About

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Outra vez Moura - Crónica da primeira corrida da Feira de S. João 2026


Angra do Heroísmo materializou, uma vez mais, o porquê de ser um contínuo coração pulsante no meio do Atlântico. A celebração de S. João Batista invadiu a cidade e a ilha, trazendo com ela a Feira taurina que ostenta o nome do patrono popular.

"Lotação esgotada"! Estas duas palavras, encimando a Porta Grande da Praça de Toiros "Ilha Terceira", receberam todos aqueles que ali se encontravam para assistir à Corrida à Portuguesa no dia 21 de Junho. O entusiasmo e a expectativa eram palpáveis. Os nomes de Tiago Pamplona, João Moura Jr., João Ribeiro Telles, Forcados Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense (GFATTT) e Amadores de Turlock (GFAT), Rego Botelho (RB) e João Gaspar (JG), enchiam um cartaz deveras apelativo.

Tiago Pamplona abriu a corrida que marcou os seus 20 anos de alternativa. Duas décadas de dedicação, resiliência e afirmação, honrando uma dinastia e a terra que o viu nascer. Foram precisamente as características referidas que marcaram a sua primeira lide. O RB (n°74, 460kg) vinha bem apresentado, mas tinha algumas dificuldades de visão, mercê da conformação dos pitons. Com debilidade de forças, pedia que o provocassem e, ainda assim, arrancava tarde. Lide de entendimento a trazer o toiro com medidas tiradas, mexendo-lhe nas querenças e metendo-o na luta, ainda que, por vezes, algumas das sortes não resultassem em pleno. Com o bonito, volumoso e sério JG (n°44, 539kg) a história seria outra. Um bom toiro e uma lide em plano de triunfo. O Cavaleiro foi palmilhado terreno e, a cada ferro, foi fazendo ouvir as bancadas. Se iniciou a série de curtos com um grande ferro a respeitar os tempos do toiro, terminou com um ferro de palmo que fez levantar a assistência numa explosão de emoção.

João Moura Jr. entrou em praça trazendo à lembrança a encerrona que protagonizou em 2025. Se bem lembrou, melhor o executou. Era bonito e bravo o JG (n°41, 476kg), com uma entrega constante até ao fim da lide. Pela frente teve a arte mourista que lhe rubricou uma lide triunfante, fazendo tremer a praça. Bregas e remates justíssimos e ferros de tirar a respiração, como foi o caso do 3° curto, à meia volta e em terrenos apertadíssimos, junto à porta dos curros. A dose havia de ser repetida no ferro seguinte, ainda que noutros terrenos, e a Praça ia vindo abaixo. O RB (n°61, 503kg) não comprometeu, colaborou e metia bem a cara. Moura Jr. leu-o de imediato e, logo chegou ao público com com batidas templadas e cravagens a aguentar a viagem impetuosa do toiro. Duas mourinhas e o público em delírio encerraram a lide.

João Ribeiro Telles mostrou inteligência ao perceber as condicionantes do oponente. O RB (n°64, 464kg) tinha chispa e vontade de investir, no entanto, transpareceu dificuldades morfológicas que lhe condicionavam o ímpeto na investida. Telles esperou-o à porta dos curros, dobrou-se a receber e foi cuidando do toiro, conseguindo que este tivesse a duração pretendida. Remates cingidos, a rubricar sortes onde estiveram patentes todos os tempos e cadências de forma correcta. Fechou uma boa lide com um melhor ferro curto. E porque há dias desafiantes, foi recolhido o último da tarde/noite (JG) para ser substituído pelo sobrero RB (n°41, 519kg). O toiro, que viria a dar água pela barba à forcadagem, perdeu o gás bastante cedo, ficando-se em curto, indo só pela certa e não carregando as sortes. Dois ferros compridos e três curtos resumem a lide possível diante de um oponente sem grandes possibilidades.

