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domingo, 19 de julho de 2026

O poder e a finura de Martín – Crónica da Novilhada do Ramo Grande


A aposta foi feita e o toureio de Ismael Martín trouxe a vitória. O poderio, aliado ao fino recorte artístico, embalou e arrebatou a Praça de Toiros “Ilha Terceira” no decorrer da “Grandiosa Novilhada” do Ramo Grande, incluída na Semana Cultural dos Biscoitos. Abreviado com o Capote, ainda assim mostrou muito temple com Paróns e Verónicas. O Rego Botelho (RB) (nº1, 443kg) borralho de pelagem entregou-se com nobreza numa lide que teve o seu primeiro momento de explosão durante o tércio de bandarilhas, protagonizado pelo Matador salmantino. Com a Muleta, e de joelhos, passou o oponente pelas costas, fazendo parar corações. Foi-se afirmando por ambos os lados e terminou com uma grande série pela direita, cada vez mais justa, não se livrando de uma voltareta sem consequências. O exemplar da Casa Agrícola José Albino Fernandes (JAF) (nº315, 458kg) tinha mais ligação na investida, era nobre e com recorrido, ainda que parco de forças. O Matador cuidou-o e foi-lhe dando espaço. Novamente majestoso com as bandarilhas, baseou a lide na mão direita, desenhando sentidas séries com a flanela rubra. Com lentidão, leveza e profundidade, acoplou-se ao exemplar da divisa verde e vermelha rubricando uma lide premiada com duas voltas à arena.

Voltando ao início, Miguel Moura abriu praça diante de um exemplar de João Gaspar (JG) (nº40, 505kg) que se prestou ao desafio, cumprindo, mas sem romper. Com um ferro à porta gaiola, iniciou uma lide em bom plano onde esteve patente a escola que lhe corre nas veias. Entendimento e correcta escolha de terrenos que, resultaram em boas reuniões. Destaque para o quarto ferro curto, à meia volta, após uma brega cingida que percorreu mais de meia praça. A segunda actuação de Moura esteve uns furos mais acima, frente a um RB (nº81, 417kg) que tinha génio. O novilho-toiro entregou-se, ainda que por vezes fosse brusco na investida. Bem na preparação das sortes, tirou o que de bom havia dentro do oponente, chegando às bancadas, em especial durante as bregas “mouristas”.

António Prates estreou-se na ilha Terceira frente a um JAF (nº313, 457kg) que se revelou bruto no início, mas veio a melhorar o comportamento ao longo da lide cumprindo o que lhe era exeigido. Também em crescendo esteve o cavaleiro. Após refrear algum nervosismo inicial, mostrou discernimento e, entendendo o exemplar que tinha pela frente, explanou algum do seu toureio numa lide que agradou a assistência. Fechou o espectáculo frente ao sobrero (JG, nº 46, 497kg). Se era bonito e imponente, também era reservado. Fez querença nos tércios, só saindo pela certa e se lhe pisassem os terrenos. Lide de entrega por Prates que, apesar de correcto nas sortes, não conseguiu dar a volta, em pleno, a um exemplar que, de bravo, tinha pouco mais do que a raça.

As pegas estiveram a cargo do Grupo de Forcados Amadores de Lisboa e Amadores do Ramo Grande. Pelo grupo da capital, pegaram Duarte Nascimento, à primeira e sem dificuldade, aguentando a viagem ensarilhada do novilho-toiro; José Batista, fechou-se à primeira, numa boa pega a aguentar derrotes. Pelo Ramo Grande, Pedro Pereira consumou ao primeiro intento, numa boa pega, de poder. Rui Dinis, dobrou Gonçalo Batista que saiu maltratado após três tentativas e resolveu, a sesgo, fechando a noite.

Após as cortesias, assistiu-se à entrega de lembranças a todos os intervenientes. A direcção esteve a cargo de Ricardo Costa, sendo assessorado por José Paulo Lima. Esta organização da União Tauromáquica do Ramo Grande foi abrilhantada (e bem!) pela Banda da Associação Filarmónica Cultural e Recreativa Santa Bárbara da Fonte do Bastardo.

Uma nota final para os animais lidados: apesar da designação do espectáculo e da idade dos mesmos, assistiu-se à presença de hastados com peso e trapio, ao nível de uma corrida com toiros de outra idade.

Bruno Bettencourt

Foto: Paulo Gil

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Tríptico triunfal - Crónica da terceira Corrida da Feira de S. João 2026




Diz-se que o melhor da festa é esperar por ela. Também o é mas, o melhor desta Feira de S. João de 2026, foi o viver a Festa! João Moura Jr., João Ribeiro Telles, Fernando Adrián, os Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense (GFATTT) e os Amadores do Ramo Grande (GFARG) fecharam a Feira diante de exemplares de Rego Botelho (RB) e João Gaspar (JG), precisamente no dia do S. João, 24 de Junho.

João Moura Jr. enfrentou um nobre JG (N°43, 498kg) que saía de largo numa viagem recta. Uma sorte de gaiola vistosa iniciou uma boa lide que, com bom entendimento, tirou partido do toiro e foi explanando todo o toureio e forma de estar na arena de Moura. Reuniões e remates justíssimos, para gáudio da assistência. Rubricou a sua passagem por esta edição da Feira com uma actuação de nível superior. O RB (N°63, 567kg) carregava nas sortes e veio a mais ao longo da contenda, dando bom jogo. O Cavaleiro interessou-o e cravou com batidas templadas ao piton contrário. Cada passagem fazia eco nas bancadas, com destaque para o 3° ferro curto. Esteve criterioso nas escolhas de terrenos e fechou com duas mourinhas que lhe renderam larga ovação.

João Ribeiro Telles recebeu o JG (N°26, 575kg) à porta dos curros. A um exemplar cumpridor, que se foi entregando nobremente, aplicou uma lide de ligação que terminou em grande plano. Lidou a gosto, com ferros emotivos que não deixaram indiferentes os setores da praça. Sortes bem preparadas e com grande conexão com o toiro. O segundo do seu lote era o "Lancero" (RB, N°62, 514kg). Bem apresentado, com codicia, saía de pronto, carregava na reunião e teve imensa duração. Resumindo: era bravo! E brava foi a lide triunfal. Iniciou à porta "dos sustos" para a desenhar com sortes em terrenos de compromisso, rematadas com bregas milimétricas. O 2° ferro curto foi uma sorte de catálogo, a consentir a investida do toiro e a aguentá-lo debaixo do braço. Volta para a ganadera no final da lide.

O Matador Fernando Adrián teve matéria prima para mostrar o toureio que traz dentro de si. O RB (N°70, 440kg) foi melhorando ao longo da lide, investindo com nobreza e recorrido. Com o Capote esteve reservado. Destaque para o bom tércio de bandarilhas por Pablo Gallego e João Pedro Silva "Açoriano". Lide de entrega e poderio onde Adrián fixou o compasso e foi desenhando séries com plasticidade e profundidade, baseando-se essencialmente na mão direita. Sofreu uma voltareta que se veio a revelar sem consequências. O segundo (RB, N°69, 479kg) trazia as mesmas características do anterior, mas era mais codicioso e entregou-se logo de início. Lanceou à Verónica para, depois, com a Muleta oferecer uma muito boa lide onde o temple foi palavra de ordem. Tirou partido de tudo o que o exemplar da divisa azul e branca trazia dentro. Séries profundas, ligadas e com repetição espalharam o perfume do toureio do Matador madrileno.

