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domingo, 19 de julho de 2026

O poder e a finura de Martín – Crónica da Novilhada do Ramo Grande


A aposta foi feita e o toureio de Ismael Martín trouxe a vitória. O poderio, aliado ao fino recorte artístico, embalou e arrebatou a Praça de Toiros “Ilha Terceira” no decorrer da “Grandiosa Novilhada” do Ramo Grande, incluída na Semana Cultural dos Biscoitos. Abreviado com o Capote, ainda assim mostrou muito temple com Paróns e Verónicas. O Rego Botelho (RB) (nº1, 443kg) borralho de pelagem entregou-se com nobreza numa lide que teve o seu primeiro momento de explosão durante o tércio de bandarilhas, protagonizado pelo Matador salmantino. Com a Muleta, e de joelhos, passou o oponente pelas costas, fazendo parar corações. Foi-se afirmando por ambos os lados e terminou com uma grande série pela direita, cada vez mais justa, não se livrando de uma voltareta sem consequências. O exemplar da Casa Agrícola José Albino Fernandes (JAF) (nº315, 458kg) tinha mais ligação na investida, era nobre e com recorrido, ainda que parco de forças. O Matador cuidou-o e foi-lhe dando espaço. Novamente majestoso com as bandarilhas, baseou a lide na mão direita, desenhando sentidas séries com a flanela rubra. Com lentidão, leveza e profundidade, acoplou-se ao exemplar da divisa verde e vermelha rubricando uma lide premiada com duas voltas à arena.

Voltando ao início, Miguel Moura abriu praça diante de um exemplar de João Gaspar (JG) (nº40, 505kg) que se prestou ao desafio, cumprindo, mas sem romper. Com um ferro à porta gaiola, iniciou uma lide em bom plano onde esteve patente a escola que lhe corre nas veias. Entendimento e correcta escolha de terrenos que, resultaram em boas reuniões. Destaque para o quarto ferro curto, à meia volta, após uma brega cingida que percorreu mais de meia praça. A segunda actuação de Moura esteve uns furos mais acima, frente a um RB (nº81, 417kg) que tinha génio. O novilho-toiro entregou-se, ainda que por vezes fosse brusco na investida. Bem na preparação das sortes, tirou o que de bom havia dentro do oponente, chegando às bancadas, em especial durante as bregas “mouristas”.

António Prates estreou-se na ilha Terceira frente a um JAF (nº313, 457kg) que se revelou bruto no início, mas veio a melhorar o comportamento ao longo da lide cumprindo o que lhe era exeigido. Também em crescendo esteve o cavaleiro. Após refrear algum nervosismo inicial, mostrou discernimento e, entendendo o exemplar que tinha pela frente, explanou algum do seu toureio numa lide que agradou a assistência. Fechou o espectáculo frente ao sobrero (JG, nº 46, 497kg). Se era bonito e imponente, também era reservado. Fez querença nos tércios, só saindo pela certa e se lhe pisassem os terrenos. Lide de entrega por Prates que, apesar de correcto nas sortes, não conseguiu dar a volta, em pleno, a um exemplar que, de bravo, tinha pouco mais do que a raça.

As pegas estiveram a cargo do Grupo de Forcados Amadores de Lisboa e Amadores do Ramo Grande. Pelo grupo da capital, pegaram Duarte Nascimento, à primeira e sem dificuldade, aguentando a viagem ensarilhada do novilho-toiro; José Batista, fechou-se à primeira, numa boa pega a aguentar derrotes. Pelo Ramo Grande, Pedro Pereira consumou ao primeiro intento, numa boa pega, de poder. Rui Dinis, dobrou Gonçalo Batista que saiu maltratado após três tentativas e resolveu, a sesgo, fechando a noite.

Após as cortesias, assistiu-se à entrega de lembranças a todos os intervenientes. A direcção esteve a cargo de Ricardo Costa, sendo assessorado por José Paulo Lima. Esta organização da União Tauromáquica do Ramo Grande foi abrilhantada (e bem!) pela Banda da Associação Filarmónica Cultural e Recreativa Santa Bárbara da Fonte do Bastardo.

Uma nota final para os animais lidados: apesar da designação do espectáculo e da idade dos mesmos, assistiu-se à presença de hastados com peso e trapio, ao nível de uma corrida com toiros de outra idade.

Bruno Bettencourt

Foto: Paulo Gil

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Tríptico triunfal - Crónica da terceira Corrida da Feira de S. João 2026




Diz-se que o melhor da festa é esperar por ela. Também o é mas, o melhor desta Feira de S. João de 2026, foi o viver a Festa! João Moura Jr., João Ribeiro Telles, Fernando Adrián, os Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense (GFATTT) e os Amadores do Ramo Grande (GFARG) fecharam a Feira diante de exemplares de Rego Botelho (RB) e João Gaspar (JG), precisamente no dia do S. João, 24 de Junho.