Na forcadagem, viveram-se muitos dos sentimentos que alimentam a Festa e esta forma de arte: glória, superação, camaradagem, susto e sofrimento. Pelo GFATTT despediu-se um dos grandes forcados da ilha Terceira, Carlos Vieira "Cabeça". O mais velho de uma família de 5 irmãos forcados, fechou-se à primeira numa grande pega em que foi levado pelo alto e aguentou duros derrotes até chegar à preciosa ajuda do grupo. Bernardo Belerique (cabo), à primeira, respeitou os tempos, consentiu a viagem e trouxe o toiro toureado até se fechar com máxima eficácia. Deu uma aula. João Vieira "Cabeça" saiu em maca (felizmente sem consequências), após duas tentativas em que aguentou barbaridades e que quase se transformaram naquela que poderia ser a pega da Feira. Na dobra, Francisco Matos resolveu com ajudas carregadas.

Pelo GFAT que está em ano de Bodas de Ouro, Sérgio Tirado resolveu à segunda, aguentando a paragem do toiro a meio da viagem e a fechar-se com eficácia. Joey Pereira fechou-se com raça à segunda mostrando muito querer. Aaron Teixeira encontrou um comboio de alta velocidade pela frente. Duas tentativas em que o grupo foi sendo despejado com derrotes altos e, no final das quais, foram saindo forcados lesionados. David Sanchez substituiu o colega que saiu maltratado e fechou-se a sesgo com valentia e as ajudas carregadas.

A corrida dirigida, diligentemente, por Ricardo Costa, acessorado por Vielmino Ventura contou com um minuto de silêncio, no início, em homenagem a António Vielmino Ventura, José Alpoim Bruges e   José Pereira Dinis, figuras ligadas à tauromaquia, recentemente falecidos. Homenagens ao GFAT pelos 50 anos de história a elevar a arte de pegar toiros, desde os EUA, nas mais diversas praças mundiais e a Tiago Pamplona pelos 20 anos de alternativa como Cavaleiro Tauromáquico. Entre as lembranças entregues, destaque para o pasodoble "Glória na Arena - Tiago Pamplona" da autoria de Hélder Linhares, oferecido pela família do Cavaleiro e estreado pela Banda do Senhor Santo Cristo de Toronto que abrilhantou a corrida.

Bruno Bettencourt 

Foto: Tertúlia Tauromáquica Terceirense 

terça-feira, 21 de outubro de 2025

O último touro de Morante...

Partilhamos aqui o vídeo com o último touro lidado por Morante de La Puebla, antes de cortar a coleta.

Foto: Borja Sánchez-Trillo/EFE
Vídeo: CMM

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Corrida de emoções - Crónica da Corrida das Festas da Praia 2025



Expectativa, ansiedade e vontade… Um misto de sentimentos que foram crescendo e foram rodeando os dias e as horas que antecederam a corrida das Festas da Praia de 2025. Foram muitos os que se deslocaram à Ilha Terceira. Cada vez mais, e com base no que é dito por quem nos visita, esta terra é o santuário de algo que vai mais além da “simples” palavra afición. Esta terra é o santuário da taurinidade e tem na Praça de Toiros “Ilha Terceira” a sua Catedral. Uma vez mais, as ganadarias terceirenses de Rego Botelho (RB) Casa Agrícola José Albino Fernandes (JAF) e João Gaspar (JG) estiveram em disputa.

Filipe Gonçalves abriu a tarde com ousadia. A ousadia daqueles que buscam e arriscam logo de início, dizendo “Presente” à chamada do triunfo. O exemplar RB (n°46, 476kg) veio a mais ao longo da lide e mostrou-se colaborante. O Cavaleiro algarvio entendeu o oponente e tirou as devidas vantagens do seu comportamento. Cedo chegou às bancas com um toureio emotivo baseado em ferros com batidas ao piton contrário, cravados em terrenos de compromisso. A destacar, entre outros, o quarto ferro curto: uma reunião aquelas que fazem parar corações. A Corrida abriu assim num patamar superior. O JG (n°34, 472kg), que lidou em segundo lugar, era bonito mas, cedo mostrou alguma debilidade em termos de força, o que fez com que se fosse defendendo ao longo da lide. Aqui, assistiu-se a outro tipo de abordagem. Bem nas bregas e mantendo o tom das cravagens, viu-se um Cavaleiro trabalhador e mais paciente, que procurou contornar as dificuldades do oponente, saindo por cima do mesmo.

