Não é
toureiro quem quer, mas sim quem pode. A afición terceirense sente isso e
valoriza-o. Mais do que se deixar embalar pela cadência de um lance pleno de
temple, ou pela plasticidade da flanela rubra ante a fúria de um bravo, esta emociona-se
com a entrega de um toureiro. Foi assim que Juan Leal tocou fundo nos quase ¾ de
casa que estavam na Praça de Toiros “Ilha Terceira” no passado dia 28 de Junho.
Uma tarde ventosa em que a chuva caiu até pouco antes do início da corrida. A
Feira era a de S. João e, a confirmar o nome do patrono, Juan foi levado em
ombros como se estivesse a ser passeado num andor.
O triunfo
ganhou cor no segundo do seu lote, um Jandilla (J) (nº100, 460Kg) que investia
a galope e de forma repetida, nunca virando a cara à luta. O melhor exemplar da
tarde. O diestro francês foi recebê-lo à porta dos curros, de joelhos, com uma
larga afarolada, lance que repetiu já com o oponente em praça. Continuou
lanceando sempre de joelhos em terra fazendo soar a primeira ovação da tarde.
Após alguma chicuelinas bem desenhadas, prossegiu por zapopinas rematadas com
nova larga de joelhos. No remate é colhido na zona do tronco e temeu-se alguma
gravidade, mas logo se levantou e continuou lanceando para delírio da
assistência. A praça era sua. Com a muleta, baseou-se na mão direita. Sacou
séries de derechazos com temple e profundidade, as quais foi intercalando com
circulares invertidos. Terminou, com bernardinas, uma lide triunfal que
levantou as bancadas e lhe proporcionou duas voltas à arena. Para que esta
função fosse mais completa, João Pedro Silva “Açoreano” e Gonçalo Toste
estiverem em grande plano nas bandarilhas, ainda que o primeiro não se tivesse
livrado de um valente susto após a cravagem do seu segundo par.
No primeiro
do seu lote (Rego Botelho (RB), nº 46, 475Kg), Leal já havia mostrado que vinha
para triunfar. Ante um exemplar que se metia por dentro e procurava o vulto
quando lidado pela esquerda, o Matador arriscou e foi ao limite, traçando uma
lide agradável que chegou às bancadas, fruto da sua entrega e persistência.
Diego
Urdiales abriu praça diante de um RB (nº42, 415Kg) distraído que foi melhorando
um pouco ao longo da lide, até ter rachado. O de La Rioja entregou-se e apesar
da pouca réplica do oponente, escolheu os terrenos e tapou alguns dos defeitos
do hastado, sacou-lhe a atenção e desenhou séries pela direita, de grande
valor. O exemplar de J (nº 97, 445Kg), que lidou já na segunda parte, investia
com a cara a meia altura e por vezes saía das sortes, vindo a menos. Urdiales
procurou corrigi-lo lanceando com o Capote por baixo, repetindo-o com a Muleta.
Deu vantagens ao novilho na escolha de terrenos e procurou sobressair com
algumas séries de interesse, no entanto, a matéria-prima que tinha por diante
não permitia melhor.
A Jiménez
Fortes coube o lote de menor qualidade. O RB (nº30, 465kg) era bonito e deu
boas indicações na saída, no entanto foi ficando curto de investida, metia-se
por dentro e derrotava alto pela esquerda. A iniciar o tércio de Muleta, o
Matador foi destapado pelo vento e foi volteado sofrendo um “puntazo” na coxa
direita. Esteve laborioso e procurou fazer o que era possível diante de um novilho
que não transmitia. Prolongou a lide em demasia. Na sua segunda aparição em
praça, esteve em melhor plano. O novilho (J, nº16, 495Kg) foi dando boa réplica
de início permitindo duas séries pela direita com bom ritmo e bem ligadas, no
entanto havia de encurtecer a investida. Terminou assim a sua presença com uma
lide agradável mas sem grandes motivos de realce.
Em dia de
aniversário, Manuel Dias Gomes apresentou-se em Portugal como Matador de
toiros. Diante de um exemplar RB (nº44, 430Kg) rubricou uma grande lide. Tirou
partido das boas condições do oponente e com a mão direita imprimiu
profundidade e arte, fixando o pé e fechando o compasso ao longo das séries.
Mostrou entrega, saber e vontade de triunfar. O seu segundo (RB, nº45, 520Kg)
era mais desluzido do que o anterior. Manteve sempre a cara a meia altura. Uma
vez mais, Dias Gomes andou acoplado ao novilho. A destacar uma das séries de
derechazos, longa, cingida e plena de temple. Apesar da entrega, não suplantou
a sua primeira lide.
Voltando ao princípio,
a corrida dirigida por Carlos João Ávila assessorado pelo Dr. José Paulo Lima,
iniciou-se com um “passeíllo” onde estiveram incluídos picadores. Apesar de ser
discutível esta inclusão, tendo em conta a proibição da sorte de varas há já
alguns anos nos Açores, não deixa de ser uma presença simbólica e até uma forma
de protesto, aliada às raias que se encontravam desenhadas na arena. Se nas
corridas de Gala à Antiga Portuguesa, as cortesias são plenas de simbolismo e
evocação de tempos idos, o mesmo também poderá acontecer nas corridas em que só
actuem Matadores de toiros, as corridas “à espanhola”.
Abrilhantou
a Banda da Sociedade Filarmónica Rainha Santa Isabel das Doze Ribeiras.
Bruno
Bettencourt