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quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Políticas de arena


Escrever sobre Tauromaquia começa a ser, nos dias que correm, quase um risco social. As posições estão de tal forma extremadas que ou se é contra ou se é a favor. Já não existe um saudável meio termo, que propicie a troca de opiniões e as apetecidas discussões. Preferencialmente sobre temas que nos interessem como, no caso dos terceirenses, este que hoje foco.

Não sei se me assumo aficionado. Até porque me começa a falhar exatamente o que significa o termo. Que se pode utilizar para outras áreas mas, neste caso, é mesmo para os toiros que vira o texto. Gosto de touradas, vou a touradas, admiro a prática do campo e da criação dos toiros, assim como os artistas que pisam o redondel e quem toureia na rua. Apraz-me, sobremaneira, fazer a cobertura jornalística de eventos taurinos, destacando-lhes as crenças, a plástica e o ambiente próprio. Que aprendi a apreciar e a respeitar.

Há algum tempo, em respostas a uma entrevista para este mesmo jornal, e adivinhando o que poderia fazer título da mesma, avancei que, na ótica de quem preza a Festa Brava, "um mau aficionado é pior que um anti taurino". Passado algum tempo, e mesmo se mantenho a opinião, já também me escapa o que será, de facto, um "taurino", na aceção de ser alguém que defende a nobre arte das arenas, assim como a consagração sublime que é dada ao principal elemento da função: o toiro bravo.

As recentes trocas de insult...ops! de opiniões, sobre uma proposta para impedir que os menores de 16 anos assistam a corridas de toiros - e trata-se de avançar para uma proibição, se bem o entendo -, fizeram regressar à ribalta a continuidade das artes de marialva e afins no retângulo luso. Que, na minha tímida previsão, vai ser coisa de pano para mangas nestes quatro próximos anos. Período em que poderemos aferir da habilidade dos ditos taurinos/aficionados em defender a sua dama. Que é o que está em causa, uma vez que os ataques se vão suceder, cada vez mais fortes, mediatizados e apadrinhados.

A manutenção da Tauromaquia em Portugal é um assunto sério. Que penso está a ser levado de uma forma muito leve pelos seus defensores. Não adianta trazer os valores e as tradições à contenda. Estamos perante uma questão política, que extravasa todos os outros sentidos a dar à discussão. Mais do que aflorar razões, vão contar os votos. Acreditem. Pessoalmente, espero que a Festa Brava ainda possa sobreviver à atual legislatura...

www.portodaspipas.blogs.sapo.pt

Miguel de Sousa Azevedo

Fonte: Diário Insular

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Rego Botelho adquire novos sementais









A ganadaria Rego Botelho adquiriu dois sementais que chegaram à ilha Terceira no dia 30 de Outubro de 2019. Da ganadaria de São Torcato veio um exemplar de 5 anos, de nome "Vingado", enquanto que da ganadaria Calejo Pires chegou o "Rosito", um exemplar de 3 anos. Esta é uma aposta da ganadaria da divisa alva e celeste com vista ao melhoramento da selecção que é feita nos terrenos da Caldeira do Guilherme Moniz.

A ganadaria São Torcato é uma das ganadarias referência no mundo taurino, com antiguidade de 1976. Os exemplares que ostentam a Cruz de Malta representam um encaste com características próprias. Sendo uma ganadaria "fechada", todo o efectivo teve como origem um único semental, procedendo de Pinto Barreiros via Oliveira Irmãos e Cabral Ascenção.

Com antiguidade fixada em 2013, a ganadaria de Calejo Pires tem procedência Nuñez del Cuvillo (Osborne e várias linhas Domecq) e apesar de recente, já tem provas dadas.  Este ano de 2019, em Agosto, estreou-se de forma auspiciosa com um curro completo no Campo Pequenos.

Bruno Bettencourt
Fotos: Fernando Pavão

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Lide de Jabato, o semental nº23 adquirido pela ganadaria JAF


O semental "Jabato" que acompanhou este lote de fêmeas, adquiridas pela Casa Agricola José Albino Fernandes, tem o nº 23, também da ganadaria de Santiago Domecq, e foi indultado por Pepín Liria na corrida da sua despedida que aconteceu na Praça de Toiros de Abarán, na tarde de 27 de Setembro de 2018.
Aqui fica o vídeo da lide aquele que foi o quinto toiro daquela tarde.

