About

Mostrar mensagens com a etiqueta Opinião. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Opinião. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Toureiro Equestre, quo vadis?


As tradições, a arte, tudo o que nos rodeia, evolui. Se não o fazem, acabam por se ir perdendo no horizonte da memória. A tauromaquia não foge a este princípio. Há que evoluir, há que procurar novos motivos de interesse, mas também há algo que jamais se pode perder: as bases, a essência e os princípios. Tudo isto parece um pouco contraditório, mas é importante que se tenha consciência de que há uma fronteira muito ténue entre o que se entende por evolução e aquilo que é a transformação/desvirtuação. Serve esta pequena introdução para que se reflicta um pouco sobre o actual panorama do Toureio Equestre em Portugal.

Neste momento, e cada vez mais, é debatida a forma de atrair mais aficionados às praças de toiros, mediante a apresentação de cartéis aliciantes. O que é facto é que a chamada “nova geração” não tem tido o condão de arrastar multidões. O toureio nacional parece estar adormecido, faltando figuras que arrastem multidões. Ainda são os nomes da “geração de ouro” que chamam o público às bancadas (quando chamam!). Não há aqui qualquer tipo de saudosismo ou apologia do “antigamente”, mas a realidade é que não tem havido evolução que cative de forma verdadeira e com emoção, quem assiste. Cada vez mais assistimos a imitações. Imitações que pura e simplesmente descartam as já referidas bases e essência. Tudo ao abrigo de uma pretensa evolução que não passa de um desvirtuar das regras mais elementares. É claro que existem excepções e, ainda bem que as há! Mas o problema é mesmo esse: são excepções, não são a maioria.

Portugal assiste a uma espécie de “mais do mesmo”, com a agravante de esse “mesmo” estar esbatido. Há algumas décadas, assistiu-se à grande revolução do toureio equestre, facto tão badalado sempre que se fala em João Moura, seu autor. Houve realmente uma alteração de conceito, mas as bases sempre estiveram lá e foram respeitadas. Serviu esta acção do Cavaleiro de Monforte, para que também o toureio equestre evoluísse (e de que maneira) em Espanha. No entanto, agora deu-se uma espécie de efeito boomerang: muitos dos que por cá andam e vestem de casaca e tricórnio, parecem ter colocado de parte os fundamentos da Arte que elegeram, para se dedicarem ao que de menos verdadeiro vem do lado dos vizinhos Ibéricos. Há quem diga que é de facto uma questão de conceito. Talvez seja…

Tourear a cavalo não se resume à cravagem dos ferros. O momento da reunião, as sortes, aquela fracção de segundo interminável é o resultado máximo de toda uma série de momentos de preparação que são necessários e fundamentais. Exige-se a um Cavaleiro que saiba montar a cavalo. Não é possível alguém querer dominar o ímpeto e a investida de um toiro se não souber, antes de tudo, ligar-se à sua montada como se um fosse o prolongamento do corpo do outro. Hoje assiste-se a uma equitação pior, apesar de existirem cavalos cada vez melhores e com mais ferramentas. Hoje já ninguém vai buscar uma montada que anteriormente andou na lavoura, preso a um sacho. Hoje todos sabem a linhagem das suas montadas e escolhem-nas por isso. Curiosamente, os cavaleiros ditos “classicistas”, são aqueles que melhor equitação demonstram. São aqueles que de facto parecem um centauro em praça, mostrando uma união e um domínio tal com a montada, ao ponto de nem marcas de esporas se verem no final das lides.

Aliado a uma equitação mais deficitária, vem todo o resto. E quando acima referia que a cravagem do ferro é o resultado de toda uma preparação, também me referia à interpretação do comportamento do toiro. Há que observar o oponente, há que prová-lo com a montada, há que perceber quais os seus terrenos, há que mexer com o toiro e dar-lhe a lide adequada, não a que vem decorada de casa. Muitos destes aspectos têm-se perdido, parecendo que já muito poucos lidam. Talvez uma das razões para que isto aconteça, seja a escolha de encastes que, hoje em dia, já é regra para muitos. São poucos os que enfrentam qualquer encaste. Já quase não existem Cavaleiros que se formam para enfrentar qualquer toiro. Agora são formados toiros que sejam capazes de enfrentar qualquer Cavaleiro. Nem vale a pena estar a amaldiçoar o encaste Murube, tão de eleição dos Cavaleiros actuais. Os toiros-telecomandados e quase “costum-made”. Mas é maioritariamente com esses que se assiste ao que tem proliferado nas praças nacionais.

As lides (quando existem, na verdadeira acessão da palavra) são cada vez mais acessórias. Não se brega, não se escolhem bem os terrenos. Interessam sim, os adornos (muitos!), os números circenses do cavalinho. As sortes não são preparadas, interessando apenas cravar, de preferência com um câmbio gigante na cara de um toiro com pouco andamento, deixando o ferro quando o oponente já está quase para além da garupa. Rematar a sorte? Muito poucos sabem o que é! Assim se toureia… o público (todos nós!) … e o público gosta! O Cavaleiro explode de emoção e todos aplaudem uma obra distorcida. Deixou de ser a acção na arena a transmitir emoção, para ser o Cavaleiro com a sua euforia e exuberância de festejos a procurar transmiti-la à assistência. O público gosta…. Pois! Mas, depois de assistirem a duas ou três corridas em que tudo é igual, em que tudo está formatado e já se sabe ao que se vai, esse mesmo público começa a querer ver e sentir a verdadeira emoção. Se não a encontra, se não a consegue renovar, procura outro tipo de fonte e abandona as bancadas das praças de toiros.

É no toureio fundamental, na preparação das lides, no cravar ao estribo vencendo o piton, no enfrentar toiros de verdade que mostrem perigo, que está a “galinha dos ovos de oiro”. Sempre ali esteve, não são necessários outros artefactos. Há que evoluir, mas há que perceber que a verdadeira emoção, é aquela que resulta na transformação do verdadeiro perigo em momentos sublimes de arte. A verdadeira emoção é a que resulta da fusão do conhecimento e capacidade de entendimento Cavaleiro/Cavalo com o ímpeto bravio do toiro. São estes momentos de pura imprevisibilidade que fazem com que as pessoas queiram assistir a momentos irrepetíveis de forma repetida, sentindo a emoção e verdade que o toureiro a cavalo deve transmitir.

Bruno Bettencourt
Foto: Paulo Gil

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

O Jubilado, os Doutores, o Caloiro e o Emérito – Corrida das Festas da Praia 2018


A veterania e o peso da experiência podem manifestar-se de formas completamente opostas. A Corrida das Festas da Praia foi cenário da materialização desta premissa, numa tarde/noite de praça cheia. Melhor o veterano de jaqueta enramada, pior o de casaca azul e ouro.

Ganadarias de Rego Botelho e Passanha para João Moura, Tiago Pamplona, João Ribeiro Telles e Manuel Sousa (amador). Pegas a cargo dos Grupos de Forcados Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense (GFATTT), do Ramo Grande (GFARG) e de Beja (GFAB).

João Moura abriu praça e foi homenageado pelo 40º aniversário da sua alternativa. Momento emotivo onde se ouviu, no sistema de som da praça, uma resenha dos seus feitos enquanto figura mundial do toureio. Teve por diante um exemplar RB (nº95, 510Kg) de boa apresentação, mas escasso de força e que se foi defendendo. O Mestre de Monforte, não o foi. Mostrou o entendimento que a já referida veterania e o peso da experiência conferem, estando correcto nas cravagens, mas apenas isso. Rubricou uma não-lide desluzida e sem história, onde se limitou a cravar. Com o exemplar Passanha (nº83, 555Kg) o Maestro não mudou de tom. O toiro carregava pouco, mas merecia outra lide, que o alegrasse e o fizesse romper. Nesta passagem pela ilha Terceira, Moura foi a antítese da razão pela qual se tornou símbolo e revolucionário do toureio equestre mundial. Duas lides sem lidar, sem explanar toureio. O seu toureio de magia parece ter sido jubilado há algum tempo.

Era pequenote o lote de Tiago Pamplona, quer em tamanho como em comportamento. O Cavaleiro angrense andou por cima de ambos. O seu primeiro RB (nº87, 488Kg) deu boa réplica, apesar de por vezes se parar na reunião. Pamplona entregou-se como é seu hábito e agarrou o público. Mostrou-se e mostrou que nem a geografia é impedimento para, em termos de qualidade, se andar no patamar superior da cavalaria nacional. Correctíssimo nas bregas e nas escolhas de terreno, apesar de alguns momentos de irregularidade nos tempos e nas medidas dos quarteios. O RB (nº5, 436Kg), segundo do lote, mostrou-se impetuoso na saída mas cedo perdeu o gás, parando-se e enquerençando nos terrenos dos tércios. O Cavaleiro deu-lhe a volta e com uma boa lide foi tapando os defeitos do oponente ao mexer-lhe com os terrenos. Corrigiu-se e andou correctíssimo nas abordagens, saindo em plano superior. Destaque para o ferro curto com que encerrou a lide: de alto a baixo, ao estribo e em zona de compromisso, a levar ao rubro a assistência.

