, mercê da conformação dos pitons. Com debilidade de forças, pedia que o provocassem e, ainda assim, arrancava tarde. Lide de entendimento a trazer o toiro com medidas tiradas, mexendo-lhe nas querenças e metendo-o na luta, ainda que, por vezes, algumas das sortes não resultassem em pleno. Com o bonito, volumoso e sério JG (n°44, 539kg) a história seria outra. Um bom toiro e uma lide em plano de triunfo. O Cavaleiro foi palmilhado terreno e, a cada ferro, foi fazendo ouvir as bancadas. Se iniciou a série de curtos com um grande ferro a respeitar os tempos do toiro, terminou com um ferro de palmo que fez levantar a assistência numa explosão de emoção.

João Moura Jr. entrou em praça trazendo à lembrança a encerrona que protagonizou em 2025. Se bem lembrou, melhor o executou. Era bonito e bravo o JG (n°41, 476kg), com uma entrega constante até ao fim da lide. Pela frente teve a arte mourista que lhe rubricou uma lide triunfante, fazendo tremer a praça. Bregas e remates justíssimos e ferros de tirar a respiração, como foi o caso do 3° curto, à meia volta e em terrenos apertadíssimos, junto à porta dos curros. A dose havia de ser repetida no ferro seguinte, ainda que noutros terrenos, e a Praça ia vindo abaixo. O RB (n°61, 503kg) não comprometeu, colaborou e metia bem a cara. Moura Jr. leu-o de imediato e, logo chegou ao público com com batidas templadas e cravagens a aguentar a viagem impetuosa do toiro. Duas mourinhas e o público em delírio encerraram a lide.

João Ribeiro Telles mostrou inteligência ao perceber as condicionantes do oponente. O RB (n°64, 464kg) tinha chispa e vontade de investir, no entanto, transpareceu dificuldades morfológicas que lhe condicionavam o ímpeto na investida. Telles esperou-o à porta dos curros, dobrou-se a receber e foi cuidando do toiro, conseguindo que este tivesse a duração pretendida. Remates cingidos, a rubricar sortes onde estiveram patentes todos os tempos e cadências de forma correcta. Fechou uma boa lide com um melhor ferro curto. E porque há dias desafiantes, foi recolhido o último da tarde/noite (JG) para ser substituído pelo sobrero RB (n°41, 519kg). O toiro, que viria a dar água pela barba à forcadagem, perdeu o gás bastante cedo, ficando-se em curto, indo só pela certa e não carregando as sortes. Dois ferros compridos e três curtos resumem a lide possível diante de um oponente sem grandes possibilidades.

Na forcadagem, viveram-se muitos dos sentimentos que alimentam a Festa e esta forma de arte: glória, superação, camaradagem, susto e sofrimento. Pelo GFATTT despediu-se um dos grandes forcados da ilha Terceira, Carlos Vieira "Cabeça". O mais velho de uma família de 5 irmãos forcados, fechou-se à primeira numa grande pega em que foi levado pelo alto e aguentou duros derrotes até chegar à preciosa ajuda do grupo. Bernardo Belerique (cabo), à primeira, respeitou os tempos, consentiu a viagem e trouxe o toiro toureado até se fechar com máxima eficácia. Deu uma aula. João Vieira "Cabeça" saiu em maca (felizmente sem consequências), após duas tentativas em que aguentou barbaridades e que quase se transformaram naquela que poderia ser a pega da Feira. Na dobra, Francisco Matos resolveu com ajudas carregadas.

Pelo GFAT que está em ano de Bodas de Ouro, Sérgio Tirado resolveu à segunda, aguentando a paragem do toiro a meio da viagem e a fechar-se com eficácia. Joey Pereira fechou-se com raça à segunda mostrando muito querer. Aaron Teixeira encontrou um comboio de alta velocidade pela frente. Duas tentativas em que o grupo foi sendo despejado com derrotes altos e, no final das quais, foram saindo forcados lesionados. David Sanchez substituiu o colega que saiu maltratado e fechou-se a sesgo com valentia e as ajudas carregadas.