Tomás Cunha, pelo GFATTT, abriu praça com uma rija pega à primeira, sendo bem ajudado. Francisco Matos foi colhido com gravidade diante do 4° da tarde e foi dobrado por Eduardo Rico que resolveu a sesgo numa pega em que foi fulcral a intervenção do primeiro ajuda Fernando "Mangueira" Ferreira.
Pelo GFARG Rui Dinis (cabo) fechou-se bem à primeira sem dificuldades e com boa intervenção do grupo. Luís Valadão saiu lesionado após duas tentativas. Na dobra, Gonçalo Batista resolveu bem numa pega a sesgo.

A Corrida foi dirigida por Ricardo Costa com a assessoria de Vielmino Ventura. Abrilhantou a Banda da Sociedade Filarmónica Rainha Santa Isabel das Doze Ribeiras.

Bruno Bettencourt 
Fotos: Tertúlia Tauromáquica Terceirense

terça-feira, 23 de junho de 2026

O brilho de Pamplona e o brio de Pérez - Crónica da segunda Corrida da Feira de S. João 2026


Segundo dia de Feira de S. João, primeira Corrida Mista do certame e, novamente, muito público a mostrar que a tauromaquia é parte constituinte do ser terceirense. João Moura Jr., João Pamplona, Marco Pérez, Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense (GFATTT) e Amadores de Turlock (GFAT). Casa Agrícola José Albino Fernandes (JAF) e João Gaspar (JG).

O JAF (N°256, 480kg) fixou-se e cumpriu, com durabilidade, apesar das parcas forças. João Moura Jr. interpretou-o e desenhou uma lide de entendimento, adequando os tempos ao toiro, cuidando-o com temple e cadência. Recriou-se na cara do oponente, chegando às bancadas que cedo lhe tributaram ovações. O segundo do seu lote (JG) viria a lesionar-se no início da cravagem dos curtos e a organização permitiu que fosse lidado o sobrero. O JG (N°38 415kg) era impetuoso e vinha de largo com velocidade. Tinha muitas teclas e foi-se parando nos médios, no final. Recebeu-o com uma sorte de gaiola emotiva, para depois prosseguir com uma boa lide, ajustando as montadas às exigências, mas sem romper totalmente.

João Pamplona recebeu um toiro JG (N°24, 510kg) que tinha tanto de beleza física como de comportamento. Recebeu-o com sorte de gaiola bem desenhada, fazendo antever uma lide em plano superior. Tirou partido do oponente e agarrou as bancadas. Muito correcto na escolha de terrenos e justo nas cravagens, saiu sob forte ovação, após cravagem de um explosivo ferro de palmo. O JAF (N°278, 467kg) era muito bom. Investia em todos os terrenos, de forma recta, clara e com transmissão. Em sintonia, o Cavaleiro da Quinta do Malhinha rubricou uma grande lide. Um primeiro ferro curto à meia volta, daria o mote para uma série de cravagens com nota elevada. Arriscou e transmitiu emoção. A sua forma segura e clássica de equitador, aliou-se à irreverência e raça toureira que ecoou nas bancadas e resultou em duas voltas à arena.

Marco Pérez apresentou-se como Matador na ilha Terceira, após ter passado pela mesma arena há alguns anos. Teve pela frente dois exemplares JAF (N°312, 447kg e N°310, 433kg). O que lhes faltava em força sobrava em nobreza. Viagens rectas e templadas, com destaque para o segundo do lote que teve mais duração e ainda mais maneabilidade. Na primeira faena assistiu-se a um toureio de recorte fino quer com o Capote, como com a Muleta. Acoplou-se ao toiro e mostrou que vinha para triunfar. Destaca-se uma bonita série pela direita, rematada com um infinito passe de peito. Com o segundo exemplar citou a meia altura, rentabilizando as condições do toiro e fazendo-o durar. Mostrou o seu poderio com a flanela vermelha, imprimindo profundidade a cada passagem do hastado. Deu tempo e espaço, criando faena onde muitos teriam dificuldade. No final, duas voltas à arena.

Pelo GFATTT, João Bettencourt consumou à segunda, sendo bem ajudado. Tomás Costa resolveu à terceira com ajudas carregadas. Com a jaqueta do GFAT, Fábio Vieira fechou-se à primeira sem dificuldades. Bryce Rocha, à segunda, fechou-se numa rija pega, rubricando a presença do grupo cinquentenário na Feira de S. João.

A corrida foi dirigida por Leandro Pires, assessorado por José Paulo Lima. Abrilhantou a centenária Banda da Sociedade Filarmónica Recreio Serretense.


Bruno Bettencourt 

Foto: Tertúlia Tauromáquica Terceirense

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Outra vez Moura - Crónica da primeira corrida da Feira de S. João 2026


Angra do Heroísmo materializou, uma vez mais, o porquê de ser um contínuo coração pulsante no meio do Atlântico. A celebração de S. João Batista invadiu a cidade e a ilha, trazendo com ela a Feira taurina que ostenta o nome do patrono popular.

"Lotação esgotada"! Estas duas palavras, encimando a Porta Grande da Praça de Toiros "Ilha Terceira", receberam todos aqueles que ali se encontravam para assistir à Corrida à Portuguesa no dia 21 de Junho. O entusiasmo e a expectativa eram palpáveis. Os nomes de Tiago Pamplona, João Moura Jr., João Ribeiro Telles, Forcados Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense (GFATTT) e Amadores de Turlock (GFAT), Rego Botelho (RB) e João Gaspar (JG), enchiam um cartaz deveras apelativo.

Tiago Pamplona abriu a corrida que marcou os seus 20 anos de alternativa. Duas décadas de dedicação, resiliência e afirmação, honrando uma dinastia e a terra que o viu nascer. Foram precisamente as características referidas que marcaram a sua primeira lide. O RB (n°74, 460kg) vinha bem apresentado, mas tinha algumas dificuldades de visão, mercê da conformação dos pitons. Com debilidade de forças, pedia que o provocassem e, ainda assim, arrancava tarde. Lide de entendimento a trazer o toiro com medidas tiradas, mexendo-lhe nas querenças e metendo-o na luta, ainda que, por vezes, algumas das sortes não resultassem em pleno. Com o bonito, volumoso e sério JG (n°44, 539kg) a história seria outra. Um bom toiro e uma lide em plano de triunfo. O Cavaleiro foi palmilhado terreno e, a cada ferro, foi fazendo ouvir as bancadas. Se iniciou a série de curtos com um grande ferro a respeitar os tempos do toiro, terminou com um ferro de palmo que fez levantar a assistência numa explosão de emoção.

João Moura Jr. entrou em praça trazendo à lembrança a encerrona que protagonizou em 2025. Se bem lembrou, melhor o executou. Era bonito e bravo o JG (n°41, 476kg), com uma entrega constante até ao fim da lide. Pela frente teve a arte mourista que lhe rubricou uma lide triunfante, fazendo tremer a praça. Bregas e remates justíssimos e ferros de tirar a respiração, como foi o caso do 3° curto, à meia volta e em terrenos apertadíssimos, junto à porta dos curros. A dose havia de ser repetida no ferro seguinte, ainda que noutros terrenos, e a Praça ia vindo abaixo. O RB (n°61, 503kg) não comprometeu, colaborou e metia bem a cara. Moura Jr. leu-o de imediato e, logo chegou ao público com com batidas templadas e cravagens a aguentar a viagem impetuosa do toiro. Duas mourinhas e o público em delírio encerraram a lide.

