About

Mostrar mensagens com a etiqueta Entrevista. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Entrevista. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 8 de maio de 2018

É preciso explicar as touradas ao turismo


A Associação Regional de Criadores de Toiros de Tourada à Corda (ARCTTC) mudou de corpos diretivos recentemente e foram novamente mulheres a assumir a direção. Como explica isso num mundo (ainda) dominado pelos homens?
É verdade que a tauromáquica continua a ser um mundo maioritariamente gerido por homens e numa associação de dezoito associados, em que são menos de meia dúzia as mulheres representantes de ganadarias, pode ser verdadeiramente de se estranhar. Mas na tauromaquia sempre houve grandes nomes de mulheres e a ARCTTC, em 2000, iniciou-se com duas mulheres na Direção (Fátima Albino e Laura Sousa), uma Presidente e uma tesoureira, podendo isso já ser um prenúncio da realidade taurina. Esta direção espera continuar a contribuir para este mundo taurino que tanto nos fascina e foi herdado e que sentimos como o legado a manter independentemente do sexo. Pessoalmente, sempre tive o exemplo da minha mãe, Fátima Albino, que é para mim um exemplo de como as divisões sexistas nunca devem ser um impedimento na nossa vida.

Quais as prioridades do elenco diretivo e que estratégias delinearam para as atingir?
A atual direção da ARCTTC tomou posse a 16 de Março, com dois membros novos como representantes de ganadarias (Sónia Ferreira e Emiliana Gaspar) e um membro que transitou da direção anterior (Mariana Rego Botelho), e como tal é nossa intensão continuar com todos os trabalhos desenvolvidos pela direção anterior. Como tal, pretendemos continuar a ajudar os nossos associados em diferentes áreas, nomeadamente na medicina veterinária, no apoio jurídico, no melhoramento genético e no bem-estar animal. E apostar numa vertente mais educativa e promocional da tourada à corda, nomeadamente em campanhas de sensibilização junto do turismo. A ARCTTC, como referiu, foi fundada em 2000, e apesar de estar quase a fazer 20 anos, ainda muitos desconhecem os seus objetivos e finalidades.

Para que serve esta Associação?
A Associação, quando foi criada, tinha como principal objetivo a necessidade de criar consensos entre os ganadeiros e uniformizar opiniões com o intuito de defender a festa através da qualidade dos toiros e dos espetáculos. Esse trabalho começou por ser focado nas condições sanitárias dos animais, bem como no seu maneio. Nesse sentido, foram elaboradas candidaturas junto das entidades governamentais de forma a melhorar as condições físicas das ganadarias. Esse trabalho tem sido continuado ao longo dos anos e ultimamente houve também uma preocupação com a divulgação e promoção do espetáculo,com o objetivo de sensibilizar o público para o trabalho que é feito no campo e as condições que são dadas aos animais. Noto que há uma certa preocupação na divulgação dos cuidados dados aos animais. Porquê? Sim, porque, ao contrário do que certos setores da sociedade pensam, o ganadeiro tem um enorme cuidado com os seus animais. Dificilmente outro bovino tem tantos cuidados a nível de alimentação e de sanidade veterinária como um toiro bravo,que dispõe também de um habitat adequado e amplo. Hoje em dia há uma crescente humanização dos animais e apregoam-se os direitos dos animais.O toiro nunca será um animal doméstico, nem pode ser visto como tal.No entanto, isto não invalida que existam regras para o seu maneio e transporte e que sejam tomadas medidas para o seu bem-estar (como a alimentação e sanidade).

Qual a vossa apreciação sobre as alterações ao Regulamento da Touradas à Corda aprovadas recentemente pela Assembleia Legislativa?
Apesar de termos tomado posse recentemente, esta direção acompanhou o trabalho da anterior, que foi recebida pelo Governo e pelos Deputados à Assembleia Legislativa Regional na Comissão de Política Geral, para expor os melhoramentos ao funcionamento e logística que envolvem a tourada à corda, com base em situações concretas que foram acontecendo e expuseram falhas existentes na legislação e que deveriam ser colmatas. E por forma a propor as melhores soluções, a direção anterior da ARCTTC consultou e reuniu com muitos intervenientes na festa, desde ganadeiros, capinhas, delegados, câmaras municipais, a comissão de festas do Rossio, tertúlias, associação de mordomos (esta última contatada sem sucesso). Foi um trabalho que decorreu em mais de três anos e a ARCTTC tentou junto do Governo contribuir com propostas de alteração ao regulamento que refletissem a atual realidade e as suas dificuldades em prol da defesa da Festa Brava. 

Consideram as alterações implementadas uma mais-valia para a tourada à corda?
Tendo em conta as exigências cada vez maiores para com todos os eventos taurinos, a direção da ARCTTC considera que a atualização ao regulamento veio melhorar vários aspetos, tais como: dignificar o trabalho dos intervenientes, possibilitar uma maior ajuste à existência de touradas tradicionais e dos seu benefícios, reforçar a segurança das pessoas e o bem-estar animal e facilitar o licenciamento das touradas É cada vez mais importante que numa tourada à corda a segurança seja uma constante e estas alterações vêm reforçar a segurança das pessoas e o bem-estar animal.
Achamos pertinente referir que algumas definições de conceitos, nomeadamente de ganadeiro, no nosso entender, só aparece com a intenção de o dignificar, mesmo não tendo sido a proposta apresentada a plenário, a ideal defendida pela ARCTTA. É importante ter a noção que todas as atividades são regulamentadas e alvo de fiscalizações cada vez mais rigorosas. Se alguém tiver uma vaca no quintal não pode ser considerado produtor de carne ou leite, porque existem regras e leis a cumprir. Um proprietário de um barco não é forçosamente um pescador. Um ganadeiro, seguindo esta lógica, tem que ser enquadrado num quadro legislativo regulamentar, visto que se preocupa em aprimorar um animal através de tentas e seleção criteriosa. O produto desse trabalho requer paciência, tempo e dedicação, bem como custos avultados.
A defesa da festa faz-se pela qualidade e não pela quantidade, a proliferação de espetáculos taurinos não é só por si um sinal de vitalidade, a força de um espetáculo faz-se pela garantia que o toiro, que é elemento fundamental, é resultado de um trabalho sério.

Com o aproximar de mais um ciclo de touradas à corda, quais as principais dificuldades que os ganadeiros enfrentam para assegurarem a continuidade das festividades que decorrem de maio a outubro?
Um dos maiores problemas atuais é o IVA, que atualmente mantêm-se a 18%, sendo mais um encargo para as comissões de festas, agravando igualmente a situação financeira das ganadarias.
Outra preocupação passível de reflexão é o elevado número de touradas não refletir em retorno financeiro efetivo para os ganadeiros. Visto que assistimos a um aumento no custo de manutenção de uma ganadaria sem um acompanhamento no valor pago por espetáculos.
Outro constrangimento são os seguros ainda não cobrirem na totalidade as necessidades dos ganadeiros, no que diz respeito ao maneio dos animais, algo que a ARCTTC tem constantemente batalhado nestes últimos anos.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O matador açoriano que vive em Jacarta



A oito fusos horários da ilha Terceira, onde nasceu, e a 30 horas de viagens de avião de Portugal,Mário Miguel Silva garante que está adaptado a Jacarta, onde vive com a mulher e a filha há sete anos. "Estando inserido no mundo dos cavalos 24 horas por dia, sete dias por semana, trabalhar na Indonésia, na Tailândia, nos EUA ou no Polo Norte é estarmos bem", diz o cavaleiro português, de 38 anos.

Uma década depois de se tornar o primeiro matador de touros açoriano, tirando alternativa na praça de Valladolid, Espanha, a 26 de agosto de 2006, Mário Miguel trocou a arena pela pista, trabalhando para Prabowo Subianto, que foi candidato presidencial em 2014 e é um dos homens mais poderosos da Indonésia. Além de tratar dos seus cavalos, o português está a formar alunos para a modalidade olímpica da dressage, dominada por europeus. 

Ensinar outros a levar o cavalo a fazer movimentos graciosos é natural para quem começou a tourear aos 11 anos, arrancando a carreira que o fez passar de Angra do Heroísmo para o Campo Pequeno e daí para Espanha, França, Califórnia e América do Sul. E em que, além de lidar os touros, aprendeu muito de equitação. "É um prolongamento do trabalho do mestre Luís Valença, que é a divulgação da arte equestre e da cultura portuguesa", explica, referindo-se ao sogro, um dos grandes nomes da equitação.

As ligações familiares ajudaram-no a iniciar a nova carreira. Tendo feito a última corrida nos Açores, em 2009, a transição para a dressage foi o passo lógico para quem se dedica a negociar cavalos. "Já devemos ter levado cerca de 30 para a Tailândia . Agora devemos levar outros 30 para a Indonésia. Alguns estão virados para o cavalo norte-europeu, mas maioritariamente levamos o nosso lusitano." São animais que podem custar entre 10 e 100 mil euros, consoante a pureza da raça e os feitos dos antepassados.