A corrida dirigida, diligentemente, por Ricardo Costa, assessorado por Vielmino Ventura contou com um minuto de silêncio, no início, em homenagem a António Vielmino Ventura, José Alpoim Bruges e António Silveira Dinis, figuras ligadas à tauromaquia, recentemente falecidos. Homenagens ao GFAT pelos 50 anos de história a elevar a arte de pegar toiros, desde os EUA, nas mais diversas praças mundiais e a Tiago Pamplona pelos 20 anos de alternativa como Cavaleiro Tauromáquico. Entre as lembranças entregues, destaque para o pasodoble "Glória na Arena - Tiago Pamplona" da autoria de Hélder Linhares, oferecido pela família do Cavaleiro e estreado pela Banda do Senhor Santo Cristo de Toronto que abrilhantou a corrida.

Bruno Bettencourt 

Foto: Tertúlia Tauromáquica Terceirense 

terça-feira, 21 de outubro de 2025

O último touro de Morante...

Partilhamos aqui o vídeo com o último touro lidado por Morante de La Puebla, antes de cortar a coleta.

Foto: Borja Sánchez-Trillo/EFE
Vídeo: CMM

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Corrida de emoções - Crónica da Corrida das Festas da Praia 2025



Expectativa, ansiedade e vontade… Um misto de sentimentos que foram crescendo e foram rodeando os dias e as horas que antecederam a corrida das Festas da Praia de 2025. Foram muitos os que se deslocaram à Ilha Terceira. Cada vez mais, e com base no que é dito por quem nos visita, esta terra é o santuário de algo que vai mais além da “simples” palavra afición. Esta terra é o santuário da taurinidade e tem na Praça de Toiros “Ilha Terceira” a sua Catedral. Uma vez mais, as ganadarias terceirenses de Rego Botelho (RB) Casa Agrícola José Albino Fernandes (JAF) e João Gaspar (JG) estiveram em disputa.

Filipe Gonçalves abriu a tarde com ousadia. A ousadia daqueles que buscam e arriscam logo de início, dizendo “Presente” à chamada do triunfo. O exemplar RB (n°46, 476kg) veio a mais ao longo da lide e mostrou-se colaborante. O Cavaleiro algarvio entendeu o oponente e tirou as devidas vantagens do seu comportamento. Cedo chegou às bancas com um toureio emotivo baseado em ferros com batidas ao piton contrário, cravados em terrenos de compromisso. A destacar, entre outros, o quarto ferro curto: uma reunião aquelas que fazem parar corações. A Corrida abriu assim num patamar superior. O JG (n°34, 472kg), que lidou em segundo lugar, era bonito mas, cedo mostrou alguma debilidade em termos de força, o que fez com que se fosse defendendo ao longo da lide. Aqui, assistiu-se a outro tipo de abordagem. Bem nas bregas e mantendo o tom das cravagens, viu-se um Cavaleiro trabalhador e mais paciente, que procurou contornar as dificuldades do oponente, saindo por cima do mesmo.

Para a montada de Tiago Pamplona, saiu um bonito JG (n°36, 505kg), pleno de trapio. Um bom toiro que se entregou durante toda a contenda. O toureio clássico à portuguesa é uma das formas de arte mais pura e bonita, quando bem delineado e executado. Assim o fez o Cavaleiro da Quinta do Malhinha. Com serenidade e frontalidade, desfrutou do bom toiro que tinha pela frente e rubricou uma boa lide, com cravagens correctas e muita inteligência na escolha dos terrenos. Se o fez com o primeiro toiro, assim o repetiu com o RB (n°57, 431kg). Eficácia com quatro ferros curtos de boa nota, diante de um exemplar que exigia que o conduzissem de forma adequada. O Cavaleiro expôs, novamente, as virtudes do classicismo português ao contornar, gradualmente, as exigências do oponente. De realçar o facto de Tiago Pamplona se ter lesionado, com alguma gravidade, num treino, dois dias antes da corrida e, ainda assim, esteve em praça sem que a assistência percebesse que estava diminuído fisicamente.