João Ribeiro Telles mostrou inteligência ao perceber as condicionantes do oponente. O RB (n°64, 464kg) tinha chispa e vontade de investir, no entanto, transpareceu dificuldades morfológicas que lhe condicionavam o ímpeto na investida. Telles esperou-o à porta dos curros, dobrou-se a receber e foi cuidando do toiro, conseguindo que este tivesse a duração pretendida. Remates cingidos, a rubricar sortes onde estiveram patentes todos os tempos e cadências de forma correcta. Fechou uma boa lide com um melhor ferro curto. E porque há dias desafiantes, foi recolhido o último da tarde/noite (JG) para ser substituído pelo sobrero RB (n°41, 519kg). O toiro, que viria a dar água pela barba à forcadagem, perdeu o gás bastante cedo, ficando-se em curto, indo só pela certa e não carregando as sortes. Dois ferros compridos e três curtos resumem a lide possível diante de um oponente sem grandes possibilidades.

Na forcadagem, viveram-se muitos dos sentimentos que alimentam a Festa e esta forma de arte: glória, superação, camaradagem, susto e sofrimento. Pelo GFATTT despediu-se um dos grandes forcados da ilha Terceira, Carlos Vieira "Cabeça". O mais velho de uma família de 5 irmãos forcados, fechou-se à primeira numa grande pega em que foi levado pelo alto e aguentou duros derrotes até chegar à preciosa ajuda do grupo. Bernardo Belerique (cabo), à primeira, respeitou os tempos, consentiu a viagem e trouxe o toiro toureado até se fechar com máxima eficácia. Deu uma aula. João Vieira "Cabeça" saiu em maca (felizmente sem consequências), após duas tentativas em que aguentou barbaridades e que quase se transformaram naquela que poderia ser a pega da Feira. Na dobra, Francisco Matos resolveu com ajudas carregadas.

Pelo GFAT que está em ano de Bodas de Ouro, Sérgio Tirado resolveu à segunda, aguentando a paragem do toiro a meio da viagem e a fechar-se com eficácia. Joey Pereira fechou-se com raça à segunda mostrando muito querer. Aaron Teixeira encontrou um comboio de alta velocidade pela frente. Duas tentativas em que o grupo foi sendo despejado com derrotes altos e, no final das quais, foram saindo forcados lesionados. David Sanchez substituiu o colega que saiu maltratado e fechou-se a sesgo com valentia e as ajudas carregadas.

A corrida dirigida, diligentemente, por Ricardo Costa, assessorado por Vielmino Ventura contou com um minuto de silêncio, no início, em homenagem a António Vielmino Ventura, José Alpoim Bruges e António Silveira Dinis, figuras ligadas à tauromaquia, recentemente falecidos. Homenagens ao GFAT pelos 50 anos de história a elevar a arte de pegar toiros, desde os EUA, nas mais diversas praças mundiais e a Tiago Pamplona pelos 20 anos de alternativa como Cavaleiro Tauromáquico. Entre as lembranças entregues, destaque para o pasodoble "Glória na Arena - Tiago Pamplona" da autoria de Hélder Linhares, oferecido pela família do Cavaleiro e estreado pela Banda do Senhor Santo Cristo de Toronto que abrilhantou a corrida.

Bruno Bettencourt 

Foto: Tertúlia Tauromáquica Terceirense 

terça-feira, 21 de outubro de 2025

O último touro de Morante...

Partilhamos aqui o vídeo com o último touro lidado por Morante de La Puebla, antes de cortar a coleta.

Foto: Borja Sánchez-Trillo/EFE
Vídeo: CMM

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Corrida de emoções - Crónica da Corrida das Festas da Praia 2025



Expectativa, ansiedade e vontade… Um misto de sentimentos que foram crescendo e foram rodeando os dias e as horas que antecederam a corrida das Festas da Praia de 2025. Foram muitos os que se deslocaram à Ilha Terceira. Cada vez mais, e com base no que é dito por quem nos visita, esta terra é o santuário de algo que vai mais além da “simples” palavra afición. Esta terra é o santuário da taurinidade e tem na Praça de Toiros “Ilha Terceira” a sua Catedral. Uma vez mais, as ganadarias terceirenses de Rego Botelho (RB) Casa Agrícola José Albino Fernandes (JAF) e João Gaspar (JG) estiveram em disputa.

Filipe Gonçalves abriu a tarde com ousadia. A ousadia daqueles que buscam e arriscam logo de início, dizendo “Presente” à chamada do triunfo. O exemplar RB (n°46, 476kg) veio a mais ao longo da lide e mostrou-se colaborante. O Cavaleiro algarvio entendeu o oponente e tirou as devidas vantagens do seu comportamento. Cedo chegou às bancas com um toureio emotivo baseado em ferros com batidas ao piton contrário, cravados em terrenos de compromisso. A destacar, entre outros, o quarto ferro curto: uma reunião aquelas que fazem parar corações. A Corrida abriu assim num patamar superior. O JG (n°34, 472kg), que lidou em segundo lugar, era bonito mas, cedo mostrou alguma debilidade em termos de força, o que fez com que se fosse defendendo ao longo da lide. Aqui, assistiu-se a outro tipo de abordagem. Bem nas bregas e mantendo o tom das cravagens, viu-se um Cavaleiro trabalhador e mais paciente, que procurou contornar as dificuldades do oponente, saindo por cima do mesmo.

Para a montada de Tiago Pamplona, saiu um bonito JG (n°36, 505kg), pleno de trapio. Um bom toiro que se entregou durante toda a contenda. O toureio clássico à portuguesa é uma das formas de arte mais pura e bonita, quando bem delineado e executado. Assim o fez o Cavaleiro da Quinta do Malhinha. Com serenidade e frontalidade, desfrutou do bom toiro que tinha pela frente e rubricou uma boa lide, com cravagens correctas e muita inteligência na escolha dos terrenos. Se o fez com o primeiro toiro, assim o repetiu com o RB (n°57, 431kg). Eficácia com quatro ferros curtos de boa nota, diante de um exemplar que exigia que o conduzissem de forma adequada. O Cavaleiro expôs, novamente, as virtudes do classicismo português ao contornar, gradualmente, as exigências do oponente. De realçar o facto de Tiago Pamplona se ter lesionado, com alguma gravidade, num treino, dois dias antes da corrida e, ainda assim, esteve em praça sem que a assistência percebesse que estava diminuído fisicamente.

Luís Rouxinol Jr. também segurou a Corrida no patamar do triunfo. Regressou à ilha para mostrar o grande momento em que se encontra. É Cavaleiro por valor próprio. Já não é “só” o filho de alguém. O JAF (n°208, 478kg) que tinha pela frente, era bom e pedia contas. Rouxinol interpretou-o com acerto e recriou-se, ferro após ferro. Maturidade e irreverência andaram de mãos dadas fazendo eco nas bancadas, numa lide redonda e triunfante. Com uma grande prestação, viria a fechar a corrida, diante de um belo JG (n°31, 440Kg). O toiro era uma estampa e vinha de largo. Com ele, veio o Cavaleiro com o seu toureio a galvanizar a assistência. Nota de realce para o quarto ferro curto. Saiu de praça sob forte ovação e com o público a pedir mais.