Construir uma relação entre cavalo e cavaleiro em que os dois até parecem ser um é algo que Mário Miguel classifica de "difícil facilidade". "Vem de muitos anos de treino em conjunto, e com a arte equestre do cavaleiro que evolui ao longo dos anos mais a linguagem se desenvolve. A certa altura já parece telepatia. Tudo sai redondo e bonito", diz o cavaleiro, que tal como a mulher, Luísa Valença, dá o exemplo a alunos que já representam a Indonésia em competições internacionais.

QUESTÃO DE CARÁTER
Caráter é aquilo que exige aos animais que leva para a Ásia, numa prospeção que o obriga - "e ainda bem", realça - a vir a Portugal várias vezes por ano. "Podemos estar à procura de um cavalo superbonito, muito bem andado e ensinado, mas se tiver mau caráter vai criar problemas muito depressa", adverte, na medida em que "um cavalo com caráter difícil" pode prejudicar a forma como os lusitanos são vistos entre pessoas que têm "menos anos de cultura equestre".

Apesar de a dressage ser dominada por cavalos do Norte da Europa preparados para o picadeiro de 20 por 60 metros, aquilo que procura são "cavalos muito guerreiros, com um coração muito grande, que suportam muitas pressões sem fazerem asneiras". E Mário Miguel Silva crê que os lusitanos são versáteis ao ponto de se adaptarem a pistas e regras feitas com outros em mente.

É a ele que cabe a última triagem dos animais comprados pelos clientes asiáticos. "É o retoque final depois de passarem por vários filtros. Venho cá, monto, experimento e vejo o caráter de cada um para apurar se se coaduna com o aluno a que é destinado", afirma, embora escolher um cavalo com potencial seja apenas um primeiro passo para chegar ao mais alto nível.

"Podemos sempre realizar-nos no cavalo em muitas vertentes", afirma, avançando exemplos na sua família. Ninguém foi tourear, mas a sobrinha mais velha vai no terceiro campeonato europeu de dressage, competindo ao nível de grande prémio, e o sobrinho mais novo prepara o segundo europeu. "Vivem em casa do avô toda a arte equestre", diz o matador .

PATRÃO POLÉMICO
Apesar da experiência e dos resultados, Mário Miguel Silva ri-se com a ideia de que o patrão o veja como um ‘Mourinho da dressage’. "Sou muito jovem. Na arte equestre há um processo de evolução e de aprendizagem. Ainda hoje o meu sogro, com 70 anos, diz que aprende todos os dias. Ser um Mourinho da arte equestre... Não é por aí", responde, reconhecendo que o convite para trabalhar em Jacarta se deve ao conhecimento da sua trajetória de cavaleiro tauromáquico, matador de touros e cavaleiro equitador. "Acho que me tem ainda em boa conta...", resume, sorridente.

Prabowo Subianto, além de genro de Suharto, ditador já falecido que governou a Indonésia durante 30 anos, é tão poderoso quanto polémico no país. E está ligado à ocupação de Timor-Leste enquanto um dos mais jovens comandantes das forças especiais invasoras. Homens sob o seu comando embrenharam–se na ilha em 1978 para emboscar e matar o ex-primeiro-ministro timorense Nicolau dos Reis Lobato, cujo cadáver foi levado para Díli.

Apesar disso, Mário Miguel Silva diz que conhece alguns timorenses que preferiram ficar na Indonésia após a independência da ex-colónia portuguesa e garante que a sua nacionalidade nunca foi um problema em Jacarta. Mais falado, mas em Portugal, foi o seu nome e o da mulher no âmbito da investigação aos ‘Panama Papers’, visto que ambos apareceram numa lista de titulares da sociedade offshore, o que o cavaleiro justifica com o facto de terem deixado de trabalhar e de pagar impostos em Portugal.

SAUDADES DOS TOUROS
Sem nunca ter anunciado o fim de uma carreira ligada à Monumental da Ilha Terceira e à Praça do Campo Pequeno, onde fez a alternativa de cavaleiro tauromáquico, Mário Miguel admite ter saudades da adrenalina que sentia e que até o levou a tornar-se matador. "Quem nasce toureiro, morre toureiro. Há sempre a chama que mantemos viva. Mas não passa de uma ilusão", afirma, deixando a porta entreaberta para participar num festival relacionado com uma das "causas nobres que a festa dos touros acompanha, apadrinha e suporta".

Na Indonésia também há quem lhe faça perguntas acerca do passado, ainda que a tauromaquia "seja difícil de ser percebida por alguém que nunca lhe foi exposto, ou por quem a exposição possa ter sido menos positiva ou só negativa". E garante que estaria pronto a ensinar um dos seus alunos de dressage a tourear.

Depois de ter montado mais cavalos do que consegue precisar, ainda que aponte para "umas boas centenas", Mário Miguel já disse à filha, que começou a montar há pouco tempo, para fazer registos. "Como é muito organizada e boa aluna, pedi que fizesse um diário. Daqui a meia dúzia de anos já não consegue contar os cavalos", diz quem não consegue indicar o animal que mais o marcou. Até porque "o meu próximo cavalo é que vai ser o melhor".

Texto: Leonardo Ralha
Fonte e foto: Correio da Manhã

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

O bandarilheiro João Pedro Silva "Açoreano" em entrevista


Um dos mais talentosos Bandarilheiros da sua geração, exímio com o Capote e com as Bandarilhas, João Pedro Silva de apodo "Açoreano", é natural da ilha Terceira.

Recentemente galardoado pela Tertúlia Tauromáquica Festa Brava com o troféu de Melhor Bandarilheiro e Peão de Brega de 2016, esteve à conversa no programa "Terceira Dimensão" da AzoresTV, numa entrevista com a assinatura da jornalista Sónia Bettencourt.

 

Foto: Bruno Bettencourt

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

"É preciso recuperar o toureio a sério na Tourada dos Estudantes"

Para Miguel Azevedo, foi na Tourada dos Estudantes que nasceram os grandes nomes da tauromaquia terceirense, mas é preciso recuperar o festival, porque os cavaleiros e toureiros não se têm renovado. 

Este ano, não se realiza, em Angra do Heroísmo, a Tourada dos Estudantes, uma tradição de Carnaval com quase um século. Na sua opinião, o que provocou este desfecho? Os alunos perderam o interesse?
 O que se verificou este ano foi, essencialmente, a falta de interesse dos estudantes. Podem apontar-se várias razões para que a Tourada dos Estudantes, na sua totalidade, não se realize, mas quando houve apenas 15 inscritos para a mesma poderia estar tudo dito. Recordo que, há não muitos anos, esse número ultrapassava a centena, e havia os "cortes" para selecionar os 60/70 que fariam parte do cortejo e da garraiada. Acho que não se deve dramatizar a situação, mas sim tirar as devidas ilações da mesma. Até porque se fez a Tenta, se deu a Volta à Ilha e, com a ajuda de alguns - infelizmente sempre os mesmos -, até haverá no sábado uma "brincadeira" na Praça de Toiros Ilha Terceira, que evocará a Tourada. Mas a verdade é que, nos últimos anos, as bancadas têm tido sempre as mesmas pessoas - e poucas -, mesmo se o cortejo vinha mantendo um nível engraçado. Acredito é que esta seja apenas uma crise passageira e que em 2017 haja novamente a festa em todo o seu esplendor. 

Uma das alunas que tentava organizar este ano a Tourada dos Estudantes disse a DI que os pais estavam renitentes em deixar os filhos participar. Esta tradição ganhou má imagem nos últimos anos?
 Não vejo as coisas assim. Ou então a memória dos pais da nossa terra está muito fraca. Não há casa, especialmente em Angra, onde não haja uma recordação da Tourada dos Estudantes. Ela foi também a porta de entrada no mundo taurino para muitos jovens ao longo de décadas, para lá da sua vertente crítica e cómica, que sei ser, ainda hoje, motivo de tantas e tantas histórias. Claro que houve excessos e hoje há uma data de problemáticas com os mais jovens, às quais nem se ligava anteriormente. Mas não acredito que o afastamento seja por via dos pais, nem que a Tourada dos Estudantes tenha má imagem. Espero que a vontade da Mariana e dos seus amigos prevaleça nestas novas gerações. 

Acredita que ainda será possível recuperar a Tourada dos Estudantes?
 Penso que sim. Tenho uma opinião muito própria sobre vários fenómenos da nossa terra, pois a inconstância das gentes ganha terreno de uma forma preocupante. Mas acho que é uma tradição que vai ressurgir, depois desta "escorregadela". Para isso, é preciso recuperar a parte séria da Tourada, com cavaleiro, toureio apeado e as sempre presentes pegas, porque a Tourada dos Estudantes era um pequeno festival, mas com todas as cortesias, e lá nasceram quase todos os nomes grandes da nossa tauromaquia. Ou então, toda a pedagogia que está ser criada em torno da Festa Brava falhou no essencial, porque os artistas não se renovaram, com excepção dos forcados. Esse é um ponto essencial. O resto tem a ver com a vontade e a irreverência dos estudantes. Têm de ser eles a perceber que vão acabar com algo que sobreviveu a todo o Estado Novo...esperando que a maioria saiba o que isso foi. 