Para a montada de Tiago Pamplona, saiu um bonito JG (n°36, 505kg), pleno de trapio. Um bom toiro que se entregou durante toda a contenda. O toureio clássico à portuguesa é uma das formas de arte mais pura e bonita, quando bem delineado e executado. Assim o fez o Cavaleiro da Quinta do Malhinha. Com serenidade e frontalidade, desfrutou do bom toiro que tinha pela frente e rubricou uma boa lide, com cravagens correctas e muita inteligência na escolha dos terrenos. Se o fez com o primeiro toiro, assim o repetiu com o RB (n°57, 431kg). Eficácia com quatro ferros curtos de boa nota, diante de um exemplar que exigia que o conduzissem de forma adequada. O Cavaleiro expôs, novamente, as virtudes do classicismo português ao contornar, gradualmente, as exigências do oponente. De realçar o facto de Tiago Pamplona se ter lesionado, com alguma gravidade, num treino, dois dias antes da corrida e, ainda assim, esteve em praça sem que a assistência percebesse que estava diminuído fisicamente.

Luís Rouxinol Jr. também segurou a Corrida no patamar do triunfo. Regressou à ilha para mostrar o grande momento em que se encontra. É Cavaleiro por valor próprio. Já não é “só” o filho de alguém. O JAF (n°208, 478kg) que tinha pela frente, era bom e pedia contas. Rouxinol interpretou-o com acerto e recriou-se, ferro após ferro. Maturidade e irreverência andaram de mãos dadas fazendo eco nas bancadas, numa lide redonda e triunfante. Com uma grande prestação, viria a fechar a corrida, diante de um belo JG (n°31, 440Kg). O toiro era uma estampa e vinha de largo. Com ele, veio o Cavaleiro com o seu toureio a galvanizar a assistência. Nota de realce para o quarto ferro curto. Saiu de praça sob forte ovação e com o público a pedir mais.

A expectativa também pousou na forcadagem. Grupos de Forcados Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense (GFATTT) e Aposento da Chamusca (GFAAC). Pelo GFATTT deu o mote o novel Cabo Bernardo Belerique. Depois de uma primeira tentativa em que foi despejado pelo toiro e saiu tocado, fechou-se à segunda, com valentia, aguentando barbaridades durante a viagem. Francisco Matos, com a eficiência habitual realizou uma boa pega à segunda, sendo bem ajudado pelo grupo. Carlos Vieira fechou-se à primeira com técnica e eficácia, contando com uma grande intervenção do primeiro ajuda Fernando Ferreira. O GFAAC regressou à ilha após 17 anos, numa digressão que despertou muitas atenções. O Cabo João Saraiva pegou à primeira numa rija pega que resultou de uma mistura de querer, força e experiência. Esteve enorme na cara do toiro. Joviano Bettencourt, forcado natural da Terceira, pegou à segunda na Praça da terra que o viu nascer e crescer. Após ter escorregado antes de se fechar na primeira tentativa, realizou de forma correcta uma boa pega que contou com uma primeira ajuda eficaz de Pedro Ribeiro. A Corrida fechou com uma verdadeira aula sobre a arte de pegar toiros. Vasco Coelho dos Reis fez o difícil parecer fácil. Um forcado de eleição que deu lição na arena. Citou, mandou, aguentou, respeitou criteriosamente os tempos do toiro que tinha pela frente e fechou-se de forma perfeita à primeira.