A João Ribeiro Telles havia de calhar o lote mais desluzido em termos de comportamento. O RB (nº96, 466Kg) era manso e, como tal, virava a cara à luta desligando-se desde cedo. Mas, como se costuma dizer, são estas as situações ideias para se perceber a qualidade de um toureiro. João Telles tem-na e mostrou-a! Cadenciou a sua prestação e, tempo após tempo, foi mostrando a sua entrega e saber. Deu vantagens ao oponente, bregou-o na medida certa e foi contornando todas as dificuldades impostas pelo mansote. Lide inteligente onde mostrou o porquê de ser uma das figuras da nova geração. O Passanha (nº64, 498kg) que lhe coube em sorte parecia ter problemas de visão. O Cavaleiro conduziu-o com a voz e o toiro foi-se entregando. Telles rompeu para o triunfo com uma lide em crescendo que fez eco nas bancadas. Esteve variado nas sortes, agarrando em definitivo a assistência. A destacar o terceiro ferro curto, pleno de emoção e executado como mandam as verdadeiras regras do toureio equestre.

O Cavaleiro luso-americano Manuel Sousa prestou prova para Cavaleiro Praticante diante do “Tordo” (RB, nº10, 441Kg), perfilando-se como o caloiro entre um consagrado e dois dos Doutores da arte equestre nacional. É notória a vontade do Cavaleiro, mas também o é o facto de acusar o nervosismo e, com isso, expor a sua pouca experiência. É um Cavaleiro jovem e com uma larga margem de progressão (assim lhe transmitam bons conhecimentos) no entanto, ainda está aquém do exigido para o que se quer de um Cavaleiro Praticante. Ficam na retina as duas cravagens com que encerrou a lide, nas quais mostrou mais discernimento e vontade de arriscar.

Um dos grandes momentos do espectáculo havia sido antevisto no cartaz da corrida: a despedida do incontornável Américo Cunha, o forcado que prova que os homens não se medem aos palmos. Após 35 anos em que representou 3 grupos de forcados, com a sua forma peculiar de estar na arena, decidiu retirar-se e fê-lo de forma magistral ao serviço do GFARG. Mostrou o que de melhor a veterania e o peso da experiência conferem. Chamou o segundo toiro da corrida e ao primeiro intento fechou-se de forma correctíssima aguentando um derrote por alto e não mais largando. A pega da tarde a levantar as bancadas numa ovação explosiva. Américo Cunha passou assim a emérito. Uma palavra para o grande desempenho do primeiro ajuda, Vítor Enes, que foi fulcral no desfecho da mesma. A noite não esteve de feição para os forcados. Ora pelo comportamento dos toiros, ora por falta de grupo nas ajudas ou por culpa dos forcados da cara, muitas foram as tentativas. Pelo GFATTT estiveram em praça Luís Cunha que consumou à terceira com ajudas carregadas, Tomás Ortins que à primeira se fechou numa boa e correcta pega e Luís Sousa que à terceira fez uso das ajudas carregadas para consumar. Pelo GFARG, além do já mencionado Américo Cunha, esteve em praça Rui Dinis que aguentou uma investida ensarilhada e se fechou à primeira. O GFAB apresentou-se com Bento Costa que resolveu à terceira, já com as ajudas em cima, e Luís Eugénio que a sesgo e à quarta tentativa se fechou na cara do toiro.

Antes do início das cortesias, realizou-se um respeitoso minuto de silêncio em memória do ganadero Filipe Humberto Sousa (Humberto Filipe), figura emblemática da tauromaquia terceirense, recentemente falecido.

O espectáculo foi dirigido por Rogério Silva que esteve díspar quanto aos critérios de atribuição de música às lides. A assessoria veterinária esteve a cargo de Vielmino Ventura.

Abrilhantou (e bem!) a banda da Associação Filarmónica Cultural e Recreativa Santa Bárbara, da Fonte do Bastardo.

Bruno Bettencourt
Foto: Paulo Gil

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Escribano escreveu com pena de ouro – 4ª da Feira de São João 2018


Espectáculo de encerramento da edição de 2018 da Feira de São João. Anunciados os nomes de Vitor Ribeiro, Manuel Escribano e Jesús Enrique Colombo. Um cartel misto para enfrentar um curro da divisa verde rubra da Casa Agrícola José Albino Fernandes. Para as pegas perfilaram-se os homens do Grupo de Forcados Amadores do Ramo Grande.

A tarde abriu com o exemplar nº3 (528Kg). O toiro foi-se defendendo e andou um pouco desligado parecendo, por vezes, ter dificuldades de visão. Vítor Ribeiro foi palmilhando terreno através de uma lide de entrega, procurando compensar as dificuldades impostas por um oponente desinteressado. Bem nas cravagens, andando sempre acoplado e a interessar o toiro. O nº18 (450Kg) trazia melhores modos. Apesar de andarilho entregou-se, mas começou a defender-se no final, mercê de alguma dificuldade adquirida na mão esquerda. O Cavaleiro da Caparica esteve em plano de triunfo. Explanou o seu toureio de forma correcta, andou bem nas bregas e cravou de praça a praça, dando todas as vantagens ao toiro. Destaque para o 3º ferro curto de alto nível.

O Matador Manuel Escribano mostrou ofício e saber diante do nº28 (518Kg). O utrero teve uma saída fulgurante, levantando um dos burladeros. Apesar de por vezes sair solto dos lances, metia bem a cara e acorria aos cites. O toureiro sacou-lhe tudo o que tinha. Andou sortido com o capote, partilhando depois o tércio de bandarilhas com Colombo. Iniciou com uma boa série de Naturais, provando-o de igual modo pelo lado direito. Sacou assim séries de recorte artístico e com boa ligação. O quinto da tarde (nº32, 426Kg) haveria de dar confirmação ao ditado, tendo sido o exemplar com melhor jogo. Codicioso na investida e a mostrar algum recorrido. Escribano recebeu-o com uma larga de joelhos para depois seguir por Verónicas, Chicuelinas e Calaserinas. Com as bandarilhas esteve irrepreensível, fazendo-se chegar à assistência. Já com a muleta, esteve triunfal. Aproveitou o exemplar que tinha por diante, baixou a mão e desenhou séries de naturais com muita profundidade. Também por Derechazos seguiu transmitindo emoção, arrimando-se e mostrando os bons modos que tem dentro e o bom matador que é. Encerrou com Manoletinas bem cingidas.

Jesús Enrique Colombo teve tarde agridoce. O primeiro do seu lote partiu uma haste e teve que ser recolhido, tendo de lidar o sobrero (nº24, 454Kg). Apesar de pequeno e escorrido de carnes, deu muito boa réplica, investindo do início ao fim. Recebeu-o com larga de joelhos e depois lanceou por Verónicas e Navarras rematadas com manguerazo de Villalta. Repartiu com Escribano o tércio de bandarilhas. Com a muleta mostrou-se artista e um Matador de recursos, evidenciando o porquê de ser promessa. Esteve sempre ligado com o público, trastejando por ambos os lados. Destaque para uma das suas séries de Naturais, plena de temple. Recebeu o seu segundo (nº23, 513Kg) com Verónicas e Chicuelinas muito cingidas. Nas bandarilhas mostrou desacerto. O hastado ia investindo de pronto, até que partiu um dos pitons depois de embater num pilar da trincheira, tendo de ser recolhido interrompendo assim a lide.

Para as pegas esteve em praça Manuel Pires que, depois do toiro lhe ter metido a cara alta ao primeiro intento, fechou-se numa grande pega à segunda, a mostrar uns braços enormes e aguentando-se na cara do toiro com a raça que lhe é característica. Daniel Brasil pegou à primeira executando uma boa pega onde foi muito bem ajudado pelo grupo.

A direcção da corrida esteve a cargo de Rogério Silva, assessorado pelo médico veterinário José Paulo Lima. Abrilhantou a Banda da Sociedade Filarmónica União Católica da Serra da Ribeirinha.

