
Resultados ótimos e desempenhos brilhantes: é assim que Artur
Machado, investigador do Centro de Biotecnologia dos Açores, classifica a
participação terceirense quer no Torneio Nacional de Dressage, quer na
final da Taça de Portugal de Dressage, que aconteceram no mês passado na
Quinta da Beloura, em Sintra.
Nos primeiros escalões da competição,
os atletas alcançaram o pódio em praticamente todas as provas em que
participaram. No somatório das equipas - oito no total - o Centro Hípico
da Ilha Terceira alcançou o terceiro lugar.
No Torneio Nacional de
Dressage participaram, assim, 70 crianças com idades compreendidas entre
os oito e os 15 anos. Do Centro Hípico da ilha Terceira seguiram Filipa
Machado, Bárbara Brasil, Sara Martins, Beatriz Vieira, Benedita
Gonçalves, Francisco Simões e Mariana Simões.
O mérito pelas boas
classificações no torneio, deve-se, segundo o professor da academia
açoriana, não só ao empenho dos jovens, dos pais e da escola de
equitação em causa, mas também ao pónei, quarta raça autóctone de
Portugal desde janeiro do ano passado, que tem sido estrela nestes
encontros.
"As pessoas têm uma muito boa perceção dos animais, porque
eles têm tido um desempenho magnífico. Se quiséssemos tínhamos lá
deixado os cavalos todos", referiu.
Já a Taça de Portugal de Dressage
contou com a participação de João Nogueira e Francisca Lima, que
alcançaram os terceiro e quarto lugares na competição. "Foram provas
brilhantes, mesmo contra profissionais", sustentou o investigador
A caminho da seleção?
Dos desempenhos
terceirenses na Quinta da Beloura, tanto dos miúdos, como dos graúdos,
resultou um convite considerado, por Artur Machado, de extrema
relevância.
"Foi-nos dito pelo selecionador nacional que se fizermos a
prova internacional - que tenho a certeza que conseguiríamos passar -
poderemos integrar a seleção que vai participar no Campeonato Europeu de
Dressage", contou Artur Machado a DI.
Há, no entanto, dificuldades
que podem complicar a presença terceirense nas competições em causa. A
logística inerente às viagens e ao transporte dos animais é o maior
desses obstáculos.
"A logística é bastante complicada, mas mesmo
assim e graças ao trabalho que tem vindo a ser desenvolvido tem sido
possível integrar essas provas. Isto é o fruto de muito trabalho, muita
alegria, de muita vontade dos miúdos e dos pais, e também do Governo
Regional que nos dá algum apoio. É um grupo e cada umajuda como pode.
Vamos fazer todos os possíveis para fazer estas deslocações", avançou o
responsável que está ligado ao processo do reconhecimento do pónei da
Terceira.




Dar uso à raça
Segundo Artur Machado, a
importância destas competições, nomeadamente aquelas que são dedicadas
aos mais jovens, reside na relevância do desporto para as crianças. Por
outro lado, trata-se de uma montra muito útil para divulgar o pónei da
Terceira, que passou a ter, assim, novas funções.
"A 27 de janeiro
faz um ano que o pónei foi reconhecido como raça portuguesa. Já temos 62
animais no Registo Nacional de Equinos. Depois dessa etapa foi
necessário encontrar uma função para o animal e estamos a tentar
participar nessas provas todas", avançou.
Nas provas de dressage está
em causa a finura, a correção, a elegância e a perfeição do animal,
avaliadas em vários exercícios e por vários juízes. Está em causa,
ainda, a relação e o controlo sobre o animal.
"São animais fáceis de
dirigir e de ensinar e isso deve-se ao facto de estarem, há séculos, em
contacto com o Homem, para o servirem. Vê-se nos póneis da Terceira uma
vontade de agradar que é fruto duma seleção de séculos", sustentou.
De
facto, adiantou o especialista, o cavalo que é, também, a quarta raça
portuguesa, consegue, ao mesmo tempo, ser robusto e elegante; tanto pode
puxar carroças de leite, ajudar a sachar milho, fazer serviço de táxi e
percorrer a distância de Angra à Praia (como fazia), como pode mostrar
graciosidade nas competições.
É por isso que o pónei da Terceira é
procurado. Na verdade, o interesse é exponencialmente maior desde que o
animal foi reconhecido.
No ano passado, aliás, numa conferência de
imprensa na Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, onde se deu conta do
desfecho do processo de reconhecimento, Paulo Caetano Ferreira,
presidente da Associação de Criadores e Amigos do Pónei da Terceira,
dava conta do interesse europeu sobre a raça, salientando também a
importância económica dessa utilidade.
"Estes póneis têm valores
muito altos no mercado europeu. Quando for possível exportá-los,
vendê-los, com certeza se há-de fazer algum dinheiro aqui na Região",
dizia.
Ainda assim, e embora já tenham sido vendidos alguns
exemplares, Artur Machado refere que antes desse passo é preciso
proceder à consolidação genética da raça, fazendo os cruzamentos entre
diversas famílias independentes. O processo é moroso.
No total,
existirão cerca de 100 cavalos. Os próximos quatro anos serão de
continuação do trabalho de apuramento, de participação em provas e de
registo dos exemplares, segundo os critérios seguidos pela comissão
técnica responsável.
Utensílios perdidos
Antes desse futuro há um
percurso largo que pode ser contado, uma história que é documentada, por
exemplo, pelos registos fotográficos que Artur Machado vai amealhando.
Há
fotografias que demonstram a capacidade de trabalho do animal, mas
também a sua utilização em festejos como o Carnaval ou cortejos na
cidade. As imagens mostram ainda a paragem das carroças no Alto das
Covas, numa espécie de praça de táxis encabeçada pelos pequenos cavalos
da terra e por burros.
Apesar disso, e ainda que haja fotografias
para documentar a importância dos animais na vida ilhoa, foram-se
perdendo os utensílios ligados ao pónei, o que o investigador lamenta.