As emoções também estiveram em praça com duas despedidas: Joviano Bettencourt cumpriu o sonho de se fardar e pegar “em casa” e, após esta realização, despediu-se enquanto forcado activo diante das suas gentes que lhe tributaram forte e emotiva ovação. Com a mesma intensidade foi brindado o Bandarilheiro Jorge Silva que, depois de quase 25 anos de alternativa, cortou a coleta e despediu-se das arenas. Um toureiro de muita entrega e humildade que muito contribuiu para a história da tauromaquia dos Açores.

A Corrida foi dirigida, com diligência, por Ricardo Costa, que esteve assessorado por José Paulo Lima. Abrilhantou, com maestria, a Banda da Sociedade Filarmónica Espírito Santo da Agualva.

Bruno Bettencourt

Foto: CMPV



segunda-feira, 21 de julho de 2025

Arte por inteiro – Crónica do Espectáculo Taurino do Ramo Grande 2025



Um quadro deixado a meio, uma composição musical inacabada, uma peça de teatro sem guião… Formas de arte que se ficam pela metade, são formas de arte incompletas, Não são vividas nem sentidas por inteiro. O toureio, enquanto forma de arte, não foge à regra. Uma lide incompleta, deixa incompleto quem assiste. Infelizmente, tem sido este o cenário nos últimos anos na ilha Terceira, no que ao Toureio a Pé diz respeito. Não porque os carteis sejam mal montados, não porque os ganaderos não têm trabalhado bem…. Tem-no sido porque no momento fulcral, os reis da festa, os toiros, não têm permitido ver obras de arte completas. No intitulado “Espectáculo do Ramo Grande” de 2025 provou-se que quando a obra é completa, os aficionados vibram e, com isto, mostram que o Toureio a Pé está vivo nesta terra e que as Corridas Mistas são apetecíveis.

Estavam anunciados 6 exemplares novilhos-toiros (que pela sua boa apresentação e trapio, apesar dos pesos registados, serão designados como toiros no decorrer desta crónica). A cavalo foram lidados quatro de João Gaspar (JG) e, na lide apeada, um de Rego Botelho (RB) e outro da Casa Agrícola José Albino Fernandes (JAF).

Com uma resenha do seu percurso de Mestre do toureio e uma sonora ovação, Paulo Caetano foi homenageado pela União Tauromáquica do Ramo Grande, organizadora do evento, antes do início das lides.

Abriu praça João Moura Caetano, filho do primeiro homenageado da tarde. Diante do nº35 (413Kg) de JG traçou uma boa lide, ainda que pouco regular nas cravagens. O toiro era colaborante, apesar de carregar pouco nas sortes. O Cavaleiro dobrou-se bem com ele e foi-se ligando nas bregas, mexendo-lhe com os terrenos. O JG (nº32, 444Kg), segundo do seu lote, era bonito e deu boa réplica, empregando-se na reunião com codícia. Caetano esteve correcto nas cravagens e nas abordagens às sortes, numa lide marcada pela constante intervenção dos bandarilheiros/peões de brega na colocação do toiro.

João Salgueiro da Costa veio à ilha Terceira mostrar, por inteiro, o bom momento que atravessa. Diante de um JG (nº33, 410Kg), que foi perdendo ímpeto e começou a pedir que lhe pisassem terrenos de compromisso, o Cavaleiro mostrou o seu talento e toureria. Uma lide sempre em patamar superior, com abordagens frontais e a tocar bem as teclas do toiro, fazendo chegar às bancadas a melodia do seu toureio. Melodia essa que deveria ter vindo da bancada mas, não lhe foi concedida música durante a lide. Ação (ou inação!) do Director de Corrida bastante questionável. O último da tarde, já noite, (JG, nº28, 458Kg) revelou bom comportamento e respondeu bem ao mando do Cavaleiro. Salgueiro da Costa não baixou o nível, impôs-se novamente e, com um grande ferro em “sorte de gaiola”, galvanizou a assistência, rumando ao triunfo. Entendeu o toiro e recriou-se de forma correcta, com cravagens plenas de emoção. De notar o facto de ter utilizado a mesma montada durante toda a lide. Encerrou com um ferro curto de nota superior.