A expectativa também pousou na forcadagem. Grupos de Forcados Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense (GFATTT) e Aposento da Chamusca (GFAAC). Pelo GFATTT deu o mote o novel Cabo Bernardo Belerique. Depois de uma primeira tentativa em que foi despejado pelo toiro e saiu tocado, fechou-se à segunda, com valentia, aguentando barbaridades durante a viagem. Francisco Matos, com a eficiência habitual realizou uma boa pega à segunda, sendo bem ajudado pelo grupo. Carlos Vieira fechou-se à primeira com técnica e eficácia, contando com uma grande intervenção do primeiro ajuda Fernando Ferreira. O GFAAC regressou à ilha após 17 anos, numa digressão que despertou muitas atenções. O Cabo João Saraiva pegou à primeira numa rija pega que resultou de uma mistura de querer, força e experiência. Esteve enorme na cara do toiro. Joviano Bettencourt, forcado natural da Terceira, pegou à segunda na Praça da terra que o viu nascer e crescer. Após ter escorregado antes de se fechar na primeira tentativa, realizou de forma correcta uma boa pega que contou com uma primeira ajuda eficaz de Pedro Ribeiro. A Corrida fechou com uma verdadeira aula sobre a arte de pegar toiros. Vasco Coelho dos Reis fez o difícil parecer fácil. Um forcado de eleição que deu lição na arena. Citou, mandou, aguentou, respeitou criteriosamente os tempos do toiro que tinha pela frente e fechou-se de forma perfeita à primeira.

As emoções também estiveram em praça com duas despedidas: Joviano Bettencourt cumpriu o sonho de se fardar e pegar “em casa” e, após esta realização, despediu-se enquanto forcado activo diante das suas gentes que lhe tributaram forte e emotiva ovação. Com a mesma intensidade foi brindado o Bandarilheiro Jorge Silva que, depois de quase 25 anos de alternativa, cortou a coleta e despediu-se das arenas. Um toureiro de muita entrega e humildade que muito contribuiu para a história da tauromaquia dos Açores.

A Corrida foi dirigida, com diligência, por Ricardo Costa, que esteve assessorado por José Paulo Lima. Abrilhantou, com maestria, a Banda da Sociedade Filarmónica Espírito Santo da Agualva.

Bruno Bettencourt

Foto: CMPV



segunda-feira, 21 de julho de 2025

Arte por inteiro – Crónica do Espectáculo Taurino do Ramo Grande 2025



Um quadro deixado a meio, uma composição musical inacabada, uma peça de teatro sem guião… Formas de arte que se ficam pela metade, são formas de arte incompletas, Não são vividas nem sentidas por inteiro. O toureio, enquanto forma de arte, não foge à regra. Uma lide incompleta, deixa incompleto quem assiste. Infelizmente, tem sido este o cenário nos últimos anos na ilha Terceira, no que ao Toureio a Pé diz respeito. Não porque os carteis sejam mal montados, não porque os ganaderos não têm trabalhado bem…. Tem-no sido porque no momento fulcral, os reis da festa, os toiros, não têm permitido ver obras de arte completas. No intitulado “Espectáculo do Ramo Grande” de 2025 provou-se que quando a obra é completa, os aficionados vibram e, com isto, mostram que o Toureio a Pé está vivo nesta terra e que as Corridas Mistas são apetecíveis.

Estavam anunciados 6 exemplares novilhos-toiros (que pela sua boa apresentação e trapio, apesar dos pesos registados, serão designados como toiros no decorrer desta crónica). A cavalo foram lidados quatro de João Gaspar (JG) e, na lide apeada, um de Rego Botelho (RB) e outro da Casa Agrícola José Albino Fernandes (JAF).

Com uma resenha do seu percurso de Mestre do toureio e uma sonora ovação, Paulo Caetano foi homenageado pela União Tauromáquica do Ramo Grande, organizadora do evento, antes do início das lides.

Abriu praça João Moura Caetano, filho do primeiro homenageado da tarde. Diante do nº35 (413Kg) de JG traçou uma boa lide, ainda que pouco regular nas cravagens. O toiro era colaborante, apesar de carregar pouco nas sortes. O Cavaleiro dobrou-se bem com ele e foi-se ligando nas bregas, mexendo-lhe com os terrenos. O JG (nº32, 444Kg), segundo do seu lote, era bonito e deu boa réplica, empregando-se na reunião com codícia. Caetano esteve correcto nas cravagens e nas abordagens às sortes, numa lide marcada pela constante intervenção dos bandarilheiros/peões de brega na colocação do toiro.

João Salgueiro da Costa veio à ilha Terceira mostrar, por inteiro, o bom momento que atravessa. Diante de um JG (nº33, 410Kg), que foi perdendo ímpeto e começou a pedir que lhe pisassem terrenos de compromisso, o Cavaleiro mostrou o seu talento e toureria. Uma lide sempre em patamar superior, com abordagens frontais e a tocar bem as teclas do toiro, fazendo chegar às bancadas a melodia do seu toureio. Melodia essa que deveria ter vindo da bancada mas, não lhe foi concedida música durante a lide. Ação (ou inação!) do Director de Corrida bastante questionável. O último da tarde, já noite, (JG, nº28, 458Kg) revelou bom comportamento e respondeu bem ao mando do Cavaleiro. Salgueiro da Costa não baixou o nível, impôs-se novamente e, com um grande ferro em “sorte de gaiola”, galvanizou a assistência, rumando ao triunfo. Entendeu o toiro e recriou-se de forma correcta, com cravagens plenas de emoção. De notar o facto de ter utilizado a mesma montada durante toda a lide. Encerrou com um ferro curto de nota superior.

Ismael Martin, jovem Matador nascido na Suíça, teve a sorte e o condão de rubricar duas lides completas, diante dos bons exemplares que teve pela frente. O primeiro (RB, nº76, 405Kg), um bonito jabonero, empregou-se na muleta e foi mostrando nobreza e duração de investida. Martin, que assim se estreava em praças portuguesas, mostrou recursos com o Capote, chegando rapidamente à assistência com vistosas Lopecinas. Após um tércio de bandarilhas onde esteve irrepreensível, lidou com a mão baixa e foi tirando partido das condições do oponente, por ambos os lados. Uma boa lide onde se destacaram Derechazos com ligação e profundidade. O seu segundo (JAF, nº243, 481Kg), um flavo bem rematado, entregou-se e embebeu-se na Muleta, ainda que por vezes protestasse pela esquerda. Uma vez mais, Martin mostrou ofício e sede de triunfo. Uma grande lide a sacar tudo o que de bom o toiro trazia. Lide de quietude a chegar às bancadas, valendo-lhe duas voltas ao redondel sob forte ovação.

Grupos de Forcados: Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense (GFATTT) e Amadores do Ramo Grande (GFARG). As duas jaquetas da ilha Terceira estiveram ao melhor nível realizando todas as pegas ao primeiro intento. Pelo GFATTT João Bettencourt fechou-se muito bem à barbela sem dificuldade e João Vieira esteve enorme a aguentar um duro derrote do toiroPelo GFARG Rui Dinis aguentou a investida ensarilhada do toiro e fechou-se brilhantemente. Gonçalo Batista fechou com uma grande pega a aguentar uma viagem dura, merecendo realce a determinante intervenção do primeiro ajuda Pedro Pereira.