A Tourada dos Estudantes tinha uma vertente de crítica social, com o cortejo realizado na Rua da Sé. O que é que se perde com o seu fim?
 Pode perder-se um momento único em cada Carnaval, pois o cortejo espelha vários momentos e factos da nossa terra e da atualidade política e social. Há factos da nossa História que estão relatados nas memórias da Tourada dos Estudantes. A minha dúvida, e estendo isso a outros campos, é se a nossa sociedade ainda sabe criticar. Ou se apenas o faz porque sim, porque faz parte, mas já sem crença de que, efetivamente, a crítica possa mudar alguma coisa. Há uma censura silenciosa presente nas nossas vidas, mas já estou a fugir da temática, e o Entrudo é para sorrir.

A perda deste momento de análise crítica do que se passa na Terceira será um espelho da sociedade atual, que cada vez mais opta por não se pronunciar?
Como referi, não acredito que a Tourada dos Estudantes fique por aqui e ficaria muito triste se assim acontecesse. Mas temos de ser realistas e dar lugar a quem deve fazer as coisas, se as quiser fazer. Os estudantes e os jovens desta terra têm nas mãos uma tradição quase centenária, que deviam querer manter e acarinhar. Não podem ser os pais, as câmaras ou as empresas a suportar as coisas e a fazer-lhes a "papinha" toda. A iniciativa tem de ser deles, e o que não faltam são pessoas que podem ajudar. Discordo que a solução passe por formar mais uma associação para viver de dinheiros públicos, pois isso é o mesmo que assinar a sentença de morte do que foi a Tourada dos Estudantes desde os anos 20 do século passado. Não queiramos sistematizar o que nunca fez parte de um sistema. Sou contra isso. 
Desfile da tourada dos estudantes.
Miguel Azevedo, em 1998, (em cima) e o pai, em 1967, (em baixo) participaram na tradição
  
Participou várias vezes na Tourada dos Estudantes. Que memórias guarda desses tempos? 
Participei dez vezes, diretamente, na Tourada dos Estudantes. Fiz parte da sua comissão organizadora em 1997 e durante vários outros anos ajudei as várias comissões da melhor forma que soube. E já escrevi muito sobre esta tradição. Existem imensas histórias para contar, mas houve uma coisa que aprendi com toda a experiência num evento tão popular e intenso, que é o prazer de partilhar as recordações de uma forma saudável. Tal como o gosto de ficarmos com o nosso nome ligado a algo que fez rir, que criou bons momentos, que solidificou amizades, fez surgir namoros e até casamentos, que marcou decididamente a nossa adolescência e mesmo a idade adulta. Penso que o lado bom das tradições é esse mesmo e traduz-se no fomento do amor às causas. O resto, tudo que seja forçado e impingido, ou soa a balelas ou vem de quem tem muita necessidade de aparecer. Mesmo se no Carnaval, ninguém leva a mal. Viva a Tourada dos Estudantes.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Tauromaquia fenómeno social abrangente nos Açores

Entrevista a José Paulo Lima, autor de "O Lugar Atlântico do Toiro"

 
"O LUGAR ATLÂNTICO DO TOIRO" FOI LANÇADO RECENTEMENTE. O QUE MOTIVOU A ESCREVER UM LIVRO SOBRE O TOIRO DA TERCEIRA?
O livro surgiu sobretudo do fascínio que sinto por este animal maravilhoso que é o toiro. A tauromaquia é um fenómeno social abrangente nos Açores e que está presente praticamente em todo o quotidiano do povo ilhéu, em particular do terceirense.
Numa altura em que a festa brava é alvo de muitos ataques infundados, o conhecimento do ciclo de vida raça brava e a sua relação com o ambiente é uma grande mais-valia para a defesa da mesma. O toiro bravo nesta obra é contextualizado nas suas origens e desenvolvimento, dando destaque á forma como se cria e se seleciona.
Procurei transmitir por palavras, reforçadas com as imagens do fotógrafo Edgardo Vieira, vincar ideias que não estão acessíveis a grande parte dos aficionados e público em geral.


O QUE DISTINGUE O TOIRO DA TERCEIRA?
O toiro na ilha Terceira evoluiu e continua a evoluir de acordo com a sua finalidade pecuária. O nosso clima e a nossa orografia acabam por condicionar a própria biologia dos animais dando-lhe particularidades por vezes difíceis de identificar.
O mato com as suas condicionantes criou o toiro e foi responsável pela sua manutenção. As importações de linhas de toiro de lide melhoraram de forma substancial esta raça entre nós e puseram a ilha Terceira equiparada com a península ibérica. Hoje criam-se toiros distintos para a tourada à corda e para a lide em praça e estas duas finalidades impulsionam a manutenção da atividade ganadera.
O animal de hoje é muito diferente dos bovinos nativos que eram utilizados até ao princípio do século XX nas atividades taurinas. O progresso genético beneficiou tanto a tauromaquia popular como a dita erudita. Existem no entanto certas particularidades, como sejam o desenvolvimento de cornos, corpulência e capacidade pulmonar que são influenciados em grande parte pelo nosso clima temperado atlântico e pelos solos vulcânicos.

 
COMO SE TEM PROCESSADO A MELHORIA GENÉTICA DO GADO BRAVO DA ILHA?
A melhoria genética da raça beneficiou com a importação de linhas de toiros desde o início do século XX, com os elevados padrões de nobreza e bravura que foram sendo introduzidos nas nossas ganadarias. A morfologia dos animais também se alterou fruto da melhoria genética e das melhores condições de maneio.
As importações de gado continental que se iniciaram em 1910 melhoraram de forma cabal o efetivo bravo açoriano.
A seleção pela tenta com a sorte de varas iniciou um processo revolutivo que foi fundamental à melhoria do toiro bravo açoriano. É uma pena e uma falácia pecuária que a sorte de varas nas seja utilizada também em praça para pôr aos olhos de todos este progresso genético extraordinário.
O QUE É PRECISO FAZER PARA MELHORAR O CONHECIMENTO SOBRE O TOIRO TERCEIRENSE NAS DIFERENTES VERTENTES?
Temos a virtude de este animal ser conhecido dos terceirenses praticamente desde o berço. Qualquer um de nós, mesmo que não seja aficionado, distingue um toiro bravo das restantes raças bovinas.
A informação sobre pontos concretos da sua vida é no entanto escassa. Poucos sabem como se comporta uma vaca brava na altura do parto, como se relacionam em manada e como intervêm na proteção do meio ambiente. Estes conhecimentos vão muito para além da tauromaquia e são do interesse do grande público.
Muitas vezes a tauromaquia é notícia apenas por motivos trágicos, não se dando destaque a pormenores tão simples como a vida no campo e o comportamento desta raça.
Note-se o impacto que a tauromaquia tem nas redes sociais, com diversos canais dedicados à tauromaquia insular.
O público-alvo é muito abrangente, mas muitas vezes a forma como se trata a informação é muitas vezes pobre e deficiente.
É fundamental que se elucide as pessoas sobre qual o objectivo desta raça na ilha Terceira. Por um lado temos um tipo de animal para as touradas à corda, que consegue demonstrar o seu comportamento durante 30 minutos, várias vezes na vida, e por outro um animal que se manifesta apenas uma vez na vida durante 15 minutos numa arena. São por isso mesmo situações distintas que têm que ser descritas.
 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