João Moura Jr. enfrentou um nobre JG (N°43, 498kg) que saía de largo numa viagem recta. Uma sorte de gaiola vistosa iniciou uma boa lide que, com bom entendimento, tirou partido do toiro e foi explanando todo o toureio e forma de estar na arena de Moura. Reuniões e remates justíssimos, para gáudio da assistência. Rubricou a sua passagem por esta edição da Feira com uma actuação de nível superior. O RB (N°63, 567kg) carregava nas sortes e veio a mais ao longo da contenda, dando bom jogo. O Cavaleiro interessou-o e cravou com batidas templadas ao piton contrário. Cada passagem fazia eco nas bancadas, com destaque para o 3° ferro curto. Esteve criterioso nas escolhas de terrenos e fechou com duas mourinhas que lhe renderam larga ovação.

João Ribeiro Telles recebeu o JG (N°26, 575kg) à porta dos curros. A um exemplar cumpridor, que se foi entregando nobremente, aplicou uma lide de ligação que terminou em grande plano. Lidou a gosto, com ferros emotivos que não deixaram indiferentes os setores da praça. Sortes bem preparadas e com grande conexão com o toiro. O segundo do seu lote era o "Lancero" (RB, N°62, 514kg). Bem apresentado, com codicia, saía de pronto, carregava na reunião e teve imensa duração. Resumindo: era bravo! E brava foi a lide triunfal. Iniciou à porta "dos sustos" para a desenhar com sortes em terrenos de compromisso, rematadas com bregas milimétricas. O 2° ferro curto foi uma sorte de catálogo, a consentir a investida do toiro e a aguentá-lo debaixo do braço. Volta para a ganadera no final da lide.

O Matador Fernando Adrián teve matéria prima para mostrar o toureio que traz dentro de si. O RB (N°70, 440kg) foi melhorando ao longo da lide, investindo com nobreza e recorrido. Com o Capote esteve reservado. Destaque para o bom tércio de bandarilhas por Pablo Gallego e João Pedro Silva "Açoriano". Lide de entrega e poderio onde Adrián fixou o compasso e foi desenhando séries com plasticidade e profundidade, baseando-se essencialmente na mão direita. Sofreu uma voltareta que se veio a revelar sem consequências. O segundo (RB, N°69, 479kg) trazia as mesmas características do anterior, mas era mais codicioso e entregou-se logo de início. Lanceou à Verónica para, depois, com a Muleta oferecer uma muito boa lide onde o temple foi palavra de ordem. Tirou partido de tudo o que o exemplar da divisa azul e branca trazia dentro. Séries profundas, ligadas e com repetição espalharam o perfume do toureio do Matador madrileno.

Tomás Cunha, pelo GFATTT, abriu praça com uma rija pega à primeira, sendo bem ajudado. Francisco Matos foi colhido com gravidade diante do 4° da tarde e foi dobrado por Eduardo Rico que resolveu a sesgo numa pega em que foi fulcral a intervenção do primeiro ajuda Fernando "Mangueira" Ferreira.
Pelo GFARG Rui Dinis (cabo) fechou-se bem à primeira sem dificuldades e com boa intervenção do grupo. Luís Valadão saiu lesionado após duas tentativas. Na dobra, Gonçalo Batista resolveu bem numa pega a sesgo.

A Corrida foi dirigida por Ricardo Costa com a assessoria de Vielmino Ventura. Abrilhantou a Banda da Sociedade Filarmónica Rainha Santa Isabel das Doze Ribeiras.

Bruno Bettencourt 
Fotos: Tertúlia Tauromáquica Terceirense

terça-feira, 23 de junho de 2026

O brilho de Pamplona e o brio de Pérez - Crónica da segunda Corrida da Feira de S. João 2026


Segundo dia de Feira de S. João, primeira Corrida Mista do certame e, novamente, muito público a mostrar que a tauromaquia é parte constituinte do ser terceirense. João Moura Jr., João Pamplona, Marco Pérez, Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense (GFATTT) e Amadores de Turlock (GFAT). Casa Agrícola José Albino Fernandes (JAF) e João Gaspar (JG).