Ismael Martin, jovem Matador nascido na Suíça, teve a sorte e o condão de rubricar duas lides completas, diante dos bons exemplares que teve pela frente. O primeiro (RB, nº76, 405Kg), um bonito jabonero, empregou-se na muleta e foi mostrando nobreza e duração de investida. Martin, que assim se estreava em praças portuguesas, mostrou recursos com o Capote, chegando rapidamente à assistência com vistosas Lopecinas. Após um tércio de bandarilhas onde esteve irrepreensível, lidou com a mão baixa e foi tirando partido das condições do oponente, por ambos os lados. Uma boa lide onde se destacaram Derechazos com ligação e profundidade. O seu segundo (JAF, nº243, 481Kg), um flavo bem rematado, entregou-se e embebeu-se na Muleta, ainda que por vezes protestasse pela esquerda. Uma vez mais, Martin mostrou ofício e sede de triunfo. Uma grande lide a sacar tudo o que de bom o toiro trazia. Lide de quietude a chegar às bancadas, valendo-lhe duas voltas ao redondel sob forte ovação.

Grupos de Forcados: Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense (GFATTT) e Amadores do Ramo Grande (GFARG). As duas jaquetas da ilha Terceira estiveram ao melhor nível realizando todas as pegas ao primeiro intento. Pelo GFATTT João Bettencourt fechou-se muito bem à barbela sem dificuldade e João Vieira esteve enorme a aguentar um duro derrote do toiroPelo GFARG Rui Dinis aguentou a investida ensarilhada do toiro e fechou-se brilhantemente. Gonçalo Batista fechou com uma grande pega a aguentar uma viagem dura, merecendo realce a determinante intervenção do primeiro ajuda Pedro Pereira.

No decorrer do intervalo foi também homenageado o crítico tauromáquico Mário Aguiar Rodrigues. Um dos nomes incontornáveis no que à divulgação e informação taurina dizem respeito, quer seja na imprensa escrita, rádio ou televisão. Deixo também a minha vénia por todo o seu percurso e sapiência.

O Espectáculo foi dirigido por Leandro Pires que pecou pelo critério utilizado aquando da primeira lide de João Salgueiro da Costa. Foi assessorado por Vielmino Ventura.

A abrilhantar (bem!) a Banda da Sociedade Filarmónica Progresso Lajense (Sociedade Nova).


Bruno Bettencourt

quarta-feira, 25 de junho de 2025

Sobraram Toureiros e brilharam Forcados - Crónica da Corrida Mista da Feira de São João 2025



Eram grandes as expectativas para a Corrida Mista que encerrou a Feira de São João de 2025, precisamente no dia dedicado ao patrono da festa, 24 de Junho. Os aficionados traziam na lembrança o desenrolar da segunda Corrida do certame e, nas bancadas, verificou-se uma afluência como há muito não se via neste formato de Corrida.

A lide equestre esteve a cargo de Tiago Pamplona. O primeiro do seu lote foi recolhido após ter partido uma haste ao embater na trincheira. Os dois oponentes de Rego Botelho (RB) que teve pela frente (nº38, 457Kg; nº47, 465Kg), eram bonitos, mas desluzidos de comportamento. Apresentaram pouca mobilidade e defendiam-se. Duas lides de entrega e maturidade, marcaram a presença do Cavaleiro terceirense. Ligou-se aos oponentes, mexeu com eles e foi-lhes tapando as debilidades, trazendo os toiros ao seu mando. A destacar o ferro curto com que fechou a sua primeira lide. Já é um lugar comum, mas nunca é demais afirmar que é diante de toiros com menos transmissão e mais complicação, que se vê a qualidade de um toureiro. Assim foi e Tiago saiu claramente por cima dos seus oponentes.

O Matador Manuel Escribano regressou à Praça de Toiros “Ilha Terceira” e enfrentou dois RB (nº42, 482Kg; nº43, 469Kg) que cedo se revelaram bruscos de investida e acabaram por se desligar. Procurou experimentar e conduzir os toiros por ambos os lados, na Muleta, mas não foi possível sacar séries com ligação e profundidade. A destacar os pares de bandarilhas com que brindou a assistência.