A arte de Tiago Pamplona


Oriundo de uma família com tradições na tauromaquia terceirense, Tiago Pamplona desde cedo que despertou para as atividades relacionadas com essa atividade.
"Na minha família, o meu avô (Raúl Pamplona) sempre teve cavalos e foi criador de gado manso e bravo e o meu pai (João Carlos Pamplona) também foi cavaleiro, por isso desde muito novo que tenho interesse por estas atividades", referiu.
Como é habitual com os aspirantes as cavaleiros tauromáquicos, começou com os treinos com os cavalos e "tourinas" e depois com vacas até apurar a técnica com gado bravo.
Fez a sua estreia como cavaleiro amador na Tourada de Estudantes, no Carnaval de 1998, em que lidou um animal da ganadaria de Humberto Filipe, tendo começado, três anos mais tarde, a lidar touros "a sério".
A 17 de junho de 2006, durante a primeira corrida da Feira Tauromáquica do Atlântico, integrada nas Sanjoaninas desse ano, recebeu a alternativa como cavaleiro profissional na Praça de Touros da Ilha Terceira, tendo como padrinho o cavaleiro Joaquim Bastinhas.
As crónicas dessa corrida marcante para o percurso de Tiago Pamplona como cavaleiro, publicadas na imprensa e na internet nessa altura, são positivas, sobretudo as referentes à lide do primeiro touro, um exemplar da ganadaria de Samuel Lupi.
"A alternativa é o momento mais importante da carreira de um cavaleiro tauromáquico. Foi um dia muito especial porque, para além de ter como padrinho Joaquim Bastinhas, que também tinha apadrinhado a alternativa do meu pai, o meu avô foi o diretor dessa corrida e toda a minha família esteve comigo na praça. Vivi esses momentos com grande ansiedade e alegria", afirmou.
Depois desse momento que marcou o início do seu percurso como cavaleiro profissional, Tiago Pamplona já participou em diversas corridas na Terceira e noutras ilhas, continente, Estados Unidos e Canadá.
Quando solicitamos para indicar qual a corrida que o marcou mais como cavaleiro para além daquela em que recebeu a alternativa, refere que "todas elas foram importantes".
"Encaro as corridas sempre da mesma forma e com uma grande vontade de triunfar, por isso é difícil dizer de quais tenho melhores recordações", disse.
Desde que recebeu a alternativa há oito anos, Tiago Pamplona tem-se apresentado em diversas praças com um estilo próprio que é marcado pela influência da tradição portuguesa do toureio equestre.
"Tenho agora um toureio mais maduro e pausado do que tinha no início da minha carreira, mas às vezes as coisas não correm bem, porque nem sempre o toiro nos deixa brilhar como queremos ou os cavalos não colaboram. Existem vários fatores que podem determinar o resultado de uma lide", adiantou.
Autodefine-se como um cavaleiro "clássico" que procura fazer a lide de acordo com as características de cada touro ou do cavalo.
A vida de um cavaleiro tauromáquico durante o defeso (inverno) é marcada pelos treinos e trabalho com novos cavalos e durante os meses de verão surgem então as rotinas relacionadas com a preparação das corridas.
Nesta altura, Tiago Pamplona prepara-se para se apresentar no próximo dia 21 deste mês na Praça de Touros da Ilha Terceira na primeira corrida da Feira Taurina de São João, que se realiza no âmbito das Sanjoaninas 2014.


Insularidade dificultaPor outro lado, assegurou que o facto de ter optado por permanecer na Terceira tem algumas desvantagens no que se refere ao acesso ao meio dos espetáculos taurinos a nível nacional.
"Já fiz corridas no continente em que levei os meus cavalos, mas isso significa um grande investimento em transportes. Também já toureei com cavalos emprestados, mas nesse caso nunca é a mesma coisa, porque não nos sentimos confortáveis com a responsabilidade de haver algum problema com os animais", afirmou.
Existem cada vez mais novos valores na tauromaquia a nível nacional, por isso Tiago Pamplona reconhece que "a competição é cada vez maior", mas acredita que pode conquistar o seu espaço com as suas qualidades.


in Diário Insular

Reportagem:Hélio Vieira
Fotografia: António Araújo

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Touradas à corda estão a ser banalizadas

Há vários fatores que têm ditado o decréscimo de qualidade das touradas à corda, acredita Bruno Bettencourt, autor do blogue Rabo-Torto. A manifestação taurina terceirense tem de ser preservada, diz.
 
DI - O blogue Rabo Torto é já uma referência no mundo da tauromaquia na Terceira. O que é que o fez avançar com este projeto?
O Rabo Torto - Blogue Tauromáquico surgiu na sequência de um pequeno sítio na internet que eu tinha criado em 2003, o "Sítio da terra". Entre as muitas informações ligadas à cultura terceirense, havia nesse sítio uma secção dedicada a uma das minhas paixões, a tauromaquia. Um pouco mais tarde, numa altura em que os blogues começaram a proliferar, reparei que era mais fácil atualizar informação em formato blogue do que no formato do sítio que eu tinha. A partir daí foi um saltinho e, em outubro de 2006, surgiu o Rabo Torto. Inicialmente a intenção era apenas partilhar aquilo que eu ia pesquisando sobre tauromaquia mas, rapidamente, dei por mim a fazer cobertura noticiosa de eventos tauromáquicos e a escrever crónicas taurinas. No entanto, tal como referi no primeiro post que escrevi, é um espaço sem obrigações e sem pretensões.
 
DI - Sente, aliás, que há uma lacuna na comunicação social açoriana no que diz respeito à cobertura noticiosa dos eventos tauromáquicos? Afinal, trata-se de um mundo que vive duma linguagem e de símbolos próprios, que é preciso conhecer...
Neste momento não diria que há uma lacuna assim tão grande. Para isto muito têm contribuído as redes sociais e, anteriormente, o "boom" que se verificou ao nível dos blogues taurinos. Uns mantiveram-se, como é o meu caso, apesar de serem mantidos por amadores movidos apenas pela sua afición. Além destes existe atualmente um programa radiofónico semanal dedicado à festa brava, uma página que é mantida no DI e uma revista anual, ambos da responsabilidade da Tertúlia Tauromáquica Terceirense. Esta semana será lançada mais uma revista de cariz taurino e há ainda a cobertura da Feira de S. João que é habitualmente feita pelo DI e os artigos mais virados para a tourada à corda, também publicados no vosso jornal. É preciso não esquecer que até há alguns anos atrás existiu um programa na RTP-Açores dedicado à tauromaquia e desapareceu. Aqui sim, há uma lacuna.
 
DI - Começa agora, na Terceira, uma época intensa em termos tauromáquicos: começam as touradas à corda e, depois, as corridas de praça. Sente que a Terceira pode oferecer um cartaz único aos aficionados?
A Terceira é, e arrisco-me a dizer, o local do país onde é possível qualquer aficionado assistir à maior variedade de manifestações taurinas. Assim sendo, já é oferecido um cartaz único. Ferras, tentas, touradas à corda, esperas de gado, espetáculos de variedades taurinas, corridas mistas, corridas à portuguesa, corridas apeadas, tudo isto está praticamente ao virar da esquina, à disposição de qualquer um de nós.
 
DI - E temos sabido aproveitar essa oportunidade?
A divulgação, dentro e fora de portas, tem sido feita. Há que continuar a divulgar. No entanto há que continuar também a preservar o que existe. Falando especificamente da tourada à corda, é crucial não desvirtuar as mesmas tendo em vista um eventual aproveitamento turístico. Esta é, acima de tudo, uma festa feita do povo para o povo. Há sim que sensibilizar quem nos visita para os eventuais perigos das mesmas, por exemplo.
 
DI - E já que falamos em touradas à corda, é impossível não notar o "boom" de eventos que se tem notado em todas as freguesias. Às vezes, quantidade não é sinónimo de qualidade. Essa premissa também se estende às touradas à corda?
Sem dúvida alguma a tourada à corda não foge à regra. Como já referi, é uma festa feita pelo povo, feita por todos nós. No entanto, a quase banalização deste tipo de espetáculo tem prejudicado o que realmente interessa: a qualidade do que se assiste nos arraiais. Refiro-me não só aos toiros mas também à moldura humana que é essencial neste género de acontecimento. Por vezes acontecem quatro ou cinco touradas num mesmo dia, é natural que o público disperse em demasia. Ao nível dos toiros, pessoalmente já nem sei quantos criadores de toiros existem cá na ilha. O amor pelos toiros, sentido pelos terceirenses, e a ligação ao meio agrícola, trouxe a desvantagem de fazer proliferar o número de criadores em demasia. Muitos dos quais possuem toiros de menor qualidade adquiridos a outros criadores. Este fator aliado a um menor preço cobrado pelo aluguer dos animais reflete-se no nível do espetáculo a que se assiste.
 
DI - E o que dizer do maior espetáculo taurino dos Açores, a Feira de São João? O cartaz apresentado traz boas surpresas?
Apesar do contexto económico em que se vive, acho que a Feira de São João de 2013 está bem montada. A redução do número de corridas, apesar de ser um fator menos agradável, vem permitir que se mantenha o nível da feira. Em apenas 3 corridas existe variedade de cartéis e nomes grandes do panorama taurino, aliciantes de relevo para quem assiste. Será muito interessante ver a disputa ao nível do toureio equestre entre os nomes Salgueiro, Pamplona e Lopes. No toureio apeado fica a expectativa de assistir às lides de Enrique Ponce, um toureiro que possui uma plasticidade e entendimento que lhe permitem brilhar com qualquer tipo de toiro, assim o queira e assim queiram os toiros. De salientar o facto das ganadarias locais se apresentarem novamente com curros de quatro anos para as lides a cavalo. À parte as corridas de praça, é preciso não esquecer ainda toda a vertente de "tauromaquia popular" que também é parte integrante da feira.
 
Entrevista: Oriana Barcelos - Diário Insular

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Adalberto Belerique - "...existe o custo da insularidade a limitar-nos"

Adalberto Belerique, cabo dos Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense, fez um balanço de temporada ao Taurodromo.com.