O JAF (N°256, 480kg) fixou-se e cumpriu, com durabilidade, apesar das parcas forças. João Moura Jr. interpretou-o e desenhou uma lide de entendimento, adequando os tempos ao toiro, cuidando-o com temple e cadência. Recriou-se na cara do oponente, chegando às bancadas que cedo lhe tributaram ovações. O segundo do seu lote (JG) viria a lesionar-se no início da cravagem dos curtos e a organização permitiu que fosse lidado o sobrero. O JG (N°38 415kg) era impetuoso e vinha de largo com velocidade. Tinha muitas teclas e foi-se parando nos médios, no final. Recebeu-o com uma sorte de gaiola emotiva, para depois prosseguir com uma boa lide, ajustando as montadas às exigências, mas sem romper totalmente.

João Pamplona recebeu um toiro JG (N°24, 510kg) que tinha tanto de beleza física como de comportamento. Recebeu-o com sorte de gaiola bem desenhada, fazendo antever uma lide em plano superior. Tirou partido do oponente e agarrou as bancadas. Muito correcto na escolha de terrenos e justo nas cravagens, saiu sob forte ovação, após cravagem de um explosivo ferro de palmo. O JAF (N°278, 467kg) era muito bom. Investia em todos os terrenos, de forma recta, clara e com transmissão. Em sintonia, o Cavaleiro da Quinta do Malhinha rubricou uma grande lide. Um primeiro ferro curto à meia volta, daria o mote para uma série de cravagens com nota elevada. Arriscou e transmitiu emoção. A sua forma segura e clássica de equitador, aliou-se à irreverência e raça toureira que ecoou nas bancadas e resultou em duas voltas à arena.

Marco Pérez apresentou-se como Matador na ilha Terceira, após ter passado pela mesma arena há alguns anos. Teve pela frente dois exemplares JAF (N°312, 447kg e N°310, 433kg). O que lhes faltava em força sobrava em nobreza. Viagens rectas e templadas, com destaque para o segundo do lote que teve mais duração e ainda mais maneabilidade. Na primeira faena assistiu-se a um toureio de recorte fino quer com o Capote, como com a Muleta. Acoplou-se ao toiro e mostrou que vinha para triunfar. Destaca-se uma bonita série pela direita, rematada com um infinito passe de peito. Com o segundo exemplar citou a meia altura, rentabilizando as condições do toiro e fazendo-o durar. Mostrou o seu poderio com a flanela vermelha, imprimindo profundidade a cada passagem do hastado. Deu tempo e espaço, criando faena onde muitos teriam dificuldade. No final, duas voltas à arena.

Pelo GFATTT, João Bettencourt consumou à segunda, sendo bem ajudado. Tomás Costa resolveu à terceira com ajudas carregadas. Com a jaqueta do GFAT, Fábio Vieira fechou-se à primeira sem dificuldades. Bryce Rocha, à segunda, fechou-se numa rija pega, rubricando a presença do grupo cinquentenário na Feira de S. João.

A corrida foi dirigida por Leandro Pires, assessorado por José Paulo Lima. Abrilhantou a centenária Banda da Sociedade Filarmónica Recreio Serretense.


Bruno Bettencourt 

Foto: Tertúlia Tauromáquica Terceirense

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Outra vez Moura - Crónica da primeira corrida da Feira de S. João 2026


Angra do Heroísmo materializou, uma vez mais, o porquê de ser um contínuo coração pulsante no meio do Atlântico. A celebração de S. João Batista invadiu a cidade e a ilha, trazendo com ela a Feira taurina que ostenta o nome do patrono popular.

"Lotação esgotada"! Estas duas palavras, encimando a Porta Grande da Praça de Toiros "Ilha Terceira", receberam todos aqueles que ali se encontravam para assistir à Corrida à Portuguesa no dia 21 de Junho. O entusiasmo e a expectativa eram palpáveis. Os nomes de Tiago Pamplona, João Moura Jr., João Ribeiro Telles, Forcados Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense (GFATTT) e Amadores de Turlock (GFAT), Rego Botelho (RB) e João Gaspar (JG), enchiam um cartaz deveras apelativo.

Tiago Pamplona abriu a corrida que marcou os seus 20 anos de alternativa. Duas décadas de dedicação, resiliência e afirmação, honrando uma dinastia e a terra que o viu nascer. Foram precisamente as características referidas que marcaram a sua primeira lide. O RB (n°74, 460kg) vinha bem apresentado, mas tinha algumas dificuldades de visão, mercê da conformação dos pitons. Com debilidade de forças, pedia que o provocassem e, ainda assim, arrancava tarde. Lide de entendimento a trazer o toiro com medidas tiradas, mexendo-lhe nas querenças e metendo-o na luta, ainda que, por vezes, algumas das sortes não resultassem em pleno. Com o bonito, volumoso e sério JG (n°44, 539kg) a história seria outra. Um bom toiro e uma lide em plano de triunfo. O Cavaleiro foi palmilhado terreno e, a cada ferro, foi fazendo ouvir as bancadas. Se iniciou a série de curtos com um grande ferro a respeitar os tempos do toiro, terminou com um ferro de palmo que fez levantar a assistência numa explosão de emoção.