No decorrer do intervalo foi também homenageado o crítico tauromáquico Mário Aguiar Rodrigues. Um dos nomes incontornáveis no que à divulgação e informação taurina dizem respeito, quer seja na imprensa escrita, rádio ou televisão. Deixo também a minha vénia por todo o seu percurso e sapiência.

O Espectáculo foi dirigido por Leandro Pires que pecou pelo critério utilizado aquando da primeira lide de João Salgueiro da Costa. Foi assessorado por Vielmino Ventura.

A abrilhantar (bem!) a Banda da Sociedade Filarmónica Progresso Lajense (Sociedade Nova).


Bruno Bettencourt

quarta-feira, 25 de junho de 2025

Sobraram Toureiros e brilharam Forcados - Crónica da Corrida Mista da Feira de São João 2025



Eram grandes as expectativas para a Corrida Mista que encerrou a Feira de São João de 2025, precisamente no dia dedicado ao patrono da festa, 24 de Junho. Os aficionados traziam na lembrança o desenrolar da segunda Corrida do certame e, nas bancadas, verificou-se uma afluência como há muito não se via neste formato de Corrida.

A lide equestre esteve a cargo de Tiago Pamplona. O primeiro do seu lote foi recolhido após ter partido uma haste ao embater na trincheira. Os dois oponentes de Rego Botelho (RB) que teve pela frente (nº38, 457Kg; nº47, 465Kg), eram bonitos, mas desluzidos de comportamento. Apresentaram pouca mobilidade e defendiam-se. Duas lides de entrega e maturidade, marcaram a presença do Cavaleiro terceirense. Ligou-se aos oponentes, mexeu com eles e foi-lhes tapando as debilidades, trazendo os toiros ao seu mando. A destacar o ferro curto com que fechou a sua primeira lide. Já é um lugar comum, mas nunca é demais afirmar que é diante de toiros com menos transmissão e mais complicação, que se vê a qualidade de um toureiro. Assim foi e Tiago saiu claramente por cima dos seus oponentes.

O Matador Manuel Escribano regressou à Praça de Toiros “Ilha Terceira” e enfrentou dois RB (nº42, 482Kg; nº43, 469Kg) que cedo se revelaram bruscos de investida e acabaram por se desligar. Procurou experimentar e conduzir os toiros por ambos os lados, na Muleta, mas não foi possível sacar séries com ligação e profundidade. A destacar os pares de bandarilhas com que brindou a assistência.

Emílio de Justo estreou-se na ilha Terceira diante de dois RB (nº45, 485€; nº37, 454Kg). Tal como os outros exemplares lidados a pé, demonstraram poucas condições de lide. O segundo do lote mostrou alguma codícia no Capote, mas na Muleta, acabou por rachar, saindo solto a cada par de muletazos. Justo provou-os e baixou a mão. Lidou em toda a arena, dando espaço e vantagens aos oponentes mas, também aqui, não foi possível assistir-se a toureio com ligação.

As pegas haviam de trazer mais algum brilho a um espectáculo que se foi tornando morno. Pelo Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca de Xira, foram solistas Miguel Faria, com uma grande pega, muito bem ajudada, à primeira e Guilherme Dotti, que se fechou de forma enorme, aguentando um embate violento e um derrote por cima.

Nota para a emotiva despedida do Bandarilheiro Terceirense José Luís Leonardo que, sem o ter anunciado previamente, cortou a coleta naquela que é a sua arena. Merecida volta e ovação por parte da assistência aquele que, durante largos anos, honrou com eficiência a tauromaquia terceirense, vestindo de seda e prata.

Leandro Pires dirigiu a Corrida, sendo assessorado por Vielmino Ventura. Abrilhantou, artisticamente, a Banda da Associação Cultural do Porto Judeu.


Bruno Bettencourt

Foto: Fernando Pavão

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Os heróis e os predestinados, serão sempre lembrados - crónica da segunda Corrida da Feira de São João 2025




"[...] Porque dos feitos grandes, da ousadia

Forte e famosa, o mundo está guardando

O prémio lá no fim, bem merecido,

Com fama grande e nome alto e subido."

Luís de Camões in "Os Lusíadas" (canto IX, est. 88)

 

A Ilha dos Amores, descrita por Camões, serviu de mote para a edição das Sanjoaninas 2025. Nessa passagem dos Lusíadas, está descrito como Tétis mostrou a Vasco da Gama a “máquina do mundo”, ou seja, o universo e os locais do mundo onde o povo português iria alcançar grandes vitórias. Assim aconteceu na tarde histórica do dia 22 de junho de 2025, na Praça de Toiros "Ilha Terceira". Uma grande vitória! Uma página de ouro da história da tauromaquia deste país de navegadores... e de "gente de toiros".

Lotação Esgotada! O anúncio feito na véspera já era bom prenuncio!

Concurso de Ganadarias com exemplares de Rego Botelho (RB), Casa Agrícola José Albino Fernandes (JAF) e João Gaspar (JG), João Moura Jr a lidar em solitário, mudança de Cabo no Grupo de Forcados Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense (GFATTT). Tudo parecia encaixar-se para uma tarde memorável. Uma tarde daquelas que serão recordadas e relatadas por muitos anos. E assim foi!!

Comecemos por João Moura Jr. A arte, o génio, o engenho, a entrega, o poder e a maestria foram deixadas na arena de Angra do Heroísmo. O Cavaleiro abriu a alma e deixou que todos admirassem tudo aquilo que traz dentro de si. Um colosso da arte de Marialva. Um verdadeiro centauro!

Cedo agarrou a assistência. O exemplar de RB (nº44, 497kg) estava muito bem rematado e era bonito, com cara e fino recorte. Saía de largo ao cite e colaborou com o que lhe era pedido. Moura abriu a caixa e foi lançando o perfume que se sentiu durante toda a corrida. Cravagens correctas e sempre com as medidas bem tiradas, encimadas por remates e bregas “à Moura” disfrutando da montada, uma verdadeira extensão do seu corpo.

O segundo era de JAF (nº255, 436kg). Era bonito e saiu com muita pata. Cedo mostrou cansaço e falta de força. Apesar dos bons modos que foi mantendo, foi-se reservando. João dobrou-se bem com ele na saída e aguentou o ímpeto do toiro, ao milímetro. Lidou a dar primazia ao oponente e a cuidá-lo. Manteve a tónica: bregas e cravagens de levantar praça!

O “Poeta” (JG, nº16, 515Kg) saiu em terceiro lugar. Bem apresentado e em tipo do encaste, entrou em praça com codícia. Investidas nobres e com ritmo revelaram o bravo toiro que ali estava. O triunfo também já ali estava. Entendimento e entrega, por parte do Cavaleiro, ao toiro que tinha pela frente. Começou com um ferro em “sorte de gaiola” que fez estremecer a praça. Mais réplicas viriam de seguida. Nos curtos, foi impossível ficar indiferente ao segundo ferro cravado. Metido em terrenos do toiro, cravagem e remate daqueles que apenas estão ao alcance dos predestinados. A praça estremeceu e os corações pararam! A encerrar, nova réplica: que “mourinha”, que remate, que pintura… A praça entrou em ebulição!