Foto: Nuna Faria

Santiago Domecq na Ilha Terceira




O longínquo ano de 1910 marcou o início das importações de Gado Bovino de Lide para os Açores, mais concretamente para a Ilha Terceira, influenciando de forma cabal os espectáculos taurinos enraizados neste povo a meio Atlântico. João Coelho Pacheco, abastado lavrador terceirense, beneficiou o seu efectivo com um semental continental, seguindo-lhe as pisadas ilustres ganaderos como Sieuve de Meneses, Fernandes Miranda, Diniz Fernandes, Castro Parreira, Casa Agricola José Albino Fernandes e Rego Botelho. O século XX marcou um marcado aumento da qualidade de lide das reses insulares, percebendo-se desde logo as sucessivas melhorias zootécnicas que estas importações originaram.

O mês de Outubro, no que à festa de toiros Açoriana diz respeito, fica marcado pela aquisição de um lote de vacas e semental a uma das ganaderias espanholas mais conceituadas (Santiago Domecq), por parte da ganaderia açoriana de Albino Fernandes.

As 32 vacas de ventre que chegaram à Ilha Terceia, algumas delas já com crias, têm na sua génese reatas das melhores linhas ganaderas espanholas de encaste Domecq. De referir que o semental que acompanhou este lote de fêmeas tem o nº 23, também da ganaderia de Santiago Domecq, indultado por Pepín Liria na corrida da sua despedida.

De lembrar que a ganaderia terceirense possui dois efectivos, um destinado aos arraiais de tourada à corda (criados em separado) e outro mais adequado para os festejos em praça onde este grupo de animais recém-chegado se vai inserir. Esta aquisição é um reforço na qualidade da aptidão dos animais JAF para o toureio a pé satisfazendo as figuras do toureio que pisam à arena terceirense.

Esta aposta no futuro marcará, sem dúvida, o futuro da tauromaquia terceirense no que diz respeito à manutenção da actividade ganadera na Ilha Terceira e nos Açores. Nas palavras do ganadero António Ferreira " é a aposta na linha que mais agrada nesta casa ganadera, numa aquisição de qualidade que com sorte e engenho dará cunho da boa genética que possui. Será uma forma de oferecermos ainda mais qualidade à afición terceirense no que diz respeito aos espectáculos na praça". Esta aposta é segundo palavras do ganadero " uma aposta nos festejos na Monumental Ilha Terceira (e outras praças açorianas) e também a outras praças continentais...".

Esta aposta de qualidade enche de esperança os aficionados terceirenses entusiastas da festa no seguimento da procura da melhores aptidões de lide da raça bovina de lide terceirense.


José Paulo Lima
Fotos: Nuna Nunes

Fonte: Diário Insular

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Escrita, crónicas e relatos fantasiosos


Por definição, a “crónica” vai um pouco mais além do que o “relato” de um acontecimento. À crónica está associada a crítica (mesmo que indirecta) às incidências desse mesmo acontecimento. Na tauromaquia, este facto não é diferente.

A disponibilidade e o livre acesso à internet aumentaram, de forma avassaladora, a velocidade com que a notícia de determinado facto chega à opinião pública. Com o aparecimento das redes sociais, aquilo que já parecia rápido, tornou-se instantâneo. Estes factores não constituem novidade e, cada vez mais, são expostos os seus benefícios, assim como seus malefícios. Focando-nos no mundo taurino, as plataformas de comunicação electrónica, sejam elas blogues, sítios ou portais também permitiram uma proliferação de formas de informação ligadas à Festa.

Os meios tradicionais utilizados para divulgação das incidências do mundo dos toiros, dos quais faziam (e fazem!) parte os nomes de todos os respeitáveis críticos e conhecedores dos meandros tauromáquicos, os chamados “entendidos”, viram-se a par com formas de divulgação noticiosa mais rápidas. Destas novas formas faziam (e fazem!) parte pessoas que, até então, eram quase na sua totalidade, desconhecidas do grupo dos conhecedores taurinos. De repente, todos falavam de toiros! No período de tempo entre 2005 e 2015 viveu-se um verdadeiro “boom” de meios de informação taurina na internet (mais ou menos fiáveis!) e com isto, o consequente crescimento do número de pessoas ligadas ao fenómeno. O passar do tempo também veio funcionar como uma espécie de selecção natural. Novos endereços electrónicos foram surgindo, mas outros também foram desaparecendo por razões várias.

A proliferação descrita teve o condão de despertar a atenção da sociedade para esta forma de arte. Com mais informação disponível, é normal que as pessoas a procurem e se vão sentindo, cada vez mais, ligadas a esta actividade. Outra virtude desta propagação, foi o agitar (por pouco que possa ser) dos interesses instalados e que em nada beneficiam a vitalidade da tauromaquia. Havendo um número restrito de divulgadores, é mais fácil ter controlo sobre as suas actividades. Infelizmente é assim!