Adalberto Belerique é o cabo do Grupo de Forcados Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense desde 2001. Na temporada de 2013 o grupo completará 40 anos de actividade.

 Taurodromo.com (T) - Como considera que correu a temporada 2012 para o grupo?
Adalberto Belerique - O balanço desta temporada é francamente positivo para o Grupo. Tivemos 11 actuações, 8 nos Açores, 2 no continente e 1 no estrangeiro. Em todas elas, tivemos boas prestações e mostrámos coesão e maturidade. Temos noção que temos Grupo para mais, no entanto existe o custo da insularidade a limitar-nos.

T - Pegaram um total de 10 corridas, certo? Quais os melhores e piores momentos do grupo na temporada 2012 que gostaria de destacar?
Adalberto Belerique - Actuámos por 10 vezes em Portugal e uma no estrangeiro, mais propriamente no Canadá. Pela positiva, destacaria todas as corridas em que participámos, pela forma como as encarámos, e pelo ambiente de União com que foram vividas. Uma jornada especial, foi sem dúvida a viagem ao Canadá, pela forma como fomos recebidos e acarinhados, e também pelo compromisso que representou, pois pegámos toiros com idade e trapio, sem levarem qualquer ferro. Pela negativa, na minha opinião estão as lesões, que as houve.

T - Qual ou quais a(s) ganadaria(s) que o grupo mais gostou de pegar na temporada 2012?
Adalberto Belerique - Gostamos de pegar todas as que nos calham em sorte. Existem algumas que à partida impõe mais respeito, mas também existem por vezes surpresas, tanto pela positiva como pela negativa.

T - Neste defeso, há possibilidade de rumarem ao estrangeiro para pegar?
Adalberto Belerique - Existe essa possibilidade, e estão a ser delineados os pormenores de duas deslocações ao estrangeiro. Estas acontecerão na próxima época, a do nosso 40º aniversário. Se tudo se confirmar, os destinos serão México e França.

T - 2012 foi mais uma temporada sem bandarilhas de segurança. Como vê o permanente adiar da entrada em vigor do novo regulamento taurino?
Adalberto Belerique - Penso que é uma questão política, e por isso mesmo, e infelizmente, nos ultrapassa um pouco. No entanto, estamos no defeso que antecede mais uma época, e penso que deverá haver pressão de todos nós intervenientes da Festa, junto de quem de direito, no sentido de exigir a entrada em vigor do mesmo.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Ganadaria Francisco Sousa - entrevista




Fundada em 1927, a Ganadaria Francisco de Sousa (Cadelinha), a mais antiga da Ilha Terceira, com o ferro FS e divisa verde e lilás, é uma exploração agrícola familiar que sempre se dedicou à criação e maneio de gado bravo da terra, bem como gado leiteiro.
Desde algum tempo a esta parte esta exploração agrícola vem sendo gerida pela filha Laura de Sousa, que tem posto toda a sua aficion, saber, grande dedicação e novas ideias no que toca principalmente ao gado bravo. Foi ela que levou o pai a mudar de ideias, já que só a partir de 1997 é que a ganadaria passou a ficar com alguns novilhos para serem corridos à corda, uma vez que até aí os produtos da criação de gado bravo eram vendidos a outras ganadarias.
Com a ajuda do marido, Paulo Dias, que é o maioral, dedicando-se a tempo inteiro ao maneio de todo o gado bravo e leiteiro, Laura de Sousa, levou a família a aceitar que recentemente tomasse a decisão arrojada e única no historial da quase centenária ganadaria, de adquirir do continente vinte vacas de ventre e dois sementais de lide, cujas crias se destinarão, dentro de três ou quatro anos, a corridas de praça.
Mas, para mais detalhes, a seguir registamos o que nos disse Laura de Sousa sobre o assunto:

DIGA-NOS ALGO SOBRE A ORIGEM E LINHA DESTES ANIMAIS?
Em Abril de 2011 a nossa ganadaria adquiriu animais de raça brava de lide oriundos da ganadaria Engº Ruy Gonçalves. A aquisição destes animais é um sonho tornado realidade e uma aposta no melhoramento genético, neste processo demorado e minucioso como é a criação deste animal magnífico: o toiro bravo.
Deste lote de vacas cerca de metade têm origem Pinto Barreiros por via do Dr. António Silva (Coruche)  e de Oliveira Irmãos, através de animais de José Pedrosa, Visconde das Fontaínhas, David Ribeiro Telles e da própria ganadaria Oliveira Irmãos.
A outra metade são de origem espanhola já que nos anos noventa adquiriram uma ponta de vacas a D. Adelaida Rodriguez Garcia, de Salamanca, originárias da mais pura linha Lisardo Sanchez, ou seja, encaste Atanásio Fernandez. Esta linha é a que mais domina e caracteriza o efectivo adquirido ao Eng.º Ruy Gonçalves facto evidenciado pelo excelente trapio das vacas e do semental agora adquiridos. Este sangue está muito próximo do das mais cotizadas ganadarias da região de Salamanca tais como: Los Bayones, Puerto de San Lorenzo e Valdefresno e ainda da ganadaria sevilhana de Dolores Aguirre.
Em Outubro de 2011, a nossa ganadaria adquiriu ainda outro semental desta vez à Ganadaria São Torcato, no qual se depositam fundadas esperanças pelo sucesso já obtido na Ganadaria Eng.º Ruy Gonçalves, com a introdução de sementais deste mesmo encaste.

DESTE LOTE DE VACAS JÁ NASCERAM CRIAS NA TERCEIRA?
Curiosamente uma bezerra nasceu durante a viagem, a bordo do navio "Corvo", daí ter sido baptizada com o nome de "Corvina". Até agora, contando com as crias que vieram com as vacas e as que nasceram cá, temos um total de vinte e três crias, das quais já ferrámos onze, e, se todas vingarem, já temos uma dúzia para ferrar em 2013.

NA ALTURA DEVIDA, OS TOIROS, NASCIDOS OU POR NASCER, DESTE LOTE DE LIDE, SERÃO APENAS DESTINADOS À PRAÇA?
É esse o nosso objectivo. Esta aquisição foi uma aposta, tanto em quantidade mas sobretudo em qualidade, e será, pensamos nós, uma mais valia à festa de toiros, que tão bem caracteriza a nossa terra, e que decerto teremos oportunidade de apresentar. Acho que é sempre de salutar boas iniciativas com o intuito de melhorar e dignificar a criação do toiro bravo. Foi o que, pelo menos, tentámos fazer, no entanto é apenas o início de outra etapa, sempre trabalhosa e arriscada, pois veja bem: quando um toiro de quatro anos sai à praça, é nada mais nada menos o resultado de uma decisão tomada pelo ganadero há cinco anos atrás! Na criação de gado bravo, quer se destine à praça ou à corda, o objectivo é sempre a bravura, no geral, e atendendo a certas especificidades, consoante o tipo de lide, em particular, mas em ambos os casos são muitos anos, muitas adversidades, muitos sustos, muitos Invernos até ter o novilho/toiro pronto a ser lidado. Daí que, quando o resultado apresentado não corresponde às expectativas do ganadero não há desilusão maior, mas também quando corresponde ou até mesmo supera, não há maior satisfação.

QUANTAS CABEÇAS DE GADO BRAVO POSSUI ACTUALMENTE E ONDE PASTA TODO ESTE GADO BRAVO E O DE LEITE?
A nossa exploração anda à volta das cento e vinte e cinco cabeças de gado, bravo e leiteiro, em 720 alqueires de terra. Felizmente, a maior parte concentra-se no Pico da Bagacina, terreno pertencente à família, o que facilita imenso o maneio do gado bravo.Como já referi, gado bravo de lide temos quarenta e cinco cabeças distríbuidas da seguinte forma: vinte vacas de ventre, dois sementais e vinte e três crias das quais sete são machos e dezasseis fêmeas. Gado bravo dos Açores temos sessenta e cinco cabeças: vinte e cinco vacas de ventre, dez toiros corridos, doze novilhos puros para 2013 e as restantes são bezerros e bezerras.

TEM ALGO MAIS A ACRESCENTAR?
Aproveito a oportunidade para agradecer a todos quantos nos ajudam, tanto no trabalho de campo, nas touradas, bem como na realização dos nossos projectos. Agradeço esta conversa que tivémos, pois é sempre um prazer falar de toiros e uma oportunidade de falar acerca dos objectivos da nossa ganadaria. Além disso, a festa de toiros precisa que continuem a defendê-la e a enaltecê-la, principalmente de ataques de pessoas que desconhecem por completo toda a sua envolvência, e que a descrevem sem qualquer fundamento e nem correspondendo à realidade.

Entrevista realizada por José Henrique Pimpão
Fonte e fotos: Diário Insular

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Paixão pelos toiros - José Baldaya


José Baldaya passa muito tempo a cuidar do gado bravo nas suas propriedades na Caldeira Guilherme Moniz. Os toiros de lide são a sua grande paixão.
 