Emílio de Justo estreou-se na ilha Terceira diante de dois RB (nº45, 485€; nº37, 454Kg). Tal como os outros exemplares lidados a pé, demonstraram poucas condições de lide. O segundo do lote mostrou alguma codícia no Capote, mas na Muleta, acabou por rachar, saindo solto a cada par de muletazos. Justo provou-os e baixou a mão. Lidou em toda a arena, dando espaço e vantagens aos oponentes mas, também aqui, não foi possível assistir-se a toureio com ligação.

As pegas haviam de trazer mais algum brilho a um espectáculo que se foi tornando morno. Pelo Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca de Xira, foram solistas Miguel Faria, com uma grande pega, muito bem ajudada, à primeira e Guilherme Dotti, que se fechou de forma enorme, aguentando um embate violento e um derrote por cima.

Nota para a emotiva despedida do Bandarilheiro Terceirense José Luís Leonardo que, sem o ter anunciado previamente, cortou a coleta naquela que é a sua arena. Merecida volta e ovação por parte da assistência aquele que, durante largos anos, honrou com eficiência a tauromaquia terceirense, vestindo de seda e prata.

Leandro Pires dirigiu a Corrida, sendo assessorado por Vielmino Ventura. Abrilhantou, artisticamente, a Banda da Associação Cultural do Porto Judeu.


Bruno Bettencourt

Foto: Fernando Pavão

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Os heróis e os predestinados, serão sempre lembrados - crónica da segunda Corrida da Feira de São João 2025




"[...] Porque dos feitos grandes, da ousadia

Forte e famosa, o mundo está guardando

O prémio lá no fim, bem merecido,

Com fama grande e nome alto e subido."

Luís de Camões in "Os Lusíadas" (canto IX, est. 88)

 

A Ilha dos Amores, descrita por Camões, serviu de mote para a edição das Sanjoaninas 2025. Nessa passagem dos Lusíadas, está descrito como Tétis mostrou a Vasco da Gama a “máquina do mundo”, ou seja, o universo e os locais do mundo onde o povo português iria alcançar grandes vitórias. Assim aconteceu na tarde histórica do dia 22 de junho de 2025, na Praça de Toiros "Ilha Terceira". Uma grande vitória! Uma página de ouro da história da tauromaquia deste país de navegadores... e de "gente de toiros".

Lotação Esgotada! O anúncio feito na véspera já era bom prenuncio!

Concurso de Ganadarias com exemplares de Rego Botelho (RB), Casa Agrícola José Albino Fernandes (JAF) e João Gaspar (JG), João Moura Jr a lidar em solitário, mudança de Cabo no Grupo de Forcados Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense (GFATTT). Tudo parecia encaixar-se para uma tarde memorável. Uma tarde daquelas que serão recordadas e relatadas por muitos anos. E assim foi!!

Comecemos por João Moura Jr. A arte, o génio, o engenho, a entrega, o poder e a maestria foram deixadas na arena de Angra do Heroísmo. O Cavaleiro abriu a alma e deixou que todos admirassem tudo aquilo que traz dentro de si. Um colosso da arte de Marialva. Um verdadeiro centauro!

Cedo agarrou a assistência. O exemplar de RB (nº44, 497kg) estava muito bem rematado e era bonito, com cara e fino recorte. Saía de largo ao cite e colaborou com o que lhe era pedido. Moura abriu a caixa e foi lançando o perfume que se sentiu durante toda a corrida. Cravagens correctas e sempre com as medidas bem tiradas, encimadas por remates e bregas “à Moura” disfrutando da montada, uma verdadeira extensão do seu corpo.