Bruno Bettencourt
Foto: Fernando Pavão

sábado, 30 de junho de 2018

Sousa, Gaspar, Moura e Tertúlia Terceirense – 3ª Corrida da Feira de São João


Concurso de ganadarias em Angra do Heroísmo é sinónimo de praça cheia até às bandeiras. Na disputa estiveram as divisas de Rego Botelho (RB), Casa Agrícola José Albino Fernandes (JAF), Ascensão Vaz (AV), Falé Filipe (FF), João Gaspar (JG) e Francisco Sousa (FS). Vítor Ribeiro, João Moura Jr. e João Pamplona na discussão para a melhor lide a cavalo. Os Grupos de Forcados Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense e de Merced (Califórnia), que debutava em Portugal, na contenda para melhor grupo em praça. Antes do inicio das lides, minuto de silêncio pelo falecimento de José Valadão, antigo director de corridas.

Vitor Ribeiro regressou às lides e mostrou o porquê de ser um Cavaleiro tido em boa conta pela afición terceirense. Teve pela frente um exemplar RB (nº88, 584Kg) com trapio que se mostrou voluntarioso sem complicar. Assistiu-se a uma boa lide onde tirou partido das condições do toiro, andando criterioso na escolha dos terrenos e executando viagens e quarteios na medida certa. O toiro FF (nº28, 509Kg) apesar de ter cumprido, foi a menos, parando-se no final da lide. Aqui esteve novamente correcto, mostrando os recursos que lhe advêm de uma boa monta e de toda a sua experiência sem, no entanto, romper para plano de triunfo.

Para João Moura Jr. havia de sair o mais pesado da corrida (JAF, nº12, 626Kg), um toirão de encher o olho, mas após algumas voltas de reconhecimento à arena, verificou-se que estava diminuído em termos de locomoção e foi recolhido. Saiu o sobrero (JAF, nº14, 536Kg), mais pequeno, mas bem rematado e que em termos de comportamento foi-se defendendo nos tércios com o decorrer da lide. Moura Jr. assinou uma lide alegre, mas limitada, em parte, pelas condições do touro. Mexeu-lhe os terrenos conseguindo algum brilho nas sortes. O segundo do lote vinha marcado com JG (nº37, 547Kg), muito em tipo do encaste da ganadaria, não só de morfologia como de comportamento. Prestou-se à função com nobreza e galope cadenciado, apesar de alguma distração. O Cavaleiro das Arengozinhas foi desenhando uma lide em crescendo de emoção, com ferros de boa nota, adornando-se nas bregas e a chegar de sobremaneira às bancadas através de remates vistosos com piruetas. Uma lide triunfal a fazer esquecer as suas anteriores prestações nesta edição da Feira de S. João.

João Pamplona mostrou os seus predicados e a razão pela qual foi o triunfador da edição do ano passado. O exemplar AV (nº106, 504Kg) cedo enquerençou nos tércios, junto à porta de quadrilhas. O marialva do Posto Santo esteve a bom nível, chegando às bancadas e conseguindo contornar as dificuldades impostas pelo toiro. A cada viagem foi pisando cada vez mais terrenos de compromisso, finalizando com dois grandes ferros. A fechar, havia de lidar o “Predigoto” (FS, nº14, 426Kg), baixo, mas bem rematado. O que lhe faltou em tamanho, foi compensado pela bravura. Investiu com codícia do inicio ao fim da lide, acorrendo sempre de pronto a cada cite. O Cavaleiro tirou partido do toiro que tinha pela frente e conseguiu romper para um plano superior, estando a muito bom nível numa lide de ligação com o público, transmitindo emoção através de bregas e sortes cingidas.

Pelos Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense abriu praça João Silva que, à segunda e após ter sido maltratado ao primeiro intento, se fechou numa pega dura. Tomás Ortins mostrou toda a sua valentia e saber numa grande pega à primeira em que após sofrer violento derrote e ser projectado para fora da cara do touro, consegue fechar-se em pleno voo com muito querer. Hugo Jesus, despediu-se das arenas com uma boa pega sendo ajudado de forma muito correcta. Os Amadores de Merced marcaram a sua estreia através do cabo João Azevedo que se fechou num embate duro à segunda, após lhe ter faltado grupo para consumar ao primeiro intento. António Oliveira fechou-se bem à primeira, aguentando longa viagem na cara do toiro antes que o grupo se fechasse. A fechar, António Melo aguentou um derrote consumando à primeira.

E porque se tratava de um concurso, o júri cuja constituição foi anunciada no início da corrida, deliberou:
- Melhor Lide: João Moura Jr. (lide efectuada ao quinto da tarde)
- Melhor Grupo de Forcados: GFA Tertúlia Tauromáquica Terceirense (pelo desempenho na pega de Tomás Ortins)
- Melhor apresentação: “Veludo” de João Gaspar, n33, 547Kg, lidado em quinto lugar
- Melhor Toiro: “Predigoto” de Francisco Sousa, nº14, 426Kg, lidado em sexto lugar

A corrida foi dirigida por Mário Martins que foi assessorado pelo médico veterinário Vielmino Ventura. Abrilhantou a Banda Filarmónica Chino Valley Divino Espírito Santo Club.

Bruno Bettencourt
Foto: André Pimentel

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Muito tourei(r)o para pouco touro – 2ª da Feira de S. João


Quando a fonte é escassa, a sede nunca ficará saciada por completo. Assim espelhou a tarde/noite que recebeu o anunciado “Grandioso Espectáculo” integrado na Feira de São João de 2018. Daniel Luque, Tomás Campos e Roca Rey. Cartel sonante para as lides de um curro de utreros de Rego Botelho. Sentia-se a espectativa de quem queria assistir ao vivo aos desempenhos, especialmente de Rey, a nova coqueluche do toureio mundial. Cerca de três quartos de praça ansiavam e as quadrilhas teimaram em permanecer no pátio. Ao terceiro aviso lá se vislumbraram os intervenientes em plena arena da Monumental “Ilha Terceira”.

Daniel Luque regressou a Angra do Heroísmo e abriu praça diante de um exemplar (nº98, 516Kg) brusco e com meias investida, que metia a cara por alto. Lide com pouca história onde sobressaiu a vontade e capacidade de entrega do Matador, que usou de todos os recursos para sacar água de um poço vazio. Com o segundo do seu lote (nº13, 460Kg), ainda conseguiu algum luzimento toureando pela direita. No entanto, a cada passagem pela flanela, o novilho foi perdendo o ímpeto inicial.

Tomás Campos mostrou entrega, procurando explanar um pouco da sua arte diante de um exemplar (nº12, 496Kg) com investidas incertas e que ora se desligava, ora procurava o vulto. Ainda assim conseguiu sacar uma boa série de Derechazos com alguma ligação. Destaque para o primeiro par de bandarilhas cravado por João Pedro Silva. Diante do quinto da noite (nº15, 454Kg), voltou a assistir-se a uma lide de insistência, novamente diante de um adversário que foi perdendo capacidades até rachar. Apesar de toda a entrega, terá prolongado em demasia a lide. Ficaram na retina algumas Chicuelinas que tiveram que ser abreviadas.

Era em Roca Rey que caía a maior expectativa, mas como também foi referido no início, quando a fonte é escassa… E escassos foram igualmente os exemplares do seu lote. O seu primeiro (nº18, 455Kg), pareceu querer entregar-se, mas ao fim de algumas viagens, foi-se deixando ficar em curto. Nota de realce para duas séries, por ambos os lados, com profundidade e temple. Por momentos teve a capacidade de disfarçar os defeitos do produto da divisa azul e branca. Deu volta à arena, que terá sido um pouco forçada. Encerrou a corrida diante do utrero mais volumoso (nº3, 534Kg). Iniciou por Verónicas e cingidas Chicuelinas rematadas com vistoso Manguerazo de Villalta. A lide prometia, pelo galope demonstrado a início pelo “Macendado”. Foi de pouca dura. Logo igualou os irmãos de camada. Algumas séries pela direita e Naturais sem grande expressão a encerrar a contenda.

Mário Martins foi o director de corrida, sendo assessorado pelo médico veterinário Vielmino Ventura. Abrilhantou, a Banda da Sociedade Filarmónica Recreio de Santa Bárbara. Voltando ao que referi aquando da crónica da primeira corrida: assim sim! Muito boa interpretação musical, efectuada num volume adequado à circunstância.

Bruno Bettencourt
Foto: André Pimentel

sexta-feira, 6 de maio de 2016

A respeito do Espectáculo de Beneficência...


Estava à espera de ver em que ia (ou vai) dar tanta confusão. Como é que alegam "[...] descuido, desatenção [...]"? Como é que se dá a "cara" e depois se desautoriza o Núcleo Regional nas redes sociais? Não falam internamente? A Liga Portuguesa Contra o Cancro não querer o nome associado a um evento taurino, é perfeitamente legítimo. O que não faz sentido é mudarem as coisas a meio do jogo. Não acredito que o Núcleo Regional não lhes tenha dado conhecimento.