O quarto ostentava a divisa azul e branca de RB (nº56, 514kg). Foi indo ao cite e carregando as sortes, mas cedo começou a reservar-se vindo a menos, sem comprometer. Uma boa lide a mostrar que há ofício. Com o desenrolar da mesma, houve que ir tirando água do poço e contrariar as reservas do toiro.

O quinto (JAF, nº235, 439kg) saiu com gás! Foi esperado à porta dos curros pelo cavaleiro que o dominou até aos limites do impensável. O toiro foi-se mostrando desigual, mas encontrou rumo e veio a mais. Lide poderosa a tocar as teclas do toiro numa harmonia triunfal. Duas “mourinhas” a encerrar que provocaram nova explosão de emoção e alegria!

A fechar, saiu à arena um lindo JG (nº30, 483Kg). Pleno de nobreza e com ímpeto na investida, trouxe a chave de ouro a João Moura Jr. Os corações e o tempo pararam, a cada cravagem e cada vez que o toiro era trazido embebido no estribo daquele “cavalo-muleta”. O Cavaleiro estava com os olhos marejados de água e de sal… A assistência também… Quem assistia, queria que o tempo parasse e aquele momento heroico nunca mais acabasse. Haveria de vir Tétis recebê-lo como fez a outro herói. Como fez a Vasco da Gama que está igualmente imortalizado nesta cidade Património Mundial. Que lide… Que lides… Que Mestre… Assim se abriu a Porta da Glória, a Porta Grande e Triunfal da Praça de Toiros “Ilha Terceira” para que, em ombros, saísse por ela um dos eleitos pelos deuses.

 A tarde também foi de forcadagem. O GFATTT pegou em solitário, em dia festivo. Abriu praça João Vieira, numa pega correctíssima e de poder, à primeira.

João Pedro Ávila abraçou valentemente o segundo da tarde ao primeiro intento, naquela que seria a sua última pega como Cabo do grupo. De notar o pormenor da quase totalidade da formação ser composta por antigos forcados, da geração do homem que foi à cara.

Bernardo Belerique recebeu o comando do grupo, assim como fez ao toiro que tinha pela frente. À primeira, com uma rija pega.

Francisco Matos realizou um pegão à segunda, aguentando derrotes violentos.

João Bettencourt, de forma eficiente e limpa, fechou-se à primeira.

Carlos Vieira deu vantagens e fechou-se, à primeira, numa grande pega.

Ricardo Costa dirigiu a corrida, de forma diligente, sendo assessorado por Vielmino Ventura.

Abrilhantou (e bem!) a Banda Filarmónica da Sociedade Recreio da Terra-Chã.

O júri, composto por um representante de cada uma das ganadarias em praça decidiu:

- Prémio de Apresentação: “Poeta”, n16, 515Kg de João Gaspar.

- Melhor Toiro: “Poeta”, n16, 515Kg de João Gaspar.


Bruno Bettencourt

domingo, 22 de junho de 2025

A classe de Brito Paes e a raça de João Vitorino - Crónica da primeira Corrida da Feira de S. João 2025


Junho em Angra do Heroísmo, ilha Terceira. Verão, Sanjoaninas, Feira de São João. Neste ano de 2025 a regra continua a cumprir-se. Que bonita e tão bem cuidada está a Praça de Toiros “Ilha Terceira”. Mais bonita ainda esteve no dia 21 de Junho. Praça cheia para assistir à Corrida à Portuguesa que abriu a Feira de 2025. Três toiros da Casa Agrícola José Albino Fernandes (JAF) e outros tantos de João Gaspar (JG). João Pamplona, Joaquim Brito Paes e Tristão Ribeiro Telles na disputa do prémio para a Melhor Lide a Cavalo. Grupos de Forcados Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense (GFATTT), Ramo Grande (GFARG) e Merced (GFAM) (Califórnia) a ombrear para o prémio de Melhor Pega.

O primeiro exemplar JG (nº25, 532kg) era uma estampa. Era nobre de investida, mas pedia que lhe pisassem os terrenos. Foi-se parando, mostrando querenças nos tércios. João Pamplona cravou “à porta gaiola” e foi-lhe mexendo com o conforto, mostrando a sua forma de lidar. Correcto nas bregas e com as cravagens, rematou as sortes com o seu estilo alegre que, cedo, entusiasmou as bancadas. Uma boa lide que se iria repetir diante do quarto da ordem. O JAF (nº277, 484kg) investia sem prolongar a intensidade após as cravagens. Foi melhorando o comportamento com o decorrer da lide, proporcionando bom jogo. O Cavaleiro do Posto Santo mostrou saber e entrega. Correcto na escolha de terrenos, entendeu o oponente e recriou-se nas cravagens, destacando-se o quarto ferro curto que ecoou nos sectores da praça. Encerrou esta sua participação com um ferro de palmo.

A tarde foi de juventude e de estreias. Joaquim Brito Paes apresentou-se no redondel angrense com uma lide de muita classe e entrega. Pela frente teve um exemplar JAF (nº254, 490kg) daqueles que fazem aficionados: bonito, de encher o olho, e bravo. Bravo de uma ponta à outra. Investidas a galope com nobreza e durabilidade. Após os compridos, Brito Paes desenhou uma lide a dar vantagens ao toiro e a cravar com o desplante das batidas ao pitón contrário. Dobrou-se nos remates para gaudio dos espectadores. Em praça esteve o verdadeiro equilíbrio entre o espírito combativo deste toiro de nome “Corcito” e a serenidade da arte deste Cavaleiro de dinastia. Uma lide triunfal a coroar esta sua estreia.  O JG (nº37, 497kg) era nobre e voluntarioso empregando-se na lide. O Cavaleiro tirou partido das boas condições do oponente e cumpriu todos os predicados que constituem uma boa lide. Correcto nas cravagens e nas preparações das mesmas, voltou a mostrar o seu talento, ainda que sem superar a sua primeira prestação.

Tristão Ribeiro Telles, outra das estreias da tarde, esteve algo irregular diante dos seus oponentes. O seu primeiro (JAF, nº269, 449kg) saiu com gás e, apesar de se ter revelado codicioso durante a contenda, foi-se parando. Tristão mostrou pormenores de toureio e, acima de tudo, vontade em romper, no entanto, não conseguiu uma lide com ligação e ritmo. O segundo do seu lote, último da corrida, era outro toiro “de catálogo”: muito bem apresentado e bravo. Reservou-se, por momentos, fruto de uma queda na arena, mas logo retomou o ritmo da investida e a intensidade que imprimia nas viagens. Lide esforçada, mas com algum desacerto por parte do Cavaleiro.

Pelo GFATTT esteve na cara do toiro João Silva que após a pega se despediu do seu grupo. Consumou à primeira com raça e boa ajuda do grupo. Tomás Costa, após ser despejado com um violento derrote, enfrentou o toiro em mais 4 tentativas, tendo saído lesionado. Foi dobrado por Heitor Dias que, a sesgo, resolveu à 6ª tentativa.