Quando José Baldaya Rego Botelho nasceu em Angra do Heroísmo, a 25 de maio de 1957, a ganadaria do seu pai - Gaspar Baldaya, estava a afirmar-se no meio taurino terceirense. Desde muito novo que começou a interessar-se pelos toiros.
Frequentou o ensino primário na Escola de Vale Linhares e o Liceu de Angra do Heroísmo até ao 5º ano. Decidiu prosseguir os estudos na Escola de Regentes Agrícolas de Santarém, mas regressou à Terceira passados três dias após o início das aulas. Volta ao Liceu de Angra para prosseguir os estudos, mas antes de concluir o curso complementar, decide dedicar-se apenas ao trabalho na lavoura e na ganadaria da família.
A ganadaria que hoje dirige foi fundada em 1953, quando o pai comprou dois novilhos de Castro Pereira e, mais tarde, em 1960, duas vacas de Dinis Fernandes e um semental de José Pedrosa. Os primeiros toiros da ganadaria de Gaspar Baldaya apresentaram-se na antiga Praça de Toiros de São João, em Angra do Heroísmo, no início da década de sessenta, depois de já serem presença habitual nas touradas à corda um pouco por toda a ilha.
Em 1979, a ganadaria expandiu-se com a compra de vacas e sementais de Ribeiro Telles, Rio Frio e Lupi, Oliveira Irmãos e Brito Paes. Após o falecimento de Gaspar Baldaya, em 1987, começou o trabalho de melhoria da qualidade dos toiros de lide da ganadaria com vacas de Simão Malta e sementais espanhóis Jandilla.
"Esse é um trabalho que continuamos a desenvolver com algumas dificuldades porque temos aqui na ilha o grave problema da paratuberculose. De um lote de mais de vinte novilhas conseguimos apurar sete ou oito e dessas acabam por morrer cinco ou seis. Se não fosse a paratuberculose estou convencido que seríamos uma das melhores ganadarias portuguesas", referiu.
No que diz respeito às touradas à corda, José Baldaya assegura que essa nunca foi área que a ganadaria que dirige tenha considerado com grande interesse porque a prioridade vai para os toiros de lide.
"Os toiros quando não são bons devem ser abatidos e não se deve mantê-los em grande quantidade nos pastos para dar muitas touradas à corda. Essa não é a minha maneira de estar nos toiros. Julgo que deveria haver metade das touradas à corda que há todos anos na Terceira porque, tal como acontece noutras áreas, o que é demais não presta", adianta.
Assegura que todo esse esforço e investimento não compensam em termos económicos mas que o gosto que tem pelos toiros faz com que tudo faça sentido. A casa agrícola que dirige também dispõe de explorações de gado de leite e carne.
"Como se costuma dizer, o que é feito por gosto regala a vida", deixou escapar no meio de nossa conversa.
Mas, para José Baldaya, a recompensa de tantos anos de trabalho na melhoria dos toiros que reserva para levar todos os anos à praça surge quando os nomes de primeiro plano da tauromaquia mundial que passam pela Feira de São João elogiam a qualidade dos animais da ganadaria.
Sonho do Campo Pequeno
Aquele que foi o momento mais alto do historial da ganadaria Rego Botelho ocorreu a 19 de maio de 2011, quando foi corrido na Monumental do Campo Pequeno, em Lisboa, um curro completo de toiros com quatro anos, nascidos e criados na Caldeira Guilherme Moniz. Pouco tempo antes dessa corrida na principal praça portuguesa, os toiros escolhidos para esse momento histórico estiveram na Herdade do Zambujeiro, em Évora, que é propriedade da Casa Agrícola Rego Botelho.
Todo o esforço para levar a Lisboa os toiros da ganadaria acabou por ser recompensado com os prémios de melhor curro e melhor toiro que passaram pela Praça do Campo Pequeno durante a temporada do ano passado.
"A corrida no Campo Pequeno correu muito bem. Senti uma emoção enorme, foi um dos dias mais emocionantes da minha vida", afirmou.
José Baldaya guarda todas essas recordações de momentos que hoje fazem parte da história de uma ganadaria que se não fossem os condicionalismos da insularidade poderia apresentar toiros com qualidade similar aos que vão a muitas praças portuguesas e espanholas.
 
Texto e Foto: Diário Insular

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Forcados do Ramo Grande vão ao Campo Pequeno

Em vésperas da deslocação dos homens do Ramo Grande ao Campo Pequeno resolvemos ouvir umas palavras do Cabo do grupo Filipe Pires.

Festa do Forcado: Que pensas desta forma de homenagear a cultura portuguesa?
Eu penso que é uma forma bonita de homenagear a figura do forcado, figura impar da cultura portuguesa. É um dia de exaltação para aqueles que são os verdadeiros "Românticos da Festa". Numa festa que junta todos os grupos pertencentes á Associação Nacional de Grupos de Forcados, onde é possível ter noção da grandeza e importância dos grupos de forcados na festa dos toiros. Tem uma estrutura de concurso em eliminatórias que distingue a melhor parelha de cernelheiros, que é um grande atractivo com grandes momentos de emoção e valentia e depois também as demonstrações de pegas e os veteranos que causam sempre grande entusiasmo ao público presente.

Quando te apercebes que efetivamente tinham possibilidades de vencer o V torneio de cernelhas? O que sentiste?
Nós fomos apenas com o intuito de participar e tentar dar o nosso melhor, uma vez que cá não se pratica pegas de cernelha e não é fácil arranjar gado para poder-mos treinar tal sorte fomos mesmo sem treinar.
Quando vi que só estavam já só quatro em competição foi o momento que vi que estávamos quase a conseguir um grande feito. Depois foi uma grande emoção quando nos apercebemos da realidade que tínhamos alcançado.

É a estreia do Grupo na primeira praça do País; como vai a moral do grupo com vista a este importante espetáculo?
A moral do grupo está elevada, era um dos nossos objectivos e consegui-lo assim por mérito próprio, ainda soube melhor. O grupo está motivado e consciente da responsabilidade que acarreta pegar na primeira praça do país.

Quais as expectativas para a vossa corrida em Lisboa?
As expectativas são enormes, queremos estar á altura de tamanha responsabilidade. Vamos dar o nosso melhor para que resulte numa boa noite de pegas e que fique uma boa imagem da raça e valor do forcado terceirense e da Ilha Terceira.

Que opinas sobre o cartel em que estão inseridos?
É um cartel que dispensa apresentações pois é composto por figuras bem conhecidas do público assim como a ganadaria, penso que tem tudo para ser mais uma grande noite de toiros.

Será mais uma noite terceirense em Lisboa. Já se fala em muitos terceirenses em Lisboa para assistir à corrida?
Sim alguns, é frequente vermos os terceirenses nas diversas praças por onde passam as pessoas da terra e no campo pequeno vai ser igual com grande numero de terceirenses a demonstrar o porque somos a ilha dos bravos.

Que pensas do cartaz taurino das sanjoaninas 2012?
Acho que este ano mais uma vez temos um bom cartaz com figuras de topo do toureio mundial. Penso que as corridas estão bem montadas, todas elas com diferentes atractivos tanto no toureio a pé como no a cavalo ou mesmo nos forcados. É pena haver menos uma corrida, mas é compreensível os tempos estão complicados e só espero que o público adira pois só assim é possível continuarmos a ter cartéis com qualidade na terceira.

Que outras corridas ou deslocações tem o grupo do Ramo Grande previstas?
Temos uma deslocação aos E.U.A. , para participar na corrida das festas de Turlock a 4 Junho e depois à Graciosa em Agosto, por enquanto é o que está certo mas acho que poderá haver mais qualquer coisa mas ainda não há nada confirmado

Ficam a vossa disposição estas linhas para mensagem final!
O G.F.A.R.G. é um grupo recente mas que tem tido uma evolução gradual ao longo dos últimos anos, conseguindo época após época dar passos importantes e marcantes para o grupo e para a toda a Ilha Terceira. Esperamos que esta seja mais uma boa época cheia de grandes momentos e emoções e que consigamos levar bem alto o nome do Ramo Grande e da Terceira pelas diversas praças mas também fora delas por onde formos passando. Obrigado a todos que nos apoiam e contem connosco para mais um ano de pegas...

sábado, 3 de dezembro de 2011

"Faltam idade e varas aos toiros na Terceira"

Entrevista ao ganadeiro José Baldaya do Rego Botelho

A ganadaria Rego Botelho, na qual tem responsabilidades, acaba de arrecadar dois dos mais cobiçados prémios nacionais - a melhor ganadaria e o melhor toiro. Para chegar aqui, foi necessário um percurso. Quais os principais passos dessa caminhada?
Os principais passos foram: a ganadaria que existia ficou somente destinada à tradicional tourada à corda; tentamos criar uma base sólida para o toiro de lide e assim adquirimos a uma das ganadarias mais importantes do mundo, a Ganadaria de Jandilla, 55 vacas apuradas e vários sementais; a construção de um novo tentadero com melhores condições de maneio e num lugar mais resguardado, o que nos facilitou, ao longo dos anos, uma seleção muito mais criteriosa. Pensamos que o incremento pecuário do nosso efetivo é um motivo de valorização das nossas explorações pecuárias, o que constitui um regozijo ao nosso trabalho enquanto ganadeiros e aficionados. A responsabilidade que estas distinções nos trazem são um incentivo para continuarmos no trilho das nossas escolhas.