As pressões do um mundo que caminha cada vez mais para a esterilização e plastificação de pensamentos e atitudes encarregaram-se de conduzir o rumo da situação. 
As verbas do evento estavam (ou serão) destinadas a uma bolsa de investigação em oncologia. Gostava de saber se há algum doente oncológico, ou familiar de doente, que rejeitaria os resultados da investigação que fosse financiada com essa verba, porque a mesma teria tido origem num espectáculo tauromáquico!

Não está aqui em causa a realização ou não de uma manifestação taurina. Estes eventos continuarão a acontecer, quer se queira quer não. Cada um é “dono” da sua sensibilidade e não pode transformá-la em extremismo procurando aniquilar a dos outros.
O que está aqui em causa é a rejeição de uma verba que se destinaria (ou destinará) a apoiar a luta e o conhecimento contra um dos maiores problemas de saúde da sociedade: o Cancro. Pior é quando esta verba é rejeitada por quem supostamente deveria estar na linha da frente do combate.

Bruno Bettencourt

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Bravura. Ontem ou hoje?

Em tauromaquia, falar ou procurar definir “bravura” tende a ser um assunto fracturante. Quando se procura fazê-lo ao nível da Tourada à Corda, as diferenças de opinião alargam-se ainda mais. É comum ouvir-se que “antigamente é que existiam touros bons!” Será que sim!? Atrevo-me a dizer que sempre existiram toiros “bons” e toiros “maus”. A genética tem destas maravilhas: nem sempre é possível controlar um punhado de genes, principalmente quando se fala na selecção do Toiro Bravo (aqui o Bravo refere-se a raça, porque sim, Bravos são todos desde a nascença).

Apesar de muitas das actuais ganadarias existentes na ilha Terceira partilharem uma mesma proveniência (em maior ou menor grau), é um facto que o passar dos anos trouxe mais conhecimento, maiores cuidados com a selecção de gado bravo e algumas “experiências com castas exóticas”. Tudo isto resultou numa maior ou menor alteração do ponto de vista morfológico. Ao nível do comportamento poder-se-á dizer que alguma da “aspereza” que costuma ser atribuída ao chamado “gado da terra” foi sendo arredondada por influência de outras castas. Tudo isto é válido, mas é preciso não esquecer um aspecto fundamental que se torna ainda mais relevante na Tourada à Corda: a imprevisibilidade do ambiente em que o toiro estará inserido. Por melhor que seja feita a selecção, tudo o que se possa passar num arraial não é controlável, ao contrário do que acontece na arena de uma Praça de Toiros. Por melhor que seja a predisposição genética, a sua manifestação irá ser condicionada pelos factores ambientais. O Toiro Bravo não é excepção. Um parêntese para dizer que a palavra “ambiental” se refere a todas as influências externas a que o animal estará sujeito ao longo da vida.

Passemos então a considerar esses factores. Como já foi referido, o passar dos anos trouxe mais conhecimento e com ele o progresso. A Tourada à Corda é uma manifestação de rua que se passa precisamente: na Rua. Aqui chegamos a um dos principais factores: o asfalto! Há que ter em conta que a locomoção dos animais é condicionada pela melhoria das nossas redes viárias. Quando o piso das mesmas era mais solto e mais suave, os desempenhos eram outros e o dito “andamento dos toiros” era mais do agrado de quem assistia, não se defendiam tanto.

A Tourada à Corda é uma manifestação do povo, para o povo. Pois é (e ainda bem que o é)! E do povo surgem os Capinhas, elementos essenciais da festa! Felizmente nos últimos anos tem-se verificado que os mesmos estão mais conscientes do espaço do toiro e não o “afogam” tanto. Ainda assim, o crescente número de corajosos, ao contrário do que se passava “no antigamente” que tantos gostam de exaltar, faz com que a tarefa do toiro seja mais dificultada. A “fama” de um toiro ou de um arraial é directamente proporcional ao número de Capinhas que lá estão. Por mais bravura que o toiro possa ter, não a consegue mostrar em pleno, quando tem uma multidão “em cima da cabeça”. Estes dois aspectos, aliados a muitos outros, fazem com que o cenário onde os toiros evoluem se tenha alterado. Desta forma não é possível comparar o que existia com o que existe actualmente. Ainda assim, e sob o risco da contradição, arrisco a dizer que hoje sim existem toiros bravos. Se são capazes de enfrentar os factores ambientais e deixar transparecer a sua bravura, então sim, hoje é que temos toiros bravos.

Não quero com estas últimas afirmações subestimar ou diminuir toda a história que a Tourada à Corda transporta. Há também o outro lado da moeda. A quase banalização deste tipo de espectáculo tem prejudicado a qualidade daquilo a que se assiste nos arraiais. Como já afirmei noutras ocasiões, o amor pelos toiros, sentido pelos terceirenses, e a ligação ao meio agrícola, trouxe a desvantagem de fazer proliferar o número de criadores, em demasia. Muitos dos quais possuem toiros de menor qualidade rejeitados por outros criadores. Em alguns destes exemplos, os anos trouxeram regressão. Cria-se o toiro porque se gosta, mas esquece-se de aliar o conhecimento a esse gosto.

Tudo isto está associado à valorização da forma cultural mais participada na ilha Terceira: a Tourada à Corda. É a simbiose toiro-homem que está na sua essência, por isso mesmo, ao contrário do que algumas vozes pretendem afirmar, não podemos olhar só para o elemento homem. Não é possível querer que, enquanto o povo se divertir que se aumentem as Touradas à Corda. É uma simbiose. Se esquecermos o outro aspeto fundamental: o Toiro, essa mesma simbiose deixa de existir, perdendo assim o seu significado.

Bruno Bettencourt
Foto: Samuel Fagundes

domingo, 1 de junho de 2014

Promover e não banalizar - Touradas à Corda

O mundo de hoje é cada vez mais estilizado, fruto de uma globalização que reina com poder ascendente sobre a sociedade. Já nem as fronteiras físicas são importantes. Parece ter-se perdido a noção de que, é a diversidade que permite a unicidade da sociedade em que vivemos. A frase parece contraditória, mas se pensarmos, é o “diferente” que desperta a atenção dos povos e os faz querer conhecer os “vizinhos” e os seus costumes. Quando tudo é igual, fruto dessa globalização, deixa de ter interesse a cultura dos outros. Deixa de o ter porque, simplesmente é aniquilada e deixa de ser um factor diferenciador.
 
Se nos focarmos na tradição cultural, propriamente dita, esta corre também o risco de ser ferida de morte por aqueles que a vivem e querem manter. Não é possível defendermos aquilo que é nosso, contra as “invasões exteriores de cabeças iluminadas e donas da verdade”, quando nós próprios, os verdadeiros guardiões, usamos gasolina para apagar os fogos resultantes de tais acções externas.
 
Não é aumentando o número de eventos que os vamos preservar. Quantidade não é necessariamente sinónimo de vitalidade e qualidade. Não é afirmando: “interessa é que o povo se divirta e faça as que lhe apetecer”, que vamos solidificar uma manifestação cultural. É necessário promover, mas não banalizar. Há que cultivar, só assim se terá cultura. Se não percebemos nem sabemos qual a verdadeira razão da existência de determinada manifestação, não a podemos defender. Só percebendo e sabendo os “porquês”, poderemos respeitar o contexto sociocultural em que estamos inseridos. É este cultivo que permite criar anticorpos, de forma a serem debatidas e rejeitadas todas as ideias absolutistas, e desprovidas de conceito cultural, que o mundo e as mentes globalizadas, procuram fazer imperar. Por outro lado, num momento em que proliferam comentadores e “fazedores de opinião”, aquilo que muitas das vezes afirmam em defesa de uma manifestação, pode ter precisamente o efeito oposto.
 
As manifestações populares são isso mesmo: feitas pelo povo e para o povo! É esta a sua grande virtude. No entanto não podem ser uma espécie de “ópio do povo”. Este mesmo povo tem que as dominar, controlar e defender. Não se pode deixar entorpecer e ir seguindo na maré, de forma apática.
 
São estes pensamentos e uma espécie de “renovação de consciências” que devem estar presentes na mente de cada Terceirense, de cada Açoriano. São estas preocupações que devem andar, lado a lado, com a preocupação em relação a que géneros de comida se irão colocar na mesa no dia 1 de Maio. Como se irão receber os amigos? Quais os toiros que virão do mato? A que horas os vamos buscar? Já foi dito uma vez que Festa não é só diversão, dá trabalho fazer uma festa. Só assim se terá com certeza uma grande Tourada à Corda!
 
Bruno Bettencourt

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Quando a prata da casa vale ouro...

Tarde de calor intenso, praça cheia até às bandeiras, dia de Concurso de Ganadarias, dia de Festa. Uma vez mais, as Festas da Praia da Vitória contaram com uma Corrida integrada no seu programa.
 