Se houve mérito, também houve agrura. A agrura que está inerente ao crescimento de massas. Em primeiro lugar, é certo que também os que são contra acabam por ter, no entender deles, mais ferramentas para continuarem na senda de propagação da sua doutrina extremista. Pois que as tenham! Que as use! Cabe a todos os que estão ligados à tauromaquia, primar pela isenção e pelo rigor, de forma a que as ferramentas adquiridas pelos contrários continuem frouxas e sem fundamento, mesmo que eles as vejam como sendo forjadas do mais puro aço. Pela negativa, surge também a proliferação do erro, ou dos relatos tendenciosos/fantasiosos. Voltando à introdução deste texto, onde pode começar esse rigor e essa isenção? Qual a melhor fórmula a adoptar por todos aqueles que se dispõem a divulgar esta dictomia mágica Homem-Toiro?

Antes de mais, há que salientar um aspecto fundamental em todas as áreas informativas: a correcção na escrita! Mais do que estilos de escrita, mais do que qualquer marca pessoal, a acuidade, no que diz respeito às regras elementares da língua portuguesa, é fundamental. Não se pode querer passar uma mensagem sem que se domine, minimamente, a forma de a fazer transpor além da nossa mente. Depois de dominado este aspecto, entramos noutro: o campo específico da tauromaquia. A arte taurina é isto mesmo: Arte! A arte está inerente à existência humana. É a forma de despertar sensações, através de sensações. Nela reside toda a subjectividade, uma vez que as sensações despertadas são pessoais e únicas. Dentro de toda esta subjectividade existem regras. Parece contraditório, mas não é! A tauromaquia rege-se por regras. As técnicas são ditadas pelas regras. Da mesma forma que é necessário o domínio da escrita para poder transmitir a mensagem, é necessário ter conhecimento das regras fundamentais da tauromaquia para que sobre elas se possa dissertar. Expressar opinião, ou divagar sobre um assunto que não se domina, é pior do que “chover no molhado”, é quase querer regar plantas com terra.

Num meio restrito, é normal que todos se conheçam e que simpatias e amizades vão surgindo, no entanto, tais factores não poderão ser uma condicionante. Quem se predispõe a divulgar a festa e, particularmente, quem se dispõe a ir além do “simples” relato e faz incursão ao nível da crónica, não pode ter o seu sentido crítico condicionado. Como já foi referido, os relatos ou supostas crónicas, tendenciosos/fantasiosos apenas prejudicam esta Arte. Sempre houve quem procurasse condicionar a opinião da população, através da escrita. Ainda hoje é usual ouvir-se: “Isto é verdade porque estava escrito no local A ou no local B!”. Numa época em que está tão na moda a expressão “fake news”, há que sinalizar e procurar desacreditar a informação taurina “fake”. Não é possível que se continue a divulgar factos com inverdades. É certo que a expressão “mentideros” também está associada ao meio taurino desde tempos ancestrais, mas tal não pode acontecer quando se faz uma crítica ou se avalia o desempenho de um artista na arena, seja ele toiro, cavalo, toureiro ou forcado. Cada vez mais é visível o quão tendenciosos são alguns cronistas, ao ponto de pintarem um lindo quadro a partir de um desempenho paupérrimo. O contrário também é válido. Como é possível existirem 3, 4 ou 5 crónicas de um determinado espectáculo e parecer que se está a obter informação sobre 3, 4 ou 5 espectáculos diferentes, quando na realidade todos falam de um mesmo acontecimento? “São opiniões!” Alegam muitos em sua defesa. Mas mesmo que sejam opiniões (que o são!), mesmo que sejam críticas e com elas os juízos de valor inerentes, tudo isto tem que ter como base as regras elementares da tauromaquia. Podemos não gostar de uma determinada cor, essa mesma cor pode-nos despertar uma sensação que não nos agrada, mas temos que saber ver se a cor está pintada segundo as regras ou não.

Todos devem manter o seu estilo próprio, a sua forma de ver o mundo. Ninguém deverá distorcer momentos sublimes ou menos bons por falta de conhecimento ou pela existência de interesses mais ou menos transparentes. Que se continue a divulgar a festa de forma clara e coerente. A todos, mais do que informar, compete formar, para que este mundo mágico se torne cada vez mais robusto.