Luís Rouxinol Jr. também segurou a Corrida no patamar do triunfo. Regressou à ilha para mostrar o grande momento em que se encontra. É Cavaleiro por valor próprio. Já não é “só” o filho de alguém. O JAF (n°208, 478kg) que tinha pela frente, era bom e pedia contas. Rouxinol interpretou-o com acerto e recriou-se, ferro após ferro. Maturidade e irreverência andaram de mãos dadas fazendo eco nas bancadas, numa lide redonda e triunfante. Com uma grande prestação, viria a fechar a corrida, diante de um belo JG (n°31, 440Kg). O toiro era uma estampa e vinha de largo. Com ele, veio o Cavaleiro com o seu toureio a galvanizar a assistência. Nota de realce para o quarto ferro curto. Saiu de praça sob forte ovação e com o público a pedir mais.

A expectativa também pousou na forcadagem. Grupos de Forcados Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense (GFATTT) e Aposento da Chamusca (GFAAC). Pelo GFATTT deu o mote o novel Cabo Bernardo Belerique. Depois de uma primeira tentativa em que foi despejado pelo toiro e saiu tocado, fechou-se à segunda, com valentia, aguentando barbaridades durante a viagem. Francisco Matos, com a eficiência habitual realizou uma boa pega à segunda, sendo bem ajudado pelo grupo. Carlos Vieira fechou-se à primeira com técnica e eficácia, contando com uma grande intervenção do primeiro ajuda Fernando Ferreira. O GFAAC regressou à ilha após 17 anos, numa digressão que despertou muitas atenções. O Cabo João Saraiva pegou à primeira numa rija pega que resultou de uma mistura de querer, força e experiência. Esteve enorme na cara do toiro. Joviano Bettencourt, forcado natural da Terceira, pegou à segunda na Praça da terra que o viu nascer e crescer. Após ter escorregado antes de se fechar na primeira tentativa, realizou de forma correcta uma boa pega que contou com uma primeira ajuda eficaz de Pedro Ribeiro. A Corrida fechou com uma verdadeira aula sobre a arte de pegar toiros. Vasco Coelho dos Reis fez o difícil parecer fácil. Um forcado de eleição que deu lição na arena. Citou, mandou, aguentou, respeitou criteriosamente os tempos do toiro que tinha pela frente e fechou-se de forma perfeita à primeira.

As emoções também estiveram em praça com duas despedidas: Joviano Bettencourt cumpriu o sonho de se fardar e pegar “em casa” e, após esta realização, despediu-se enquanto forcado activo diante das suas gentes que lhe tributaram forte e emotiva ovação. Com a mesma intensidade foi brindado o Bandarilheiro Jorge Silva que, depois de quase 25 anos de alternativa, cortou a coleta e despediu-se das arenas. Um toureiro de muita entrega e humildade que muito contribuiu para a história da tauromaquia dos Açores.

A Corrida foi dirigida, com diligência, por Ricardo Costa, que esteve assessorado por José Paulo Lima. Abrilhantou, com maestria, a Banda da Sociedade Filarmónica Espírito Santo da Agualva.

Bruno Bettencourt

Foto: CMPV



segunda-feira, 21 de julho de 2025

Arte por inteiro – Crónica do Espectáculo Taurino do Ramo Grande 2025



Um quadro deixado a meio, uma composição musical inacabada, uma peça de teatro sem guião… Formas de arte que se ficam pela metade, são formas de arte incompletas, Não são vividas nem sentidas por inteiro. O toureio, enquanto forma de arte, não foge à regra. Uma lide incompleta, deixa incompleto quem assiste. Infelizmente, tem sido este o cenário nos últimos anos na ilha Terceira, no que ao Toureio a Pé diz respeito. Não porque os carteis sejam mal montados, não porque os ganaderos não têm trabalhado bem…. Tem-no sido porque no momento fulcral, os reis da festa, os toiros, não têm permitido ver obras de arte completas. No intitulado “Espectáculo do Ramo Grande” de 2025 provou-se que quando a obra é completa, os aficionados vibram e, com isto, mostram que o Toureio a Pé está vivo nesta terra e que as Corridas Mistas são apetecíveis.

Estavam anunciados 6 exemplares novilhos-toiros (que pela sua boa apresentação e trapio, apesar dos pesos registados, serão designados como toiros no decorrer desta crónica). A cavalo foram lidados quatro de João Gaspar (JG) e, na lide apeada, um de Rego Botelho (RB) e outro da Casa Agrícola José Albino Fernandes (JAF).

Com uma resenha do seu percurso de Mestre do toureio e uma sonora ovação, Paulo Caetano foi homenageado pela União Tauromáquica do Ramo Grande, organizadora do evento, antes do início das lides.