Rego Botelho, Casa Agrícola José Albino Fernandes e João Gaspar, foram as três divisas que apresentaram exemplares com o intuito de vencer os prémios de Melhor Toiro e Melhor Apresentação. Rui Salvador, Luís Rouxinol e Rui Lopes perfilaram-se para a disputa do troféu de Melhor Lide. Em discussão também esteve o prémio para Melhor Pega. Para tal, saltaram a trincheira os Grupos de Forcados Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense (GFATTT), Aposento de Turlock (GFAT) e Ramo Grande (GFARG).
 
O curro vinha bem apresentado na sua globalidade. A destacar o primeiro da ordem, nº87, “Despuntado” de RB (460Kg) e o quarto da ordem, nº145 “Arpado II” de JG (470Kg). Em termos de comportamento há a assinalar a prestação do quarto da ordem, já referido, e do quinto toiro, nº144 “Laranjo” de JG (460 Kg).
 
Rui Salvador teve pela frente o pior e o melhor toiro da corrida. Se frente ao “Despuntado” (nº87, RB, 460Kg) desenhou uma lide de muito trabalho em que andou bem nas bregas a procurar interessar um toiro que cedo se revelou manso, no segundo do seu lote nunca conseguiu andar por cima do oponente. Um constante desentendimento com as montadas não permitiu que o cavaleiro de Tomar tivesse uma lide adequada. O “Arpado II” (nº145, JG, 470Kg) tinha boas condições de lide. Muito mais havia para se fazer. A presença de Salvador foi pautada por uma velocidade excessiva nas viagens. As sortes quase sempre resultaram aliviadas ou com toques sucessivos nas montadas. Fica a nota positiva para os dois primeiros ferros curtos cravados no seu segundo toiro. Resultou sem história a passagem deste cavaleiro por quem a afición terceirense nutre simpatia.
 
Luís Rouxinol lidou o seu primeiro toiro de forma regular. O “Sincero” (nº332, JAF, 540Kg) colaborou, mas tinha pouca sinceridade na investida. Era um toiro alto que derrotava por cima. Quase no final da lide o toiro mostrou-se “tocado” no membro anterior esquerdo. Ainda se ouviu o toque para recolher, mas depois o problema físico pareceu ter-se solucionado. O cavaleiro de Pegões andou diligente sem comprometer. No segundo do seu lote, Rouxinol foi lidando em crescendo. Recebeu o toiro com o “Zézito”, um dos craques da quadra, nascido precisamente na ilha Terceira. O toiro, o “Laranjo” (nº144, JG, 460Kg), mostrou-se colaborante. O cavaleiro mostrou que queria o triunfo e procurou galvanizar a assistência. Nota para o falhanço na cravagem do terceiro ferro curto que quase levou o marialva ao chão. Encerrou com um bom ferro de palmo e um par de bandarilhas que levantou as bancadas. Alguns dos erros cometidos durante a lide foram sendo tapados pelo recurso ao “truque do cavalinho”. Foram muitos os adornos desnecessários. Por vezes deu mais importância a “tourear o público”, forçando a montada a ajoelhar-se, do que propriamente a encontrar soluções de lide.
 
O mês de Agosto é o ponto alto da temporada taurina nacional e isso reflete-se na disponibilidade das montadas que os cavaleiros procuram enviar para os Açores. A falta de experiência e de entendimento de alguns dos cavalos das quadras de Salvador e Rouxinol foi evidente.
 
Rui Lopes também mostrou que queria triunfar, não se deixando intimidar pela presença de dois grandes vultos do toureio equestre. A sua primeira lide, frente ao “Sabatinho” (nº314, JAF, 440Kg), foi traçada de forma serena e inteligente. O toiro saía para fazer mal e parava-se no momento da reunião. Lopes esteve bem nas bregas e foi mostrando entendimento em relação às dificuldades que tinha pela frente. Após duas passagens em falso, cravou um grande ferro curto a abrir a segunda parte da lide. Foi tapando os defeitos do oponente, mudou-lhe a posição e foi cravando sempre em terrenos de compromisso. Rubricou uma boa lide. Na sua segunda saída à arena, mostrou novamente que não queria ir para casa de mãos a abanar. Mandou recolher a quadrilha e esperou o toiro no centro da arena. Após uma primeira brega correcta, o “Candiante” (nº5, RB, 500Kg), que vinha com muita pata, foi direito à montada colhendo-a de forma violenta. O cavaleiro conseguiu controlar o cavalo e apesar da insistência do toiro, não houve queda. Após o percalço, o ginete da Ribeirinha demonstrou serenidade, pelo menos aparente. Lidou um oponente que se adiantava de sobremaneira aquando das reuniões, não conseguindo evitar os toques na montada.
 
O GFATTT abriu praça, no que às pegas diz respeito. José Vicente fechou-se na cara do toiro com uma técnica irrepreensível, ao primeiro intento. O quarto da ordem foi pegado à segunda tentativa por João Ângelo que realizou uma boa pega. Na primeira tentativa saiu da cara em resultado dos derrotes sofridos.
 
O GFAT deslocou-se à ilha Terceira para uma actuação que resultou pouco feliz. Júnior Machado pegou o segundo da tarde à terceira tentativa. Após ter sofrido duros derrotes por alto, em que o toiro foi varrendo o grupo, e após algum desacerto na colocação do hastado, o grupo lá resolveu. Nota negativa para o facto de estarem cerca de quinze forcados a ajudar na consumação da pega, incluindo 3 membros de outro grupo em competição. Há toiros que não é possível pegar, mas a partir do momento que um grupo decide consumar, serão oito e apenas oito os homens que o deverão fazer. De outra forma não! Darren Mountain pegou o quinto toiro da corrida ao primeiro intento. A pega resultou sem brilho muito por culpa do primeiro ajuda, e restante grupo, que de forma inexplicada foram encurtando as distâncias à medida que o forcado da cara ia chamando o toiro. Quando o toiro se encaminhou para o forcado, já este tinha todo o grupo em cima das costas.
 
Luís Valadão do GFARG pegou à segunda, o terceiro da ordem, numa boa pega. A consumação da pega à primeira não aconteceu por mera falta de confiança do homem da cara. Manuel Pires fechou a corrida com uma rija pega à segunda. Aguentou-se com valentia e suportou uma longa viagem em que o toiro trouxe sempre a cabeça por baixo, arrastando-o e fugindo ao grupo
 
Abrilhantou a corrida a banda Filarmónica da Sociedade Progresso Lajense.
A dirigir esteve Carlos João Ávila assessorado pelo Dr. José Paulo Lima. Nota final para a disparidade de critérios utilizados para a atribuição de música durante as lides.
 
O júri deliberou:
Melhor Toiro: “Arpado II”, nº145, Ganadaria de João Gaspar, quarto da ordem
Melhor Apresentação: “Arpado II”, nº145, Ganadaria de João Gaspar, quarto da ordem
Melhor Lide a Cavalo: Rui Lopes, pela lide efectuada ao terceiro da ordem
Melhor pega: Manuel Pires, GFARG, pela pega efectuada ao sexto da ordem
 
Bruno Bettencourt
 
Foto: Andreia Sosinho

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Tragédia com turista pode despromover a ilha

O início das touradas à corda na ilha Terceira perdeu-se na memória dos tempos. É uma tradição que tem passado levemente incólume a adjetivos como "barbárie", "crueldade" ou "atrocidade", entre outros. O que é facto é que as touradas à corda são efetivamente muito distintas das touradas de praça, e os atores em presença, também são completamente diferentes. Sendo assim, justifica-se ter como objeto de estudo a tourada à corda, pois a ela estão hipoteticamente associados benefícios económicos, não devidamente contabilizados, benefícios ambientais de preservação de espécies, também não devidamente calculados, para além do interesse turístico, ainda não mensurado.
As touradas à corda como atividade cultural são frágeis, porque estão sujeitas a juízos morais e a acontecimentos imprevisíveis, o que as tornam especialmente vulneráveis em termos de continuidade. Basta haver um acidente grave com um turista que não foi devidamente esclarecido para que ocorra a despromoção turística da ilha e como tal, originar prejuízos económicos.