Bruno Bettencourt
Foto: D.R.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

João Telles, chuva e o triunfo de S. Pedro…


Nos cartazes estava impresso o dia 5 de Agosto de 2019 e era anunciada a Corrida das Festas da Praia 2019. A chuva não deixou! Diz-se que é S. Pedro o responsável pelo tempo e pelas chuvas. Com isto a Corrida havia de acontecer no dia seguinte, 6 de Agosto… mas não por inteiro! Também no curro existiram alterações. A não inclusão de um exemplar de cada uma das ganadarias anunciadas, David Ribeiro Telles (DRT) e Rego Botelho (RB), deu lugar à inclusão de dois animais com o ferro de João Gaspar (JG).

O final de tarde estava agradável, apesar da humidade que pesava no ar. Cortesias, ao (bom!) som da Banda Filarmónica da Sociedade Recreio Lajense (a “Sociedade Velha”), e praça quase cheia para assistir às lides.

António Telles, o Mestre do toureio à portuguesa, regressou à Praça de Toiros Ilha Terceira e mostrou a razão do epíteto que lhe é atribuído. É perante as dificuldades que os Mestres se mostram em pleno. O RB (nº11, 573kg) que teve pela frente, era uma estampa! Foi-se ficando em curto, transmitindo pouco e sem carregar as sortes. O Marialva da Torrinha pisou-lhe os terrenos, carregando as sortes. Ligou-se e andou cingido nas bregas, numa lide muito correcta. A montada protestou em alguns momentos, talvez por ser menos rodada, mas com a sua veterania e boa equitação, o cavaleiro resolveu este aspecto. O JG (nº48, 456kg) perdeu as mãos no início da lide e depois perdeu a bravura também. Fechou-se em tábuas não tendo condições de lide. António, com maestria, deu-lhe a primazia nos terrenos e, apesar de haver pouco para lidar, cravou ferros de boa nota, a sesgo e junto aos curros. Nada mais havia a fazer.

João Telles procurou agarrar a assistência e o triunfo, logo de início. O exemplar com o ferro de seu avô (DRT, nº30, 458Kg) entregou-se à luta carregando e rematando as sortes com codícia. Metia, por vezes, a cara alta mas sem complicar. Lide em crescendo a tirar partido do touro e a fazer eco nas bancadas. Cravagens correctas a consentir as investidas e bregas justíssimas, a trazer o toiro na garupa, permitiram uma saída em plano triunfal. Diante do RB (nº22, 446Kg) afirmou-se em pleno como triunfador da Corrida. Um bom toiro a dar muito boa réplica e sempre ligado à montada, com ímpeto. A chuva caía sobre a arena, mas o Cavaleiro fez com que isso fosse esquecido por momentos. Após um primeiro curto de fazer parar corações, continuou transmitindo emoção. Lide e ferragem variada, finalizada com violino e palmitos. Pecou por prolongar a lide em demasia.

Com a saída à arena de João Pamplona para lidar o terceiro toiro da Corrida (JG, nº46, 478Kg), São Pedro também se quis fazer notar e assim se iniciou a chuva que se fez sentir até ao final. João esteve bem nas cravagens e escolha de terrenos. Uma lide correcta e de entrega que, só não se fez sentir mais nas bancadas, porque a assistência ainda estava a reagir à queda de água. O toiro foi-se mostrando reservado, mas não complicou. No último toiro da corrida, segundo do seu lote, havia de triunfar São Pedro. O exemplar DRT (nº28, 450Kg) ainda saiu à arena numa altura em que o piso já estava impraticável. Na primeira investida ao cavalo assistiu-se a um momento de apuro e confirmou-se a falta de condições. Corrida interrompida e toiro recolhido.

José Macedo Tomás, cabo do G.F. Amadores de Coruche, abriu o capítulo das pegas com um pegão à primeira. Reunião duríssima e viagem até bater nas tábuas. Pelos de Coruche pegou ainda Tiago Gonçalves que resolveu ao segundo intento com uma grande intervenção do primeiro ajuda. Pelo G.F.A.T.T. Terceirense foram solistas Alexandre Vieira, à primeira, aguentando a cara alta do toiro, sendo muito bem ajudado pelo grupo. Luís Sousa mostrou coração e pegou à primeira com ajudas carregadas, após várias tentativas desfeitas, mercê da não saída do toiro que havia dado tudo de si durante a lide a cavalo. Uma vez que o último toiro não foi lidado, o G.F.A. Ramo Grande apenas realizou uma pega. Rui Dinis fechou-se numa boa pega à terceira tentativa, mostrando valentia. Nota para a despedida do Forcado Filipe Lemos dos Amadores do Ramo Grande, elemento desde a fundação do grupo e um Forcado de qualidade.

Dirigiu a Corrida, com assertividade, Rogério Silva, assessorado pelo médico veterinário José Paulo Lima.

Bruno Bettencourt
Foto: Fernando Pavão

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