Estas distinções poderão abrir as portas da vossa ganadaria às praças portuguesas. É vosso objetivo apostar nessa oportunidade?
Não, não é nosso objetivo, aliás porque as portas nunca estiveram fechadas, apenas decidimos apostar nesta altura porque tínhamos uma camada maior e condições para tal, não defraudando os compromissos que temos nos Açores. No entanto, o toiro bravo não conhece limites geográficos e é gratificante observarmos que o nosso trabalho é apreciado por outros locais onde somos solicitados. Uma coisa é certa: estas distinções não alteram em nada os nossos critérios. Selecionamos com o mesmo rigor de sempre...

A temporada taurina na Terceira faz-se sobretudo com corridas à corda, modelo que exige um tipo específico de toiro. Essa realidade pode limitar o vosso trabalho no apuro dos animais para as exigências da praça?
Não, porque nós temos a ganadaria dividida em duas linhas completamente definidas. Entenda-se que o toiro de lide e o toiro de corda divergem na grande maioria dos seus caracteres. Diferenciam-se na sua morfologia, no comportamento e na sua atitude combativa. Isto não significa que os animais não tenham um fundo de bravura "pura" semelhante; a pedra de toque entre as duas modalidades ganadeiras é a seleção, substancialmente diferente entre o toiro de corda e o toiro de lide, mas de exigência semelhante com vista à obtenção de resultados positivos.

A época de praça nos Açores ameaça todos os anos com um "boom", mas nunca acontece. O que nos falta para dar o salto?
Do ponto de vista estritamente ganadeiro e no que a nós diz respeito, sou da opinião que esse "boom" já se deu. Na realidade, os resultados apresentados em praça, sobretudo nos últimos anos, julgo serem reveladores que a nossa ganadaria atravessa um bom momento, o que nos deixa muito contentes pelo contributo que essa realidade tem vindo a transmitir ao espetáculo. No entanto e para que o referido "boom" seja completo, é importante realçar que existem outras condicionantes sem as quais dificilmente conseguiremos por inteiro tal objetivo, como sejam lidar os toiros com idade (quatro anos) nas corridas apeadas, submetendo-os necessariamente à sorte de varas. Só assim conseguiremos trazer figuras de primeiro plano à ilha Terceira. Reunidas estas condições, a nossa festa poderá passar a ter a tão desejada relevância no circuito mundial do toureio.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Passes de uma vida de risco

Publicado a 16 de Agosto de 2011


No bilhete de identidade, o nome é Joaquim Gonçalves Lastim. No conhecimento popular, é Joaquim Burra Branca, um dos mais afamados capinhas da Terceira. Burra Branca, fica a explicação, advém do cabelo grisalho precoce.
O estatuto de capinha conquistou, desde miúdo, à conta de muitos passes à frente de toiros em praticamente todas as freguesias da ilha.
Juntamente com o pai, o então jovem Joaquim Burra Branca não falhava nenhuma toirada à corda. Situando a história no tempo, recua-se pelo menos seis décadas e fica a memória, na primeira pessoa, de uma época em que se ia aos toiros "a pé ou de carroça", porque automóveis era regalia só para meia dúzia de afortunados.
Ao fulgor próprio dos verdes anos, juntaram-se os inevitáveis desencantos da vida. O ferimento num joelho e o falecimento da mãe esmoreceram-lhe a vontade de ser capinha. O povo manifestou pena pela retirada e um aficcionado, para que Joaquim Burra Branca voltasse a ser capinha, ofereceu-lhe dois fogões primos.

Elogios só para o passado
Joaquim Burra Branca, funcionário da Casa Agrícola José Albino Fernandes há cerca de meio século, tem 80 anos de idade, tendo dado o “último passe” há três anos no Corpo Santo.
Uma coisa é certa, segundo Joaquim Burra Branca: "à saída das gaiolas, qualquer um pode brincar com o toiro", uma vez que o animal vem desorientado e quer é correr o mais possível.
A seguir, é que entra a perícia do capinha em acção. "É preciso marcar o toiro e escolher a melhor posição" - explica Burra Branca, ao mesmo tempo que tira o chapéu a capinhas do "tempo antigo" - Manuel Barrela, João Rosário, José Friza, Paulo Adura, José Chinelo, Agostinho da Fonte Bastardo, Dimas de Santa Bárbara, Prosa e Gabriel Patachon.A reverência pelo passado não tem, contudo, continuação no presente. "Não posso gabar nenhum dos capinhas actuais " - sentencia, de forma peremptória, Joaquim Burra Branca.Os argumentos para a avaliação são mais que muitos. Antigamente, os capinhas davam quatro/cinco passes com o guarda-sol, sendo que hoje são às dezenas.
No "seu tempo", adianta, os capinhas tinham a preocupação de levar o toiro à parede, investindo contra os muros dos quintais, enquanto que agora o animal não sai do meio da rua."Os capinhas trabalhavam em conjunto, defendendo o toiro. Agora, os toiros ficam tontos com tantos passes" - lamenta Joaquim Burra Branca, lançando ainda farpas à "forma descuidada" como os capinhas se apresentam nas toiradas.A indumentária correcta, no seu entender, passa por um casaco e um guarda-sol, de preferência com a cor preta.Actualmente, vê os capinhas de guarda-sóis com cores berrantes, cobertores, papelões e sacas para os passes aos toiros que já não se sentem à vontade com caminhos de alcatrão em vez dos antecedentes de terra batida.
"Fico como lume quando vejo as pessoas bater palmas porque o toiro está de pernas para o ar" - confessa o desassossego de um homem habituado a cumprir outras regras: "o toiro era para os capinhas e a corda para os pastores".
"Não vejo futuro para esta mocidade de capinhas e o povo percebe cada vez menos de toiradas" - são as conclusões de Joaquim Burra Branca, que afirma convictamente "nunca ter sentido medo do toiro".
Foi pegado umas quantas vezes e teve de ser submetido a uma delicada intervenção aos testículos. Há uns anos, na ainda freguesia das Lajes, um zeloso sub-chefe da PSP não queria dar ordem para que o primeiro toiro saísse face à presença de um idoso junto às gaiolas. O povo apercebeu-se que o idoso em questão era o Burra Branca e foi a gargalhada geral.
O toiro lá saiu e o experimentado capinha deu o show de costume. "Foi palmaria brava" - recorda Joaquim Burra Branca, homem que se namorou mas nunca chegou ao altar."As raparigas diziam que ser capinha era muito perigoso e que eu ia morrer novo. Eu ainda cá estou. Lá em cima, Deus é que sabe..." - concretiza.

Toiros, alcunhas e "Avião da Palheta"
Os toiros são conhecidos, nas ganaderias, através da atribuição de números.
Porém, e face a peripécias vividas nas toiradas, o povo não se coíbe de acrescentar algumas alcunhas.O "Alfaiate", por exemplo, pegou num alfaiate. O "Americano", a mesma coisa e o "Assassínio" ganhou nome feio por ter morto um homem.
A mais curiosa alcunha será, porventura, a de "Avião da Palheta". A história é simples: em dia de corrida em São Brás, o toiro fugiu e obrigou o ganadero, José Albino Fernandes, a mover-lhe uma perseguição, que envolveu a participação de um helicóptero.
Mesmo com um atraso considerável à mistura, o dito toiro lá marcou presença em São Brás para gáudio do povo...

João Rocha in A União
Foto: Paulo Almeida

domingo, 15 de maio de 2011

Toiros de topo

Publicado a 15 de Maio de 2011


Diz quem percebe que os toiros da ganadaria Rego Botelho, agora nas mãos de José Baldaya, poderiam ser corridos em qualquer praça do mundo. Animais apurados, são resultados de um trabalho longo e rigoroso. diXL esteve à conversa com o ganadeiro sobre toiros de lide, a corrida no Campo Pequeno e a sorte de varas.



Faltam já poucos dias para que José Baldaya Rego Botelho veja mais um sonho cumprido. Os seus toiros, que aguardam alheios na Herdade do Zambujeiro, em Évora, serão lidados na Monumental do Campo Pequeno. A praça, que comemora no próximo dia 19 de maio o quinto aniversário da sua reinauguração, acolhe pela primeira vez um curro nascido nos Açores, num espetáculo que estará a cargo de nomes grandes da tauromaquia como os cavaleiros Joaquim Bastinhas, Luís Rouxinol, e os matadores António Ferrera e Alejandro Talavante. O dia será com certeza de festa, mas aguardar com calma e ponderação é o truque para evitar inquietações antes da hora.