Todos assumimos que a exposição ao risco físico na tourada à corda é voluntário, mas é necessário um melhor entendimento das opiniões, do conhecimento e das percepções de risco dos vários participantes nas touradas à corda, para se gerar uma mensagem de risco adequada e eficaz, tanto para os turistas como para os locais, de modo a que sejam corrigidas atitudes e comportamentos de todos os que nela participam. Ora, como afirmam alguns autores, as "abordagens que se focam essencialmente na percepção do perigo e nas representações mentais dos riscos, ajudam a perceber a capacidade que as populações têm de anteciparem e de lidarem com o risco", e isso é importante, pois é em larga medida com base nestas questões de carácter intersubjetivo que as pessoas tomam decisões susceptíveis de as colocarem numa situação de maior ou menor exposição aos perigos. Para os turistas por exemplo, à semelhança do que acontece com os americanos instalados na Base das Lajes, há necessidade de comunicar eficazmente o que é uma tourada à corda, com vista a controlar o risco e a coloca-lo claramente no domínio das liberdades individuais, ou de outro modo, que a exposição ao risco seja informada e voluntária. Assim sendo, a Comunicação de Risco deverá ser um processo interativo e deliberado de troca de informação sobre riscos e dirá respeito à sua natureza, gravidade e aceitabilidade. É nesse contexto que a tese de mestrado em apreço aparece.
 

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Festival em tom morno…

Publicado a 11 de Abril de 2011

As lides e as pegas do IV Festival Luís Fagundes não tiveram o impacto suficiente para aquecer a noite fria que se sentiu em Angra do Heroísmo, no passado dia 8 de Abril. Apesar de se tratar do primeiro espectáculo do ano no redondel angrense e tendo em conta que a época agora começou para os intervenientes, muito do que se viu ficou aquém das expectativas.

Rui Lopes andou uns furos abaixo daquilo que demonstrou na época passada. Com o primeiro do seu lote andou demasiado sóbrio. A pouca ligação que parecia mostrar com as montadas e a consequente falta de transmissão desta para o toiro, fizeram com que tivesse uma primeira prestação sem história, não tirando partido da matéria-prima que tinha pela frente. O segundo do seu lote mostrou-se desligado e distraído e obrigou-o a ser mais trabalhador. Após deficiente colocação dos compridos, o cavaleiro foi subindo o nível ao longo da cravagem curta, deixando alguns momentos de boa nota. Novamente demonstrou dificuldades na escolha de terrenos. No seu último toiro assistiu-se a um misto das duas lides anteriores. Uma lide com altos e baixos. O exemplar da Casa Agrícola José Albino Fernandes parava-se no momento da reunião. Não esteve bem na cravagem comprida. A destacar a cravagem de 3 bons ferros curtos e de um de palmo com que encerrou a lide.

Juan Cordero, que se encontrava a debutar em praças nacionais, iniciou a sua primeira lide com uma brega auspiciosa, para depois borrar a pintura com um paupérrimo ferro comprido à meia volta. O oponente prestava-se à luta, mas o rejoneador espanhol andou um pouco desencontrado nesta sua primeira lide. No segundo, 4º da ordem, andou melhor. Na cravagem curta, esteve bem na escolha de terrenos, executando cravagens de frente e de boa nota. O último do seu lote da ganadaria de Rego Botelho mostrou bons modos. Uma vez mais assistiu-se a uma cravagem comprida a despachar “à rejoneador”. Na cravagem curta, Cordero não comprometeu, conseguindo por momentos chegar às bancadas com algumas cravagens muito correctas.

As pegas estiveram a cargo do Grupo de Forcados Amadores de Arronches e Amadores do Ramo Grande. Destaque pela positiva para a pega efectuado ao 5º da ordem pelo grupo de Arronches. O forcado da cara é levado pelo grupo dentro e aguenta os derrotes junto às tábuas até que o grupo se fechou. Pela negativa as pegas realizadas pelos Amadores do Ramo Grande ao 4º e ao 6º da ordem. As pegas não se realizaram à primeira tentativa mercê das dificuldades técnicas demonstradas pelos forcados da cara.

O curro saiu relativamente homogéneo de comportamento. Destaque para o comportamento do primeiro da ordem da ganadaria de Herdeiros de Ezequiel Rodrigues, lidado por Rui Lopes. Abaixo da média esteve o 3º da noite, de João Cardoso Gaspar, lidado igualmente pelo cavaleiro terceirense. Ao nível da apresentação, nota positiva para os exemplares de Duarte Pires (2º da noite) e de João Gaspar (4º da noite), ambos lidados por Juan Cordero.


Nota final de incompreensão para o facto de, apesar de Juan Cordero ser aquele com mais tempo de alternativa, foi Rui Lopes quem abriu praça.

Após o festival, saíram à arena duas novilhas que serviram para a apresentação ao público do Grupo de Forcados Juvenis do Ramo Grande.


Bruno Bettencourt

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Quando o exemplo vem do alto...

Publicado a 12 de Novembro de 2010

Muita coisa (boa) devia ser dita sobre a (feliz) ideia da nossa Câmara de Angra ter levado a efeito uma tourada à corda (o tal espectáculo único no mundo e o único que "mexe" com a Ilha inteira) no passado dia 23 de Outubro, na Fonte de S. Sebastião (cheia como um ovo), de homenagem aos cerca de 300 cidadãos nacionais e estrangeiros, do mundo taurino, que nos visitaram integrados no IX Congresso Mundial dos Ganaderos.
Mas o fim que nos levou a estas linhas deve-se ao facto da organização deste espectáculo (a tourada à corda) ser precisamente a Câmara de Angra, ou seja uma das duas entidades oficiais que ao longo dos anos autorizam a realização de todas as touradas nesta ilha.
Contudo, a principal ocorrência, feliz e do agrado geral, foi o facto da Câmara ter mandado fechar totalmente o arraial ao trânsito, conforme anúncio detalhado na imprensa local, durante as duas horas e meia do espectáculo e mais meia hora antes e depois do mesmo. Verificou-se, assim, uma muito maior fluidez, sem perigo, na chegada e saída do público (chegámos a assistir a escaramuças, condutor/peão, ao longo dos anos).
Tão fácil como isto: Antecipadamente anunciado na imprensa local, foram colocados os habituais 2 riscos em cada rua ou travessa e a cerca de 10 metros destes (e aqui é que está a grande melhoria), a conhecida grade de ferro, com o sinal do Código de Estrada: "TRÂNSITO PROIBIDO".
Foi um êxito ver milhares de pessoas à-vontade a circular e a abandonar o recinto em poucos minutos e sem atropelos.
Cá fora, uns metros à volta do recinto do arraial, o trânsito circulando também bem mais à-vontade, saiu rapidamente e com boa fluidez, graças ao excelente controlo dos (poucos) polícias em serviço.
Ficou assim provado que, poupando gastos desnecessários, se obteve excelentes resultados para todos e uma boa maneira de serem dispensados alguns agentes da autoridade para outros fins indispensáveis, já que o Governo teima em não aumentar os quadros policiais, tão necessários aqui como em todo o Portugal.
Por tudo e por nada (com um simples anúncio nos jornais) são concedidas licenças para se fechar ruas ou caminhos, durante várias horas de dias de festas, festinhas ou outra banalidade qualquer, vendo-se arraiais na generalidade às moscas (apenas só se vê o dançar das borboletas à volta das lâmpadas que mal iluminam esses recintos), completamente vazios do calor humano. Mas fecha-se e ai do automobilista que se atreva a passar!
E por que razão não são incluídas nessas licenças as touradas à corda???
Aí sim, nestes arraiais taurinos, onde se movimentam milhares de pessoas e carros, é que se justifica plenamente proibir totalmente o trânsito, com os habituais riscos na estrada e a uns 10 metros destes as tais grades de ferro e o sinal de proibição, em especial nos 2 extremos principais de entrada e saída do arraial, só para casos de urgência. Nas transversais ruas ou ruelas, canadas ou canadinhas (excepto as de sentido proibido!!!...) seriam colocadas as grades ou, na falta destas, as carrinhas das tascas ocupando o centro da via em vez de nas bermas e assim teriam dupla missão; ou ainda numa 3ª hipótese essa vedação poderia ser feita com tractores ou atrelados (não há lavrador que não os tenha) e em dupla missão serviam até de bancada para senhoras e crianças, como se vê, com agrado e utilidade, nas movimentadas esperas ou largadas de gado bravo.


Texto: José Henrique Pimpão
Foto: Samuel Fagundes

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Triunfo de Salgueiro da Costa nas Festas da Praia

Publicado a 03 de Agosto de 2010
Mais de ¾ de praça para assistir à corrida do dia 1 de Agosto integrada nas Festas da Praia 2010. João Salgueiro e João Salgueiro da Costa a cavalo, enquanto Oliva Soto se encarregou da lide apeada. Forcados Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense (GFATTT) e Amadores do Ramo Grande (GFARG). Foram lidadas as divisas de Rego Botelho (RB), Casa Agrícola José Albino Fernandes (JAF) e Irmãos Toste (IT).