O GFARG teve a infelicidade de ver condicionada a sua primeira prestação. O toiro (JAF, nº254, 490kg) derrotou na trincheira, ao ser colocado para a pega, e partiu uma haste. Pega de cernelha por Pedro Pereira e Délcio Gomes que, após uma tentativa, se revelou inviável devido às condições do toiro. Gonçalo Batista pegou à quarta tentativa após ter saído da cara do toiro, por violento derrote, na primeira tentativa.

Pelo GFAM António Melo resolveu à primeira com uma rija pega, sendo bem ajudado pelo grupo. João Vitorino fechou a tarde, já noite, com uma grande pega à primeira, levantando a praça.

No início da Corrida foi guardado um minuto de silêncio em memória de João Miranda, Cavaleiro de Alternativa e antigo Forcado recentemente falecido. No intervalo do evento, foi homenageado o Cavaleiro Rui Salvador que, há menos de um ano, se despediu das arenas.

A Corrida foi dirigida por Leando Pires, coadjuvado por José Paulo Lima. A abrilhantar esteve a Banda Filarmónica Lira Açoriana de Livingstone (Califórnia).

No final, o júri, que foi constituído por um representante de cada um dos Cavaleiros e de cada um dos Grupos de Forcados, decidiu:

- Prémio para melhor lide: Joaquim Brito Paes pela lide ao segundo toiro da Corrida;

- Prémio para melhor pega: João Vitorino, Grupo de forcados Amadores de Merced.


Bruno Bettencourt

Foto: Fernando Pavão

terça-feira, 17 de junho de 2025

João Pamplona confirma Alternativa no Campo Pequeno

 


O Cavaleiro João Pamplona irá fazer a confirmação da sua Alternativa na Praça de Toiros do Campo Pequeno, a 22 de Agosto.

O Cavaleiro irá apresentar-se na Catedral do Toureio a Cavalo ao lado de Ana Batista (que comemora 25 anos de Alternativa), Filipe Gonçalves (a comemorar 20 anos de Alternativa), Manuel Telles Bastos, Andrés Romero, António Prates, Joaquim Brito Paes e António Telles Filho.

Na disputa do prémio para a melhor pega, estarão os Grupos de Forcados Amadores de São Manços, Moura, Monforte e Beja.

A Corrida que também será de homenagem à memória do Ganadero Dr. Luís Vinhas e aos 75 anos da Ganadaria Vinhas, contará com 8 toiros da referida divisa.

João Pamplona, triunfador do primeiro espectáculo realizado na temporada de 2025, em Angra do Heroísmo, estará já no próximo dia 21 na primeira Corrida da Feira de São João. Na Corrida estará igualmente presente Joaquim Brito Paes (com quem partilhará cartel no Campo Pequeno), assim como Tristão Ribeiro Telles.

quinta-feira, 12 de junho de 2025

Curro para a Corrida Concurso de Ganadarias da Feira de S. João 2025

Já são conhecidas as imagens dos 6 exemplares que estarão em praça no próximo dia 22, na Corrida Concurso de Ganadarias da Feira de S. João 2025. Este formato de corrida regressas assim à principal Feira açoriana. Estarão em concurso as Ganadarias de Rego Botelho, Casa Agrícola José Albino Fernandes e João Gaspar.

Esta Corrida terá ainda a aliciante de todos os toiros serem lidados por João Moura Jr que realizará assim a primeira "encerrona" em terras atlânticas. Nessa mesma tarde, haverá mudança de comando no Grupo de Forcados Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense. O Cabo João Pedro Ávila passará o testemunho a Bernardo Belerique.








quarta-feira, 11 de junho de 2025

Quadra de João Moura Jr já está na ilha Terceira

Já se encontra na ilha Terceira a quadra de cavalos do Cavaleiro João Moura, que o irá acompanhar na "encerrona" da "Corrida Concurso de Ganadarias" da feira de São João, que se realizará no próximo dia 22 de Junho:
















segunda-feira, 2 de junho de 2025

Corrida das Festas da Praia 2025


 

sábado, 24 de maio de 2025

João Pamplona e os 40 forcados - Crónica do Festival Taurino, primeiro da temporada


Não é uma das histórias das "Mil e uma noites", mas resume a história da noite de sexta-feira, dia 23 de Maio.

Arrancou a temporada taurina 2025 nos redondéis açorianos! A cavalo, Tiago Pamplona, João Pamplona e Diogo Oliveira que se estreou em terras açorianas. Novilhos de Rego Botelho (RB), Casa Agrícola José Albino Fernandes (JAF), Herdeiros de Ezequiel Rodrigues (ER), João Gaspar (JG) e Ribeiro da Silva (RS). Pegas a cargo do Grupo de Forcados Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense (GFATTT)

Com a divisa verde negra e ferro JG, o nº27 foi recebido por Tiago Pamplona. O novilho foi perdendo o ímpeto com o desenrolar da lide, parando-se nas reuniões. O Cavaleiro aproveitou para rodar e colocar montadas novas em praça. Esteve regular diante do oponente, procurando despertar o interesse do mesmo e dando-lhe a primazia nos terrenos. Terminou com dois ferros de palmo. O nº282 de JAF era interessado e ia à luta. O que parecia ter em vontade, faltava-lhe em força e, após duas quedas na arena, começou a defender-se, acabando por transmitir pouco. Tiago foi-lhe medindo as investidas e foi dando vantagens. Ainda que condicionado pela fraqueza do hastado, brindou a assistência com uma lide correcta.

Bregas cingidas, sempre ligado ao novilho, remates vistosos e a fazer eco nas bancadas. Assim esteve João Pamplona com o bom exemplar nº71 de RB. O novilho respondeu bem à contenda, investia com a cauda levantada e o mais novo dos Pamplona fez esquecer que ainda não tinha toureado esta temporada. Uma boa lide, ao seu estilo, que se iniciou com um ferro à porta gaiola”, terminando com um ferro curto a consentir a investida. Se com ganas começou, com ganas terminou. Uma lide triunfal diante de outro bom exemplar, desta feita o nº458 de ER. Foi codicioso o novilho e assim o foi o Cavaleiro. Lide do agrado da assistência: bregas justas, trazendo o exemplar da divisa verde e branca embebido na garupa, culminando em cravagens correctas. Após a cravagem do quarto ferro curto, a montada escorregou na cara do toiro e caiu no entanto, não houve nenhum percalço e João Pamplona continuou a lide, terminando sob forte ovação.

Diogo Oliveira havia de ter pela frente o exemplar menos colaborante. O nº 26 de RS era desligado e mostrava mais interesse no que acontecia fora da arena. O Cavaleiro mostrou algum desacerto no inicio da lide. Com o desenrolar da mesma corrigiu as velocidades e foi palmilhando terreno até conseguir sacar alguma água de um poço que parecia seco a princípio. O seu segundo exemplar exigia que lhe tocassem nas teclas certas. Apesar de pequeno em termos de esqueleto, era muito bem desenhado o nº457 de ER. Oliveira desenhou uma lide em crescendo, mostrando entendimento em relação ao oponente. Tirou partido deste e esteve vistoso nas bregas. Com o cavalo estrela desenhou sortes vistosas e com recortes de classicismo. Destaque para os terceiro e quinto ferros curtos. Encerrou com um violino, saindo em patamar de triunfo.