É por isso que o ganadeiro se diz tranquilo. A corrida será uma estreia, um marco na história desta ganadaria e da tauromaquia terceirense, mas José Baldaya é cuidadoso nas palavras e prefere não se alongar em prognósticos. "Será, pelo menos, um momento importante para mim se a corrida correr bem e se for um êxito. Estou confiante, ainda não estou muito nervoso, embora saiba que toiros não são matemática e que às vezes as coisas não correm como esperamos", sublinha.

José Baldaya, empresário agrícola, proprietário de gado bravo, gado leiteiro e de engorda, é um aficionado por tradição e hereditariedade. A maior parte do seu tempo é passada na Caldeira Guilherme Moniz, onde os animais pastam pacificamente. É um gosto que também já passou às suas duas filhas. Maria Rego Botelho é já também presença conhecida no mundo da tauromaquia regional.

A ganadaria que hoje dirige, de divisa azul e branca, foi um trabalho iniciado pelo pai, Gaspar Baldaya, em 1953, com a aquisição de reses de Castro Pereira, acrescentada mais tarde, em 1960, por vacas de Dinis Fernandes e um semental de José Pedrosa. Em 1979, a ganadaria aumenta com a compra de sementais e vacas de Ribeiro Telles, Rio Frio e Lupi, Oliveira Irmãos e Brito Paes. Mais tarde, são acrescentadas vacas de Simão Malta e vacas e sementais de Jandilia. Segundo José Baldaya, é com esta última aquisição que a ganadaria dá o salto qualitativo de que precisava, ganhando ainda maior notoriedade. "Com a compra que fizemos em Espanha há 18 anos e com o bom comportamento que os nossos toiros têm apresentado em praça quando lidados por toureiros espanhóis de renome, que depois acabam por passar a palavra, não só se torna mais fácil a contratação de grandes figuras como a ganadaria ganha também o seu espaço no mundo da tauromaquia", adiantou o ganadeiro.

A verdade é que ao longo dos tempos a ganadaria Rego Botelho tem proporcionado espetáculos de topo, sobretudo nas últimas edições da Feira de São João, em que ofereceu momentos de êxito a grandes nomes da afición como os matadores espanhóis Manuel de Jesus "El Cid" e Júlian Lopez "El Juli". Os seus toiros, tal como se lhes é exigido, investem com qualidade e facultam um toureio dinâmico, bonito e exigente. "É essencial que o animal, ao longo da lide, vá crescendo e não diminuindo, facilitando o toureio que as pessoas gostam de ver", frisa o ganadeiro José Baldaya.

O resultado de um trabalho intenso e minucioso são toiros que poderiam ser corridos em qualquer praça do mundo taurino. A qualidade dos animais é inegável e é o produto de uma seleção apertada. As tentas dos Rego Botelho decorrem ao mesmo nível que qualquer outra ganadaria do primeiro plano em Espanha. As vacas que não interessam, e seguindo a linha de pensamento e actuação de José Baldaya, são abatidas.

Mas os percursos não são sempre lineares e a verdade é que não existem ganadarias sem problemas, negócios sem preocupações. A grande apreensão dos herdeiros da ganadaria Rego Botelho continua a ser a paratuberculose, uma doença infecciosa que atinge os bovinos provocando-lhes, por vezes, a morte. As zonas húmidas da ilha, onde pastam os animais, são propícias à propagação da doença. Depois, as raças mais apuradas são também mais suscetíveis de contrair a doença. "Suponhamos que num ano tentamos 20 vacas e que dessas 20 aprovamos 10. Dessas 10 são capazes de morrer quatro ou cinco, pelo que o problema da mortandade é realmente grave", adiantou.

As preocupações com uma ganadaria são muitas e parecem multiplicar-se a cada dia. No entanto, a competição entre ganadeiros ainda não é uma delas. O número de ganadeiros de toiros de lide na ilha ainda não é significativo, pelo que Rego Botelho consegue marcar confortavelmente o seu espaço na liderança tauromáquica. Todos os anos, a ganadaria arrecada prémios sem fim, perante a plateia atenta na praça de Angra do Heroísmo. O concurso de ganadarias consegue sempre encher a Monumental da ilha Terceira de aficionados entusiasmados que torcem pelos seus animais e ganadeiros favoritos. José Baldaya Rego Botelho é um deles.



"A sorte de varas é essencial"

Apesar do gosto manifesto pela festa brava, é mesmo na praça que quer ver os seus toiros. O desenvolvimento e evolução da ganadaria Rego Botelho têm decorrido sempre no sentido do aperfeiçoamento dos toiros que são corridos em praça. José Baldaya diz-nos, aliás, que se por alguma razão deixasse de ter toiros de lide, provavelmente desapareceria também a ganadaria. "Os toiros de corda são só uma achega", diz-nos.

Para José Baldaya há, neste momento na Terceira, alguma incompatibilidade entre os toiros de lide e os toiros de corda. O ganadeiro defende o abate do toiro que na praça não cumpre, que não investe. No entanto, são esses os toiros que são utilizados vezes sem conta, nas ruas da ilha, tendo em conta o preço a que se ofereçam as touradas e não a qualidade do espetáculo. "A maior parte do que se vê por aí não tem interesse nenhum", sustenta. E o herdeiro da ganadaria da divisa azul com as insígnias RB prefere não correr esse risco.

Este ganadeiro terceirense é, como pudemos presenciar, um homem crítico e de posições firmadas. Não é pois de estranhar que José Baldaya continue a ser uma das vozes sonantes quando a problemática discutida é a proibição da introdução da sorte de varas nas praças açorianas. Uma medida que, no seu entender, não faz qualquer sentido e constitui um obstáculo claro ao progresso das lides taurinas da Região. A questão continua a ser amplamente falada no mundo tauromáquico, ainda que aparentemente sem efeito, já que o problema já foi discutido no parlamento regional passam já dois anos.

O herdeiro da ganadaria Rego Botelho não teme dizer, ainda assim, que permitir a realização das corridas picadas é essencial. "Os toiros aqui são lidados com três anos, são novilhos e, em todo o mundo, onde se se realizam corridas de toiros com quatro anos, lide a pé, em Espanha, França, países América Latina, em todos esses países os toiros são picados. Somos os únicos que não o fazemos e isso é um contrassenso. Nós devíamos copiar quem faz bem feito. Em Portugal faz-se ao contrário. Nós temos que fazer a seleção e fazemo-la picando as vacas. Porque não se pica, então, na praça?", questiona.

A abolição da sorte de varas no arquipélago é, entende, uma questão política sem cabimento que compromete o toureio moderno. No entanto, acredita, nada mudará enquanto não mudarem os responsáveis, os rostos políticos que travaram as corridas picadas nos Açores. "Foi-nos dito pelo presidente do Governo Regional que ele próprio levaria a questão da sorte de varas à Assembleia Regional mas, no fim, roeram-nos a corda. Houve falta de seriedade no processo", considera.

Política e tauromaquia têm-se misturado vezes demais, aliás. Não tanto em Portugal, mas em regiões como a Catalunha, que viu serem abolidas, no ano passado, as corridas de toiros nas praças locais. Um cenário que nunca poderia acontecer nos Açores, acredita o ganadeiro para quem o abolir da tourada de praça representa uma falta de democracia. "Na Catalunha a tourada é o segundo espetáculo de massas. Talvez o seja em também em Portugal, ainda que seja apreciado por uma minoria. Mas as minorias também têm direito à vida. Não faz sentido levarem uma questão como essa a parlamento", sustenta.

Numa ilha como a Terceira onde o toiro é rei e onde o número de aficionados é grande, a abolição das touradas nem é equacionável. Aqui, nem os movimentos a favor dos direitos dos animais e contra as touradas têm expressão significativa. Não como em Lisboa, por exemplo, onde José Baldaya já assistiu a algumas manifestações. Uma vez, é verdade, a praça de Angra do Heroísmo foi pintada, em forma de protesto, mas isso aconteceu de noite, tal como lembra o ganadeiro. Um sinal, talvez, da falta de força desses agrupamentos.

Nada disso impediu a ganadaria Rego Botelho de crescer e o espetáculo na Monumental do Campo Pequeno é prova disso. A corrida no próximo dia 19 de maio é, como nos dizia José Baldaya, uma aspiração antiga que só este ano viu todas as condições conjugadas para se tornar realidade. O feito vai ficar gravado nas memórias da tauromaquia, nomeadamente através do lançamento de um selo, a cargo do Núcleo Filatélico de Angra do Heroísmo. As cartas estão lançadas e, como é costume dizer-se nas lides taurinas, "que Deus reparta sorte".



Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More