O segundo era de JAF (nº255, 436kg). Era bonito e saiu com muita pata. Cedo mostrou cansaço e falta de força. Apesar dos bons modos que foi mantendo, foi-se reservando. João dobrou-se bem com ele na saída e aguentou o ímpeto do toiro, ao milímetro. Lidou a dar primazia ao oponente e a cuidá-lo. Manteve a tónica: bregas e cravagens de levantar praça!

O “Poeta” (JG, nº16, 515Kg) saiu em terceiro lugar. Bem apresentado e em tipo do encaste, entrou em praça com codícia. Investidas nobres e com ritmo revelaram o bravo toiro que ali estava. O triunfo também já ali estava. Entendimento e entrega, por parte do Cavaleiro, ao toiro que tinha pela frente. Começou com um ferro em “sorte de gaiola” que fez estremecer a praça. Mais réplicas viriam de seguida. Nos curtos, foi impossível ficar indiferente ao segundo ferro cravado. Metido em terrenos do toiro, cravagem e remate daqueles que apenas estão ao alcance dos predestinados. A praça estremeceu e os corações pararam! A encerrar, nova réplica: que “mourinha”, que remate, que pintura… A praça entrou em ebulição!

O quarto ostentava a divisa azul e branca de RB (nº56, 514kg). Foi indo ao cite e carregando as sortes, mas cedo começou a reservar-se vindo a menos, sem comprometer. Uma boa lide a mostrar que há ofício. Com o desenrolar da mesma, houve que ir tirando água do poço e contrariar as reservas do toiro.

O quinto (JAF, nº235, 439kg) saiu com gás! Foi esperado à porta dos curros pelo cavaleiro que o dominou até aos limites do impensável. O toiro foi-se mostrando desigual, mas encontrou rumo e veio a mais. Lide poderosa a tocar as teclas do toiro numa harmonia triunfal. Duas “mourinhas” a encerrar que provocaram nova explosão de emoção e alegria!

A fechar, saiu à arena um lindo JG (nº30, 483Kg). Pleno de nobreza e com ímpeto na investida, trouxe a chave de ouro a João Moura Jr. Os corações e o tempo pararam, a cada cravagem e cada vez que o toiro era trazido embebido no estribo daquele “cavalo-muleta”. O Cavaleiro estava com os olhos marejados de água e de sal… A assistência também… Quem assistia, queria que o tempo parasse e aquele momento heroico nunca mais acabasse. Haveria de vir Tétis recebê-lo como fez a outro herói. Como fez a Vasco da Gama que está igualmente imortalizado nesta cidade Património Mundial. Que lide… Que lides… Que Mestre… Assim se abriu a Porta da Glória, a Porta Grande e Triunfal da Praça de Toiros “Ilha Terceira” para que, em ombros, saísse por ela um dos eleitos pelos deuses.

 A tarde também foi de forcadagem. O GFATTT pegou em solitário, em dia festivo. Abriu praça João Vieira, numa pega correctíssima e de poder, à primeira.

João Pedro Ávila abraçou valentemente o segundo da tarde ao primeiro intento, naquela que seria a sua última pega como Cabo do grupo. De notar o pormenor da quase totalidade da formação ser composta por antigos forcados, da geração do homem que foi à cara.

Bernardo Belerique recebeu o comando do grupo, assim como fez ao toiro que tinha pela frente. À primeira, com uma rija pega.

Francisco Matos realizou um pegão à segunda, aguentando derrotes violentos.

João Bettencourt, de forma eficiente e limpa, fechou-se à primeira.

Carlos Vieira deu vantagens e fechou-se, à primeira, numa grande pega.

Ricardo Costa dirigiu a corrida, de forma diligente, sendo assessorado por Vielmino Ventura.

Abrilhantou (e bem!) a Banda Filarmónica da Sociedade Recreio da Terra-Chã.

O júri, composto por um representante de cada uma das ganadarias em praça decidiu:

- Prémio de Apresentação: “Poeta”, n16, 515Kg de João Gaspar.

- Melhor Toiro: “Poeta”, n16, 515Kg de João Gaspar.


Bruno Bettencourt

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More