Para Miguel Azevedo, foi na Tourada dos Estudantes que nasceram os
grandes nomes da tauromaquia terceirense, mas é preciso recuperar o
festival, porque os cavaleiros e toureiros não se têm renovado.
Este ano, não se realiza, em Angra do Heroísmo, a Tourada dos
Estudantes, uma tradição de Carnaval com quase um século. Na sua
opinião, o que provocou este desfecho? Os alunos perderam o interesse?
O
que se verificou este ano foi, essencialmente, a falta de interesse dos
estudantes. Podem apontar-se várias razões para que a Tourada dos
Estudantes, na sua totalidade, não se realize, mas quando houve apenas
15 inscritos para a mesma poderia estar tudo dito. Recordo que, há não
muitos anos, esse número ultrapassava a centena, e havia os "cortes"
para selecionar os 60/70 que fariam parte do cortejo e da garraiada.
Acho que não se deve dramatizar a situação, mas sim tirar as devidas
ilações da mesma. Até porque se fez a Tenta, se deu a Volta à Ilha e,
com a ajuda de alguns - infelizmente sempre os mesmos -, até haverá no
sábado uma "brincadeira" na Praça de Toiros Ilha Terceira, que evocará a
Tourada. Mas a verdade é que, nos últimos anos, as bancadas têm tido
sempre as mesmas pessoas - e poucas -, mesmo se o cortejo vinha mantendo
um nível engraçado. Acredito é que esta seja apenas uma crise
passageira e que em 2017 haja novamente a festa em todo o seu esplendor.
Uma das alunas que tentava organizar este ano a Tourada dos
Estudantes disse a DI que os pais estavam renitentes em deixar os filhos
participar. Esta tradição ganhou má imagem nos últimos anos?
Não
vejo as coisas assim. Ou então a memória dos pais da nossa terra está
muito fraca. Não há casa, especialmente em Angra, onde não haja uma
recordação da Tourada dos Estudantes. Ela foi também a porta de entrada
no mundo taurino para muitos jovens ao longo de décadas, para lá da sua
vertente crítica e cómica, que sei ser, ainda hoje, motivo de tantas e
tantas histórias. Claro que houve excessos e hoje há uma data de
problemáticas com os mais jovens, às quais nem se ligava anteriormente.
Mas não acredito que o afastamento seja por via dos pais, nem que a
Tourada dos Estudantes tenha má imagem. Espero que a vontade da Mariana e
dos seus amigos prevaleça nestas novas gerações.
Acredita que ainda será possível recuperar a Tourada dos Estudantes?
Penso
que sim. Tenho uma opinião muito própria sobre vários fenómenos da
nossa terra, pois a inconstância das gentes ganha terreno de uma forma
preocupante. Mas acho que é uma tradição que vai ressurgir, depois desta
"escorregadela". Para isso, é preciso recuperar a parte séria da
Tourada, com cavaleiro, toureio apeado e as sempre presentes pegas,
porque a Tourada dos Estudantes era um pequeno festival, mas com todas
as cortesias, e lá nasceram quase todos os nomes grandes da nossa
tauromaquia. Ou então, toda a pedagogia que está ser criada em torno da
Festa Brava falhou no essencial, porque os artistas não se renovaram,
com excepção dos forcados. Esse é um ponto essencial. O resto tem a ver
com a vontade e a irreverência dos estudantes. Têm de ser eles a
perceber que vão acabar com algo que sobreviveu a todo o Estado
Novo...esperando que a maioria saiba o que isso foi.
A Tourada dos Estudantes tinha uma vertente de crítica
social, com o cortejo realizado na Rua da Sé. O que é que se perde com o
seu fim?
Pode perder-se um momento único em cada Carnaval,
pois o cortejo espelha vários momentos e factos da nossa terra e da
atualidade política e social. Há factos da nossa História que estão
relatados nas memórias da Tourada dos Estudantes. A minha dúvida, e
estendo isso a outros campos, é se a nossa sociedade ainda sabe
criticar. Ou se apenas o faz porque sim, porque faz parte, mas já sem
crença de que, efetivamente, a crítica possa mudar alguma coisa. Há uma
censura silenciosa presente nas nossas vidas, mas já estou a fugir da
temática, e o Entrudo é para sorrir.
A perda deste momento de análise
crítica do que se passa na Terceira será um espelho da sociedade atual,
que cada vez mais opta por não se pronunciar?
Como referi, não
acredito que a Tourada dos Estudantes fique por aqui e ficaria muito
triste se assim acontecesse. Mas temos de ser realistas e dar lugar a
quem deve fazer as coisas, se as quiser fazer. Os estudantes e os jovens
desta terra têm nas mãos uma tradição quase centenária, que deviam
querer manter e acarinhar. Não podem ser os pais, as câmaras ou as
empresas a suportar as coisas e a fazer-lhes a "papinha" toda. A
iniciativa tem de ser deles, e o que não faltam são pessoas que podem
ajudar. Discordo que a solução passe por formar mais uma associação para
viver de dinheiros públicos, pois isso é o mesmo que assinar a sentença
de morte do que foi a Tourada dos Estudantes desde os anos 20 do século
passado. Não queiramos sistematizar o que nunca fez parte de um
sistema. Sou contra isso.
Desfile da tourada dos estudantes.
Miguel Azevedo, em 1998, (em cima) e o pai, em 1967, (em baixo) participaram na tradição

Participou várias vezes na Tourada dos Estudantes. Que memórias guarda desses tempos?
Participei
dez vezes, diretamente, na Tourada dos Estudantes. Fiz parte da sua
comissão organizadora em 1997 e durante vários outros anos ajudei as
várias comissões da melhor forma que soube. E já escrevi muito sobre
esta tradição. Existem imensas histórias para contar, mas houve uma
coisa que aprendi com toda a experiência num evento tão popular e
intenso, que é o prazer de partilhar as recordações de uma forma
saudável. Tal como o gosto de ficarmos com o nosso nome ligado a algo
que fez rir, que criou bons momentos, que solidificou amizades, fez
surgir namoros e até casamentos, que marcou decididamente a nossa
adolescência e mesmo a idade adulta. Penso que o lado bom das tradições é
esse mesmo e traduz-se no fomento do amor às causas. O resto, tudo que
seja forçado e impingido, ou soa a balelas ou vem de quem tem muita
necessidade de aparecer. Mesmo se no Carnaval, ninguém leva a mal. Viva a
Tourada dos Estudantes.