Em ano de mudança de Cabo, os Amadores da Tertúlia mostraram o grande momento de vitalidade e renovação que o grupo está a viver. Em praça estiveram fardados 40 forcados e, quem não soubesse, não conseguia perceber quem pertencia ao grupo juvenil e quem faz parte do grupo “sénior”. Seis formações com um misto de ambas as gerações actuais e seis forcados “dos novos” para a cara. Se referi vitalidade e renovação, agora acrescento outra palavra: qualidade! Tomás Costa deu o mote com uma boa pega à primeira, sendo muito bem ajudado pelo grupo. Eduardo Rico corrigiu-se e, à terceira, consumou com uma boa pega, plena de atitude. Heitor Dias fechou-se à primeira, sem dificuldade. Tomás Cunha resolveu, à segunda, com uma boa pega enquanto que Francisco Ramos se encaixou à primeira, aguentando a viagem na cabeça do novilho. Diogo Rocha fechou o espectáculo com uma pega bem executada à primeira tentativa.

O Festival Taurino, organizado pelo GFATTT e promovido pela da Escola de Equitação e Toureio Terceirense – Quinta do Malhinha foi dirigido, com exigência, por Ricardo Costa que contou com a assessoria de Vielmino Ventura.

Abrilhantou, com eficiência, a Banda da Sociedade Musical e Recreio da Terra-Chã.

Antes do inicio das cortesias, aconteceu um minuto de silêncio em memória de José Álvaro Moules “Xinxas”, antigo elemento do GFATTT recentemente falecido.

Bruno Bettencourt
Foto: Paulo Gil

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Início da temporada 2025


 

sexta-feira, 18 de abril de 2025

Espectáculo Taurino do Ramo grande


 

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Feira de São João 2025

 



domingo, 21 de julho de 2024

Emoção, coração e razão... - Crónica do Espectáculo de despedida de Manuel Pires


"Vamos Manel! Pega esse toiro à maneira! Mesmo levando a trincheira, não largues o toiro, hoje é o teu dia!"

Ser Forcado e efectuar uma pega, não se resume ao "simples" acto de chamar um toiro, olhos nos olhos, entregar-lhe o corpo contra a cara e o abraçar. É, com toda a certeza, o expoente máximo das metáforas alusivas à vivência humana: enfrentar a força e a dureza das adversidades, corpo a corpo, com a astúcia e a leveza da técnica, aliada à sabedoria. É feito em grupo. É organizado. É civilizacional. Se uma metáfora eleva o exemplo a um patamar superior, aí também se situam os que a protagonizam. Homens com o valor especial dos escolhidos e que levam dentro de si, em cada chamamento ou bater de palmas, toda uma humanidade que é reflectida, naquele instante. Esses Homens são coragem e medo, citam com firmeza e também choram. São estas dicotomias que os fazem ainda maiores.

O dia 19 de Julho de 2024, ficará na memória como um dos dias onde todas estas nuances foram evidentes. Foi o dia em que se despediu um dos maiores da sua geração: Manuel Pires. O toiro iniciou a viagem e, no momento da reunião, mete mal a cara. Ainda assim, o agora antigo Cabo do Grupo de Forcados Amadores do Ramo Grande, fechou-se e, com uma boa ajuda do seu grupo, concretizou à primeira a pega do seu adeus.

João Moura Caetano lidou dois exemplares de João Gaspar, de comportamento distinto. O primeiro, um toiro alto e com muitos botões, foi lidado com acerto e a procurar logo agradar a assistência. Destaque para os cites cingidos com a montada, a tirar partido do galope cadenciado do toiro. O segundo do lote de Moura Caetano tinha mais fogo e era mais colaborante. Lide a ecoar nos sectores da Monumental "Ilha Terceira", após ser encontrada uma fórmula de agrado nas cravagens. Remate das sortes com as distâncias muito curtas e destaque para o 4 ferro curto, a consentir a chegada do toiro, sem aliviar a sorte e a cilha. Saiu sob grande ovação.

David Gomes teve um lote JG complicado. O primeiro que enfrentou, foi ganhando querenças. Aos poucos, o Cavaleiro foi-lhe tirando o conforto e colocando-o na luta. Lidou a compasso e, de forma inteligente, foi levando a água ao seu moinho, tapando muitas das debilidades de comportamento do toiro. Pecou por prolongar a lide. Diante do seu segundo, voltou a mostrar muito valor, ao ponto de não se compreender o porquê de não ter o nome no grupo dos mais solicitados. Um grande lide na verdadeira definição do termo: bregas correctas, acerto na escolha dos terrenos e cravagens com a correção e seriedade exigida, sem cair na tentação de enfatizar o acessório. Terminou com um grande par a duas mãos que ia trazendo a praça abaixo.

António Ferrera regressou à ilha Terceira, local onde tem um bom número de seguidores, resultante do gosto da aficcion local por Matadores-Bandarilheiros. O exemplar de Rego Botelho não tinha condições de lide. Ainda assim, do Capote verde saíram Delantales rematados com vistosa Larga afarolada. Com a Muleta sacou sites dispersos até conseguir desenhar circulares pela direita, engachando o toiro na Muleta. Deu primazia ao oponente e assim, com uma tela que era pálida, conseguiu traçar alguns laivos de cor que foram reconhecidos pela assistência. Há momentos em que é necessário colocar a cátedra de lado e lidar com o coração. Volta merecida à arena, segunda volta dada de forma incompreensível. O segundo RB tinha melhores condições. Provou-o com o Capote de forma breve. Destaque para o bom desempenho dos Bandarilheiros da sua quadrilha. Muito correctos nas cravagens. Com a Muleta baseou a lide na mão direita, melhor lado do toiro que investia com nobreza. Recorreu à mão esquerda por uma vez, sem grande história.. Uma lide de entrega, a querer agarrar a assistência com novos circulares e com momentos de toureiro bem templados e artísticos. No início do tércio, dirigiu-se à banda para que começasse a tocar e depois para pedir um pasodoble do seu agrado... É vistoso, há quem ache graça mas, há limites que devem ser respeitados num ritual que se pretende sério. Ferrera foi capaz do melhor e do desnecessário: grande nota para a atitude de se colocar, de forma voluntária, para poder auxiliar no decorrer das pegas, como se de um Peão de Brega se tratasse. Nota desnecessária por ter forçado uma saída em ombros até à porta de quadrilhas, a reboque da saída de Manuel Pires.

Voltando ao início e ao capítulo da forcadagem, realce para as intervenções, como é tradicional, do antigo e do novo Cabo do grupo e, depois, um vislumbre da história e vitalidade do grupo: um dos mais recentes Forcados da cara e um dos veteranos fundadores do grupo.

Rui Dinis estreou-se como Cabo com uma rija pega a sesgo, à segunda, diante de um oponente que não saía e que proporcionou uma primeira tentativa duríssima com o Forcado a aguentar uma barbaridade na cara do toiro.

Gonçalo Batista fechou-se à segunda de forma valente, mostrando que nas novas gerações há Forcados de contar.

César Pires o veterano do grupo, arrancou a pega da corrida. Fechou-se com valentia e aguentou a viagem contrária do toiro que, fugindo ao grupo, o levou até às tábuas. Fechou com chave de ouro!

A corrida, que contou com mais de 3/4 de casa, foi dirigida por Ricardo Costa, com a assessoria de José Paulo Lima. Abrilhantou, de forma soberba e com o cuidado certo, a Banda Filarmónica da Associação Cultural do Porto Judeu.

Bruno Bettencourt 

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