João Moura Jr. entrou em praça trazendo à lembrança a encerrona que protagonizou em 2025. Se bem lembrou, melhor o executou. Era bonito e bravo o JG (n°41, 476kg), com uma entrega constante até ao fim da lide. Pela frente teve a arte mourista que lhe rubricou uma lide triunfante, fazendo tremer a praça. Bregas e remates justíssimos e ferros de tirar a respiração, como foi o caso do 3° curto, à meia volta e em terrenos apertadíssimos, junto à porta dos curros. A dose havia de ser repetida no ferro seguinte, ainda que noutros terrenos, e a Praça ia vindo abaixo. O RB (n°61, 503kg) não comprometeu, colaborou e metia bem a cara. Moura Jr. leu-o de imediato e, logo chegou ao público com com batidas templadas e cravagens a aguentar a viagem impetuosa do toiro. Duas mourinhas e o público em delírio encerraram a lide.

João Ribeiro Telles mostrou inteligência ao perceber as condicionantes do oponente. O RB (n°64, 464kg) tinha chispa e vontade de investir, no entanto, transpareceu dificuldades morfológicas que lhe condicionavam o ímpeto na investida. Telles esperou-o à porta dos curros, dobrou-se a receber e foi cuidando do toiro, conseguindo que este tivesse a duração pretendida. Remates cingidos, a rubricar sortes onde estiveram patentes todos os tempos e cadências de forma correcta. Fechou uma boa lide com um melhor ferro curto. E porque há dias desafiantes, foi recolhido o último da tarde/noite (JG) para ser substituído pelo sobrero RB (n°41, 519kg). O toiro, que viria a dar água pela barba à forcadagem, perdeu o gás bastante cedo, ficando-se em curto, indo só pela certa e não carregando as sortes. Dois ferros compridos e três curtos resumem a lide possível diante de um oponente sem grandes possibilidades.

Na forcadagem, viveram-se muitos dos sentimentos que alimentam a Festa e esta forma de arte: glória, superação, camaradagem, susto e sofrimento. Pelo GFATTT despediu-se um dos grandes forcados da ilha Terceira, Carlos Vieira "Cabeça". O mais velho de uma família de 5 irmãos forcados, fechou-se à primeira numa grande pega em que foi levado pelo alto e aguentou duros derrotes até chegar à preciosa ajuda do grupo. Bernardo Belerique (cabo), à primeira, respeitou os tempos, consentiu a viagem e trouxe o toiro toureado até se fechar com máxima eficácia. Deu uma aula. João Vieira "Cabeça" saiu em maca (felizmente sem consequências), após duas tentativas em que aguentou barbaridades e que quase se transformaram naquela que poderia ser a pega da Feira. Na dobra, Francisco Matos resolveu com ajudas carregadas.

Pelo GFAT que está em ano de Bodas de Ouro, Sérgio Tirado resolveu à segunda, aguentando a paragem do toiro a meio da viagem e a fechar-se com eficácia. Joey Pereira fechou-se com raça à segunda mostrando muito querer. Aaron Teixeira encontrou um comboio de alta velocidade pela frente. Duas tentativas em que o grupo foi sendo despejado com derrotes altos e, no final das quais, foram saindo forcados lesionados. David Sanchez substituiu o colega que saiu maltratado e fechou-se a sesgo com valentia e as ajudas carregadas.

A corrida dirigida, diligentemente, por Ricardo Costa, assessorado por Vielmino Ventura contou com um minuto de silêncio, no início, em homenagem a António Vielmino Ventura, José Alpoim Bruges e António Silveira Dinis, figuras ligadas à tauromaquia, recentemente falecidos. Homenagens ao GFAT pelos 50 anos de história a elevar a arte de pegar toiros, desde os EUA, nas mais diversas praças mundiais e a Tiago Pamplona pelos 20 anos de alternativa como Cavaleiro Tauromáquico. Entre as lembranças entregues, destaque para o pasodoble "Glória na Arena - Tiago Pamplona" da autoria de Hélder Linhares, oferecido pela família do Cavaleiro e estreado pela Banda do Senhor Santo Cristo de Toronto que abrilhantou a corrida.

Bruno Bettencourt 

Foto: Tertúlia Tauromáquica Terceirense 

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