João Salgueiro entrou em praça montando o Moranguito para receber o “Quimo” (JAF, nº259, 415Kg). O toiro, apesar da sua nobreza de investida, desde cedo se mostrou andarilho tendo ao longo da lide dificuldade em colocar-se para as sortes. Após uma eternidade a galope, o Cavaleiro colocou a cravagem de castigo. Já com o Chaplin iniciou a segunda parte da lide com 2 ferros de boa nota, para depois decrescer ao longo da função. Muitas das vezes foi notória a falta de colaboração do cavalo aquando das viagens para as cravagens. Encerrou a lide com mais dois curtos. No final opta, e bem, por não dar volta à arena. O “Malandro” (IT, nº102, 495Kg), que foi o segundo do seu lote, mostrou-se voluntarioso durante a lide. Novamente com a mesma montada de saída, deixou dois compridos à meia volta. Algumas notas de interesse ficaram da segunda parte da peleja, a destacar o 2º ferro cravado em curto e alguma da brega efectuada. Das bancadas iam surgindo aplausos que não espelhavam o que se passava na arena. Cada vez mais, os menos entendidos se deliciam com piruetas e outros adornos que tais, em vez de todo o resto que é essencial.

A debutar no redondel angrense, João Salgueiro da Costa recebeu o seu primeiro oponente (JAF, nº274, 445Kg) montando o Don Juan. O toiro logo se mostrou desligado e distraído investindo só pela certa, reflectindo sinais de mansidão. Após dois ferros compridos, o Marialva troca para o Mon Cherry e foi traçando uma lide na qual foi procurando andar sempre em cima do toiro, pisando-lhe os terrenos no momento das sortes. Uma lide de mérito encerrada com um bom ferro curto, mesmo com as dificuldades impostas pelo oponente. A confirmação como triunfador da corrida viria com a lide do “Pirata” (IT, nº94, 490Kg). O toiro apresentou algumas dificuldades defendendo-se nos tércios e mostrando pouco andamento. Salgueiro da Costa foi indo em crescendo, uma vez mais com a colaboração das mesmas montadas. Dois bons ferros compridos seguidos de quatro cravagens curtas de onde se destaca o segundo de alto a baixo após consentir a investida do hastado. Esteve bem nas bregas e entrou pelo toiro na medida certa, conseguindo assim sacar o que de melhor havia no animal da divisa azul e amarela.

Em tauromaquia é hábito dizer-se que um toureiro não pode brilhar quando lhe falta matéria-prima para poder desenvolver a sua arte, e quando o inverso acontece? A Oliva Soto, no seu primeiro toiro, o “Cotorrito” (RB, nº24, 480Kg), foi oferecida uma tela em branco da melhor qualidade, assim como tintas e pincéis do melhor. Com o capote lanceou por Verónicas de boa nota e Delantales rematados com duas meias Verónicas e Larga por alto. Já com a muleta, o artista, talvez pensando que se encontrava perante uma assistência de míopes, limitou-se a passar o pincel pela tela sem se preocupar em usar a tinta, resultado: uma lide sem história perante um adversário que apresentava grandes condições de bravura e nobreza, uma tela em branco. Uma lide sem temple e algo confusa (chegando por vezes o Matador a destapar-se), perante um toiro que se arrancava de largo e galopava ao cite. O toiro apresentava uma grande profundidade de investida pela esquerda que mesmo assim não foi aproveitada. Assobios no final da lide. O segundo do seu lote (RB, nº37, 445Kg) não tinha tão bons atributos mas apesar de alguns momentos de distracção e menor recorrido, deixou-se lidar. O diestro andou um pouco mais trabalhador. Provou-o com o capote desenhando Parons seguidos de tímidas Chicuelinas. Com a muleta citou pela direita demonstrando mais temple e profundidade, apesar da viagem curta do oponente. O Matador mostrou um pouco mais de querer e o toiro foi crescendo com ele. Por Naturais desenhou aquela que talvez tenha sido a série mais bem conseguida. Encerrou a faena por Manoletinas.

No campo da forcadagem assistiu-se a 4 pegas ao primeiro intento. Tomás Ortins do GFATTT deu vantagem ao oponente fechando-se bem à barbela. André Parreira do GFARG realizou uma rija pega aguentando a investida sendo levado até às tábuas. José Vicente do GFATTT mandou e consentiu bem a viagem fechando-se numa boa pega. Alex Rocha do GFARG finalizou a noite de pegas à córnea, sem dificuldade.

Nota final para a poderosa interpretação da Banda Filarmónica da Sociedade Progresso Lajense, sob a batuta do maestro Evandro Machado. Assim o espectáculo tem outro brilho!

Bruno Bettencourt

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Toureio a Cavalo: de Caras e ao Estribo

A história do Toureio a Cavalo está feita de evolução, à medida que o cavalo e o toiro foram apresentando transformações, sobretudo, em termos de capacidade dos primeiros, fruto do progresso da equitação; e em termos de comportamento dos segundos, graças ao avanço da genética.
No início do Século XX equacionava-se a possibilidade de cravar os ferros “De Caras”. Essa é hoje, uma possibilidade absolutamente superada.
Por outro lado, há escritos que questionavam a viabilidade de cravar os ferros em sortes ao “Piton Contrário” ou a “Câmbio”. Hoje essa é também uma questão completamente ultrapassada.
Em suma, são realidades de duas épocas separadas por 100 anos…

Para mim, cada sorte tem o seu valor: consoante as características do toiro, se se espera que arranque ou se se toma a iniciativa de ataque, os terrenos em que é executada, em tábuas, nos tércios ou nos médios, a proximidade ao adversário, a velocidade com que é efectuada, a posição cavalo/toiro no momento da reunião, etc, etc, etc…
Porém, na minha opinião, a sorte “De Caras” é a que apresenta maior dificuldade e, por lógica, a que oferece maior mérito.
O cite é a parte inicial de qualquer sorte. O cavaleiro deve colocar-se frente a frente com o toiro e deixar-se ver. Posteriormente, deve avançar com rectidão, num corredor formado, imaginariamente, por duas linhas paralelas, que saem dos pitóns do toiro até ao peito do cavalo. No momento oportuno, deve iniciar um movimento lateral para a esquerda, chamado de quarteio.
Ou seja: Quanto mais recto o cavaleiro caminhar em direcção do testuz do toiro; quanto maior for a proximidade entre o cavalo e o toiro; quanto maior domínio existir no impulso; quanto mais imperceptível for o quarteio; e quanto mais apertada for a distância entre os antagonistas no momento da reunião, maior valor tem a sorte!
Servem de apoio à minha “teoria” as palavras conhecedoras de Fernando de Sommer D’Andrade, que transcrevo com a devida vénia:
“Ora esta é a única sorte em que todos os tempos têm que estar bem presentes para sair perfeita; é a de maior risco, a mais difícil de conseguir por parte do homem e do cavalo, de acertar com o ferro, de encontrar toiro com moral para a suportar, porque também é a única em que o toiro não vê o cavalo a fugir-lhe, mas, pelo contrário, a investir também com ele, a atropelá-lo, e, por conseguinte, é nesta sorte onde ele, por vezes, se encolhe, faz o estranho que leva os artistas a falharem quantos dos que poderiam ser os seus melhores ferros” (…) “A sorte do toureio equestre é a sorte de caras. As outras podem ser devido à sorte. De facto a ser de caras é a única em que o espectador pode prever, rigorosamente, o seu traçado e, por isso, julgar se o cavaleiro a conseguiu ou não, ou, o que é o mesmo, determinar o melhor cavaleiro e o melhor toureiro pela maior frequência com que consegue praticá-la.”

Em relação à reunião, julgo essencial sublinhar que é o momento mais importante de qualquer sorte. É a reunião que define um bom e um mau ferro. Para a haver é necessário que os dois concorrentes à reunião marchem ao encontro um do outro. No momento de cravar, as espinhas dorsais dos dois animais devem fazer um ângulo agudo (menos de 90º) ou recto (igual a 90.º). A reunião deve acontecer com o toiro humilhado à altura do estribo, momento em que o cavaleiro deve cravar o ferro com toda a verticalidade. O remate é a parte final de qualquer sorte. É o acto de consolidação da mesma.
Neste capítulo específico volto a recorrer ao testemunho de Fernando de Sommer d’Andrade:
“A reunião é o momento culminante de todo o toureio, o momento mais difícil, o mais emocionante, o mais perigoso, aquele para a preparação do qual tende toda a lide; o momento que, afinal, é tudo em toureio.”[...]

Catarina Bexiga in
Sol e Sombra

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Gado bravo seleccionado vs gado bravo selvagem

A palavra “ganadeiro” tem sido muito debatida, ao longo dos últimos tempos, no arquipélago dos Açores, tudo a propósito da proposta de alteração do Decreto Legislativo Regional 37/2008, de 5 de Agosto.