Abriu praça João Moura Caetano, filho do primeiro homenageado da tarde. Diante do nº35 (413Kg) de JG traçou uma boa lide, ainda que pouco regular nas cravagens. O toiro era colaborante, apesar de carregar pouco nas sortes. O Cavaleiro dobrou-se bem com ele e foi-se ligando nas bregas, mexendo-lhe com os terrenos. O JG (nº32, 444Kg), segundo do seu lote, era bonito e deu boa réplica, empregando-se na reunião com codícia. Caetano esteve correcto nas cravagens e nas abordagens às sortes, numa lide marcada pela constante intervenção dos bandarilheiros/peões de brega na colocação do toiro.

João Salgueiro da Costa veio à ilha Terceira mostrar, por inteiro, o bom momento que atravessa. Diante de um JG (nº33, 410Kg), que foi perdendo ímpeto e começou a pedir que lhe pisassem terrenos de compromisso, o Cavaleiro mostrou o seu talento e toureria. Uma lide sempre em patamar superior, com abordagens frontais e a tocar bem as teclas do toiro, fazendo chegar às bancadas a melodia do seu toureio. Melodia essa que deveria ter vindo da bancada mas, não lhe foi concedida música durante a lide. Ação (ou inação!) do Director de Corrida bastante questionável. O último da tarde, já noite, (JG, nº28, 458Kg) revelou bom comportamento e respondeu bem ao mando do Cavaleiro. Salgueiro da Costa não baixou o nível, impôs-se novamente e, com um grande ferro em “sorte de gaiola”, galvanizou a assistência, rumando ao triunfo. Entendeu o toiro e recriou-se de forma correcta, com cravagens plenas de emoção. De notar o facto de ter utilizado a mesma montada durante toda a lide. Encerrou com um ferro curto de nota superior.

Ismael Martin, jovem Matador nascido na Suíça, teve a sorte e o condão de rubricar duas lides completas, diante dos bons exemplares que teve pela frente. O primeiro (RB, nº76, 405Kg), um bonito jabonero, empregou-se na muleta e foi mostrando nobreza e duração de investida. Martin, que assim se estreava em praças portuguesas, mostrou recursos com o Capote, chegando rapidamente à assistência com vistosas Lopecinas. Após um tércio de bandarilhas onde esteve irrepreensível, lidou com a mão baixa e foi tirando partido das condições do oponente, por ambos os lados. Uma boa lide onde se destacaram Derechazos com ligação e profundidade. O seu segundo (JAF, nº243, 481Kg), um flavo bem rematado, entregou-se e embebeu-se na Muleta, ainda que por vezes protestasse pela esquerda. Uma vez mais, Martin mostrou ofício e sede de triunfo. Uma grande lide a sacar tudo o que de bom o toiro trazia. Lide de quietude a chegar às bancadas, valendo-lhe duas voltas ao redondel sob forte ovação.

Grupos de Forcados: Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense (GFATTT) e Amadores do Ramo Grande (GFARG). As duas jaquetas da ilha Terceira estiveram ao melhor nível realizando todas as pegas ao primeiro intento. Pelo GFATTT João Bettencourt fechou-se muito bem à barbela sem dificuldade e João Vieira esteve enorme a aguentar um duro derrote do toiroPelo GFARG Rui Dinis aguentou a investida ensarilhada do toiro e fechou-se brilhantemente. Gonçalo Batista fechou com uma grande pega a aguentar uma viagem dura, merecendo realce a determinante intervenção do primeiro ajuda Pedro Pereira.

No decorrer do intervalo foi também homenageado o crítico tauromáquico Mário Aguiar Rodrigues. Um dos nomes incontornáveis no que à divulgação e informação taurina dizem respeito, quer seja na imprensa escrita, rádio ou televisão. Deixo também a minha vénia por todo o seu percurso e sapiência.

O Espectáculo foi dirigido por Leandro Pires que pecou pelo critério utilizado aquando da primeira lide de João Salgueiro da Costa. Foi assessorado por Vielmino Ventura.

A abrilhantar (bem!) a Banda da Sociedade Filarmónica Progresso Lajense (Sociedade Nova).


Bruno Bettencourt

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