É na selecção criteriosa ao longo de um período de tempo, nunca inferior a 4 anos, que assenta um dos principais pilares de uma ganadaria de toiros de lide. Desde cedo e através de apertados processos selectivos, o homem tomou a seu cargo (tanto no caso do gado de lide como em todos os outros animais de produção pecuária) a tarefa que até então se regia apenas pela maior ou menor pressão selectiva e aleatoriedade genética do mundo natural. Chegaram até nós, e focando-nos apenas no factor “toiro bravo”, as linhas de selecção às quais chamamos “Castas”. Cabrera, Gallardo, Navarra, Vasqueña e Vistahermosa aparecem-nos como principais frutos do trabalho ganadeiro e deles advêm os encastes como são exemplo: Murube, Parladé e Domecq.

Ao ler-se estas primeiras linhas poder-se-á argumentar que a selecção aqui referida se refere à chamada corrida “de Praça” e que em nada está relacionada com o debate já referido. É um argumento válido? Não! Também a Tourada à Corda exigiu um processo evolutivo e selectivo mais ou menos rigoroso. É bem conhecida de todos os aficionados da Festa a designação “Toiro da Terra” que, sem ser um verdadeiro encaste, é igualmente fruto do trabalho dos ganadeiros. Para se obter um animal “com pulmão”, menor tamanho do que os encastes existentes na Europa continental, codícia e vivacidade na investida, é necessário seleccionar. Recordo-me de uma expressão que li ou ouvi algures e que de forma simples dá um bom exemplo da complexidade do mundo campero: “Se para ser ganadeiro bastasse juntar uma vaca brava com um toiro bravo, éramos todos ganadeiros!”.

Muitos são os factores que necessitam estar reunidos para que seja possível efectuar-se o que há algumas linhas venho falando: a selecção. Caso contrário, estaremos perante um processo “selvagem” de criação de gado bravo, o qual não é mais do que um retrocesso até ao tempo em que o mundo natural se encarregava de aleatoriamente recombinar genes.
É sobremaneira compreensível que ao viver-se numa terra onde a aficion é rainha, a vontade de possuir e fazer lidar toiros bravos, seja grande. Mas também, e fruto dessa mesma aficion, deveria ser compreensível que para bem da Festa, da sua continuidade, vitalidade e acima de tudo qualidade, se fosse exigente para com a criação daquele que é o seu elemento central, o Toiro.

Bruno Bettencourt

domingo, 9 de agosto de 2009

Corrida das Festas da Praia

Quinta-feira 6 de Agosto, noite de chuvosa em Angra do Heroísmo, a fazer relembrar os motivos pelos quais havia sido adiada, no dia anterior, a Corrida das Festas da Praia 2009. Nem a chuva intermitente, bem característica dos Açores, e a dança do abre e fecha guarda-chuva, fizeram arredar pé os cerca de ¾ de assistência que acorreram à Praça de Toiros “Ilha Terceira”. Em cartaz dois dos expoentes máximo da cavalaria clássica portuguesa, António Ribeiro Telles e Ana Baptista. Lide apeada a cargo de Mário Miguel, que se estreava como Matador de Toiros na arena da sua terra. Pegas a solo para o Grupo de Forcados Amadores do Ramo Grande, uma vez que devido ao adiamento da corrida não foi possível a participação dos Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense que nessa mesma Quinta-feira pegavam no Campo Pequeno. Toiros das divisas de Rego Botelho (RB), Casa Agrícola José Albino Fernandes (JAF) e Irmãos Toste (IT). Além dos intervenientes referidos, em alguns momentos, durante as lides, notou-se a presença do fantasma do piso molhado e escorregadio. José Valadão esteve na direcção da corrida, sendo coadjuvado pelo Dr. Vielmino Ventura.

Antes do início das lides, foi prestada sentida homenagem, por parte da Câmara Municipal da Praia da Vitória e pelo Grupo de Forcados da Tertúlia Tauromáquica Terceirense, a António Badajoz que completa 60 anos de alternativa. Justo reconhecimento àquele que foi considerado o melhor Bandarilheiro do mundo e que sempre mostrou carinho especial pela ilha Terceira.

António Telles iniciou função com dois ferros compridos bem cravados após passagens em falso. Mostrou que, felizmente, ainda há quem encare a cravagem comprida sem ser a “despachar”. Frente às boas condições do “Bacatum” (nº231, 405Kg, JAF), o cavaleiro foi desenhando uma boa lide que se foi desenrolado em crescendo. O que, eventualmente, faltava em peso a este produto da divisa verde rubra, sobrava em ganância por investir e voluntariedade. Quatro ferros curtos de bom nível a preencher a segunda parte da lide. Nota alta para as duas cravagens finais. De alto a baixo e ao estribo. Sortes arrematadas como mandam as regras do toureio a cavalo, aspecto do qual cada vez mais se esquecem os praticantes da arte de Marialva nas arenas portuguesas. O segundo do seu lote nº90, 470Kg, IT) mostrou-se colaborante de início, mas cedo foi a menos procurando as tábuas e defendendo-se no momento das reuniões. O cavaleiro da Torrinha rubricou uma lide menos luzidia do que a anterior. Dois bons ferros compridos a iniciarem uma segunda presença que foi marcada por uma velocidade, por vezes excessiva, no momento das cravagens e alguns toques na montada. Encerrou com 3 ferros curtos.

Muito boas condições demonstrou o “Bolero” (nº234, 435Kg, JAF). Recebeu-o Ana Baptista com dois ferros compridos. Com um ferro curto à tira, iniciou aquela que seria a lide da noite. Sempre em crescendo, a cavaleira usufruiu das boas condições do oponente e ferro após ferro foi agarrando os sectores da praça. Durante alguns momentos foi possível esquecer a chuva incómoda. No total 4 ferros curtos de grande qualidade técnica e artística. Com o “Jardineiro” (nº95, 450Kg, IT), segundo do seu lote, a cavaleira de Salvaterra foi a menos. O toiro revelou-se de parcas condições para a lide. Escasso de forças, foi-se parando ao longo da lide. A cavaleira mostrou pouco entendimento e andou num patamar inferior relativamente à sua primeira lide. Algum desacerto na colocação da cravagem, tanto comprida como curta. Fica como nota positiva o bom ferro com que encerrou a lide. Nota para o facto de Ana Baptista ter desenvolvido ambas as lides sem ter trocado de montada, caso raro nas praças de toiros. Muito bem esteve o cavalo “Capote”.

Com bonita série de Verónicas se estreou o Matador Mário Miguel na Praça de Angra do Heroísmo. Prosseguiu por Chicuelinas rematadas com revolera e definitivamente enche os olhos a quem assiste. Se era uma aliciante o facto de se tratar de um toureiro da terra, não menos o era por ser um Matador-bandarilheiro, aspecto tão do agrado dos terceirenses. O diestro não defraudou e esteve magistral nos 3 pares de bandarilhas que deixou no alto do morrilho do “Declamador” (nº482, 490Kg, RB). Na muleta o toiro revelou-se sem condições para a lide apeada. Ainda assim, o Matador citou-o por Derechazos e Naturais, alguns dos quais resultando sem ligação, uma vez que o toiro saía das sortes. Lide possível frente a um oponente que aos poucos foi virando a cara à luta. Com ganas de triunfo, Mário Miguel tenta receber o segundo do seu lote (nº483, 565Kg, RB) com uma Porta Gaiola de joelhos. O toiro não foi com o engano e colheu o toureiro. Na incerteza da extensão de gravidade do acontecimento e com os pedidos de ajuda do matador deitado na arena, viveram-se momentos de apreensão. Algum tempo depois e já sem a Chaquetilla, regressa à arena com visíveis dificuldades na perna esquerda. Desenha uma série de Verónicas. Nas bandarilhas intervieram os dois Bandarilheiros terceirenses. Nota alta para os dois pares cravados por Jorge Silva. O toiro da divisa azul e branca mostrou muito boas condições para a lide, muito mais havia para fazer, o que não aconteceu pela debilidade física, fruto da colhida, do matador da ilha de Jesus Cristo. Com a muleta assistiu-se a uma lide de entrega e com o coração. Apesar de artisticamente não terem deslumbrado, as duas séries de Derechazos valeram pela entrega do seguidor da arte de Montes. Tenta ainda arrancar uma série de naturais para encerrar com desplante através de um Quiquiriquí.

Em noite superior estiveram os Amadores do Ramo Grande. Quatro pegas ao primeiro intento. Deu o mote César Pires numa boa pega à córnea. Esteve enorme Hugo Neves na cara do segundo da noite, aguentando alguns derrotes enquanto o toiro fugia ao grupo. Alex Rocha fechou-se na córnea do 4º da noite numa valente pega. A encerrar, Miguel Pires efectuou a pega da noite. Fechou-se, mostrou querer e aguentou a viagem violenta proporcionada pelo toiro. Grande noite para os rapazes capitaneados por Filipe Pires.

Bruno Bettencourt

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More